domingo, 20 de novembro de 2016

UM MORADOR DE RUA CHAMADO "SEO" JOEL - A HISTÓRIA DE UMA RESISTÊNCIA

“Seo” Joel conta que quando tinha 18 anos ‘juntou’ com uma mulher que tinha mais de 40 anos, também moradora de rua, e que teve com ela duas filhas gêmeas. “Um ano depois ela foi embora com outro homem e nunca mais vi minhas filhas”. Disse que elas também não foram batizadas.

O registro civil dele só foi obtido recentemente, no dia 30 de agosto de 2016. Até então, como ele fala, “não era ninguém, não podia conseguir nada”. E continua: ”Quando eu tinha 7, 8 anos entregava jornal igual os “pequenos jornaleiros” (http://www.fdv.org.br/historico.asp) e dava os trocados pra minha mãe. Depois a mulher que cuidava de mim foi pra São Paulo e eu fiquei andando pelo mundo, passei muita fome, sofri muita humilhação. Eu capinava uns quintais pra ganhar uns trocados, mas não era sempre que conseguia, não”.
A vida é generosa. Tão generosa que incessantemente se apresenta para nós de forma gritante, nos chama, nos solicita, nos impele, nos provoca.
A vida nos quer em projeção incessante, nessa eterna construção que somos. Muitas vezes desatentos, é verdade que também somos, e até distantes de nós mesmos, de sentimentos e coisas que contam, mas nada que não se possa corrigir. A vida nunca nega outra oportunidade.

E se o todo sem parte não é todo, como não somos sem o coletivo e vice-versa, que não nos limitemos ao aparente e construamos o infinito. E construir o infinito (que é o desenvolvimento de nosso sentimento) é saber escolher com cuidado nossas atitudes cotidianas, elas definem nossas travas - que travam muito além de nós - ou a construção da liberdade. 

E sem o outro, ou sem nossa disposição para “ver” o outro, isso é impossível. Daí, quando buscamos andar despojados de limitações que nos foram impostas, de um estilo de vida que nos reduz o sentimento e faz sucumbir, e que comumente reproduzimos em nosso cotidiano, essa matéria vida nos abre possibilidades e possibilidades e possibilidades, e todos os encontros possíveis. A redução, ou brutalização, do sentimento é a redução da vida, o caos do não amor.

Sou um tanto desastrado, mas tenho tentado isso, esses encontros. E saibam que num desses passes encontrei uma fábula: “seo” Joel, ‘nascido no oito de dezembro de 1916’, como ele diz, 'debaixo do viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte', morador de rua de uma vida inteira, em qualquer sentido, 99 anos. (PS - Na verdade seu nascimento deve ter ocorrido na região do viaduto, já que este foi construído em 1929)


“Sou pagão, nunca fui batizado e morei lá com minha mãe até nove anos. Aí ela morreu de uma picada de um escorpião, eu tinha nove anos. Meu pai morreu antes ‘d’eu’ nascer, de pneumonia por causa da friagem de rua. Uma dona que era amiga de minha mãe que morava lá também cuidou de mim”.

“Seo” Joel conta que quando tinha 18 anos ‘juntou’ com uma mulher que tinha mais de 40 anos, também moradora de rua, e que teve com ela duas filhas gêmeas. “Um ano depois ela foi embora com outro homem e nunca mais vi minhas filhas”. Disse que elas também não foram batizadas.

O registro civil dele só foi obtido recentemente, no dia 30 de agosto de 2016. Até então, como ele fala, “não era ninguém, não podia conseguir nada”. E continua: ”Quando eu tinha 7, 8 anos entregava jornal igual os “pequenos jornaleiros” (http://www.fdv.org.br/historico.asp) e dava os trocados pra minha mãe. Depois a mulher que cuidava de mim foi pra São Paulo e eu fiquei andando pelo mundo, passei muita fome, sofri muita humilhação. Eu capinava uns quintais pra ganhar uns trocados, mas não era sempre que conseguia, não”.

Lembra que com 15 anos foi para Aparecida do Taboado (na época pertencente ao estado Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul - https://pt.wikipedia.org/wiki/Aparecida_do_Taboado). Eu não sei se era São Paulo ou Mato Grosso, fui trabalhar numa fazenda e virei escravo lá, eles batiam na gente com chicotadas, fiquei lá dois meses”.

E conta como fugiu: “Saí escondido numa carroça de capim, debaixo do capim. Aí um moço lá fincava o capim com o garfo pra ver se não tinha nada escondido, mas não me acertou. Aí voltei pra Belo Horizonte e fiquei com a dona que cuidou de mim e com o marido dela, que ela voltou pra Belo Horizonte, e “tô” aqui até hoje”. Mais tarde seo Joel teve outra filha e conta que ela ‘sumiu’ muitos anos, e que ela tem duas filhas. Diz que todas estão em São Paulo.

Na semana passada contei a história de “seo” Joel pra uma amiga dileta, moça de um sentimento do tamanho do mundo, e alegre, qualidades das melhores: Edilene Lopes, repórter da rádio Itatiaia. Prontamente se dispôs a fazer uma matéria com ele, e fez na sexta-feira, na escadaria da igreja São José, no centro de Belo Horizonte. Edilene e minha filha fotografaram o grande acontecimento. 


A igreja está sendo reformada, assumindo seu aspecto original. Mais uma de “seo” Joel: “ Eu me lembro da igreja quando ela era assim”. A matéria foi veiculada no sábado, 29 de outubro, no jornal da “rádia”. (Audio AQUI) E AQUI link da publicação no site da Itatiaia.


Possivelmente "seo" Joel é o morador de rua mais antigo do Brasil, nas condições dele. E apesar de tudo mantém o bom humor, marca de quem ama a vida: diz querer viver até os 160 anos. Eu não duvido que chegue lá. Muito mais histórias da sua história  de resistência e amor pela vida vêm por aí.

Na foto abaixo "seo" Joel almoçando comigo e com minha mãe. Chegou em minha casa há algum tempo, lá pelas 10 da manhã. Conheceu minha mãe, portadora de mal de  Alzheimer, contou muitas histórias, tristes e alegres, e a fez rir muito. Depois foi perambular, como gosta.

PS - Conversando comigo antes do almoço "seo" Joel disse que não se alimentava há dois dias. Depois disso conversei sobre ele com algumas pessoas. Ele havia conseguido um pequeno restaurante onde poderia almoçar e jantar diariamente até o final do ano por um valor módico. Algumas dessas pessoas prontamente se dispuseram a ajudar e contribuíram para isso possibilitando suas refeições e suprindo outras necessidades. Seguem seus nomes e o agradecimento de "seo" Joel: o lendário jornalista José Maria Rabelo, criador do jornal “Binômio”, um casal de vizinhos meus, Maurício Guimarães e Laura Maria Dias, o proprietário da floricultura Uriel, no bairro Santa Lúcia, Uriel Domingo Rosa e sua esposa e o padre Henrique Faria, coordenador do Fórum Político Inter-religioso. 

Fonte: Blog do Luiz do Mozaico

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