domingo, 13 de novembro de 2016

Sobre brancos, “mestiços” e afroconvenientes

Semana retrasada noticiaram que, a fim de evitar abusos, as comissões avaliadoras podem eliminar do sistema de cotas candidatos que não aparentem ser negros – pretos ou pardos (afrodescendentes). Porém, a notícia de que a avaliação dos requerentes às ações afirmativas será realizada por fenotipo e não por ascendência genética gerou controvérsias. Muitos consideraram a inciativa discriminatória e até mesmo racista conta os afrodescendentes mais claros, enquanto outros festejaram a implementação dessa medida elaborada com o intento de garantir o acesso de pessoas negras em espaços que historicamente as marginalizavam. De ambos os lados a mesma dúvida: o que significa ser negro no Brasil?
Depois de estabelecido que os portugueses não são tão “puros” quanto Hitler aprovaria, é importante reconhecermos a impossibilidade de adotar os mesmos critérios do norte da Europa para estabelecer branquitude em terra brasilis. Afinal, os traços físicos que associamos às pessoas brancas da Península Ibérica não são os mesmos quando imaginamos um sueco, um francês, um alemão ou um irlandês. Isso porque somos expostos a um vasto espectro de pessoas brancas — loiras, morenas, ruivas, de cabelo liso, cacheado, com nariz de adunco, nariz arrebitado, com sardas, de olhos pretos, azuis e até violeta —, o que nos permite diferenciar brancos do Mediterrâneo de brancos dos Alpes, por exemplo. Agora quando pensamos em africanos e asiáticos… A tendência (racista) é achar que são todos muito parecidos. Embora se saiba que existem diversas etnias entre os dois grupos.


DOS BRANCOS
Antes de tentar definir a negritude tupiniquim é necessário termos em mente que ser branco no Brasil sempre significou algo bem diferente do que é conceituado na África do Sul, nos Estados Unidos e na Europa. A branquitude dos portugueses não se apresenta da mesma forma que nos holandeses e britânicos.
Não somente devido ao longo domínio mouro na Península Ibérica, mas, principalmente, porque raça é um conceito culturalmente construído, logo aberto a múltiplas interpretações — vide a racialização estadunidense dos brancos latinos e a nossa dos brancos nordestinos.

Depois de estabelecido que os portugueses não são tão “puros” quanto Hitler aprovaria, é importante reconhecermos a impossibilidade de adotar os mesmos critérios do norte da Europa para estabelecer branquitude em terra brasilis. Afinal, os traços físicos que associamos às pessoas brancas da Península Ibérica não são os mesmos quando imaginamos um sueco, um francês, um alemão ou um irlandês. Isso porque somos expostos a um vasto espectro de pessoas brancas — loiras, morenas, ruivas, de cabelo liso, cacheado, com nariz de adunco, nariz arrebitado, com sardas, de olhos pretos, azuis e até violeta —, o que nos permite diferenciar brancos do Mediterrâneo de brancos dos Alpes, por exemplo. Agora quando pensamos em africanos e asiáticos… A tendência (racista) é achar que são todos muito parecidos. Embora se saiba que existem diversas etnias entre os dois grupos.

Por essas irregularidades de concepção de branquitude é muito difícil comparar o racismo à brasileira com o das outras ex-colônias mencionadas. No Brasil a “pureza” genética nunca foi um parâmetro forte. O que sempre valeu foi a percepção dos brancos/poderosos. Inclusive, casos de pessoas que só descobriram que não são brancas ao viajarem para o exterior são bastante comuns. Mesmo por aqui, não é impossível que alguém socialmente lido branco em Salvador não receba a mesma leitura em Blumenau. A branquitude, como toda marcação de identidade, depende dos referenciais de cada um. E, embora ainda se repita que “no Brasil todo mundo tem sangue negro“, ninguém tem dúvidas de que a Gisele Bündchen, por mais bronzeada que esteja, é branca nem de que o Pelé é negro, mas muita gente tem dificuldades em reconhecer a Camila Pitanga como negra – ainda que ela se declare como tal. Pois no Brasil a autodeclaração nunca serviu de muita coisa.


DOS “MESTIÇOS”
Os “mestiços” nunca tiveram um lugar oficial na formação da nossa sociedade. Apesar de sempre terem sido percebidos como melhores que seus genitores não-brancos, eles nunca foram considerados iguais às pessoas brancas. Prova disso são os diferentes nomes que deram a eles: mulatos (que vem de mula), pardo (ou branco sujo), crioulo etc. Todos esses nomes significam que eles eram identificados como brancos “ilegítimos”. O que significava que os seus destinos dependiam da boa vontade de seus pais brancos, que tanto poderiam tratá-los tanto como filhotes da mão-de-obra quanto poderiam tratá-los comobastardos dignos de assistência.

Sendo assim, pode-se dizer que a primeira política brasileira de inserção de afrodescendentes na sociedade foi a miscigenação, ou seja, o não impedimento legal de uniões interraciais foi a primeira possibilidade de negros e índios darem um futuro menos pior a seus descendentes. O embranquecimento dos cônjuges e consequentemente da prole negras e indígenas, então, pode ser encarado como a primeira ação “afirmativa” adotada pela elite branca que sonhava em fazer o que só a Argentina conseguiu: apagar a população negra do território. Isso em paralelo à marginalização dos ex-escravos e à substituição por imigrantes europeus nos postos de trabalho.

Portanto, na próxima vez que for enaltecer a nossa mestiçagem lembre-se de que os primeiros “mestiços” foram frutos do estupro das cativas indígenas e africanas e de que essa sua empolgação esconde o desejo de clarear a população brasileira. De afinar seus traços e diluir seu tom de pele.

Numa sociedade que privilegia a branquitude sobre as demais etnias, não é de se espantar que tantas pessoas ainda tenham dificuldade em reconhecer a sua não-branquitude. Tampouco surpreende que tanta gente rejeite a própria negritude e declare sua cor em termos que servem de código para quase-brancos ou nem-tão-negros-assim tais como:  “moreno”, “cor de jambo”, “cor de burro quando foge”,caboclo etc. Em uma cultura onde ainda se associa negritude à escravidão e servidão, é compreensível que quem pode passar por brancos não hesitem ao fazê-lo. Pois, numa sociedade ainda colonizada por ideais europeus, orgulhar-se de não se parecer com o colonizador é tão revolucionário quanto afrontoso.

DOS NEGROS
Pra quem ainda confunde: “negro” é um termo censitário que une pretos e pardos(afrodescedentes). Como já falei aqui sobre o meu problema com “afrodescendentes”, hoje gostaria só de lembrar que como a humanidade se originou na África, os fenótipos do homo sapiens surgiram de africanos. E, diferente do que somos ensinados, existem pessoas negras com cabelo naturalmente liso,loiro, ruivo, com olhos azuis, africanos de pele clara e outra infinidade de atributos e combinações. A negritude é bem mais diversa do que se vê na National Geographic.

Pessoalmente, prefiro pensar no termo “negro” como uma identidade sócio-cultural e, sobretudo política, daqueles povos oprimidos pelo sistema racista da supremacia branca eurodescendente. No Brasil, mais especificamente, seriam os índios e os descendentes de africanos, que tem sua não-branquitude como justificativa para o menosprezo. Nem sempre incluo asiáticos porque, diferente dos aso-ianques e aso-europeus, os nossos ainda não reivindicam politicamente a merecida inserção social e nem são sujeitos à mesma perseguição e extermínio históricos.
DOS AFROCONVENIENTES
Desde a implementação das ações afirmativas, o número de brasileiros que passaram a se declarar negros só tem aumentado. Possivelmente porque foi a primeira vez na nossa história em que ser da cor concedeu oportunidades e não somente exclusão — afetiva, sexual, econômica, social, política, estética, intelectual, espiritual,…

E como não poderia deixar de ser no país do jeitinho, pessoas que sempre fizeram questão de omitir o “pé na cozinha” passaram a mencionar a herança negra — há muito eclipsada pelos antepassados europeus —, principalmente em formulários de inscrição em concursos públicos. A esse tipo chama-se de afroconveniente.

Afrodecandentes — como chama um amigo —, costumam ser pessoas pardas (afrodescendentes) que desfrutam da “passabilidade” branca e até mesmo brancas – na concepção brazuca -, que desfrutam de todos os benefícios inerentes à branquitude, mas que tem a pachorra de se apropriarem da identidade e da cultura negras por mera conveniência. Essas pessoas tendem a corroborar a faláciafantasia da “democracia racial” inventada para isentar a elite branca de responsabilidades.

O curioso desse tipo de “aproveitador” é que eles se apegam ao conceito estadunidense de “uma gota de sangue” para justificar o emprego das cotas, mas se esquecem de que nos EUA tetraneto de negro, branco jamais será. Eles importam a vantagem, mas sonegam os encargos. Como no caso do médico de pele branca, olhos verdes e morador da zona sul carioca que ganhou destaque na mídia por pleitear cotas em concurso para o Itamaraty e que não se considera negro, mas afrodescendente. Como se no Brasil o racismo requerisse uma cópia da árvore genealógica para identificar quem deve prejudicar, humilhar e exterminar.

DO COLORISMO
Desde a polêmica acerca de Rachel Dolezal – a mitômana branca que fez cosplayde negra por 10 anos -, a desconfiança de ativistas negros com os dos irmãos de alta passabilidade só tem aumentado. Esses não-brancos-nem-tão-negros, por sua vez, tem intensificado o debate sobre colorismo, muitas vezes, ignorando o fato de que o termo foi criado por feministas norte-americanas negras para debater os privilégios de pessoas negras pouco negroides no sistema de supremacia branca. Ou seja, acabam traduzindo um conceito pensado para uma sociedade segregadora para a nossa que ainda acredita na comunhão das raças.

O meu problema com colorismo é que, se por aqui a possibilidade de uma pessoa como a Mariah Carey ter sido escravizada remete a ficção “A Escrava Isaura”, nos EUA não haveria drama algum. Porque o racismo no Brasil é pigmentocrático, e quanto mais traços negroides se tem, mais exposto negativamente ao racismo será. O que de fato faz com que negros claros tenham mais privilégios, mas muitas vezes o racismo que eles enfrentam vem de familiares – geralmente da parte branca da família que rejeita o nem-tão-branco. O que por sua vez revela outras questões e desdobramentos do racismo, mas de forma branda quando comparados às violências direcionadas as pessoas pretas retintas, de cabelo bombril e traços rústicos. Não se trata de uma competição apenas uma constatação de que a discriminação racista fica menos sutil com o denegrir da pele.

Se para pardos e negros com passabilidade autodeclarar-se negro é, frequentemente, parte de uma trajetória de resistência. Já para pretos e negros sem passabilidade… a posição política ocupada nesta sociedade racista é (hétero) declarada desde o nascimento. Então nada mais justo que os direitos dos nunca puderam disfarçar sua negritude sejam assegurados. Até porque as cotas foram criadas para empretecer os espaços de poder, algo que mal ou bem nunca foi totalmente descartado aos negros-quase-brancos — Nilo Peçanha chegou até à presidir nossa República. Então, se o maior conflito da sua negritude é ser percebido como tal, lembre-se de que nem todos têm esse privilégio.
Fonte: Geledés

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