sábado, 25 de abril de 2015

Noam Chomsky: “Os EUA São Os Maiores Terroristas Do Mundo”

Os Estados Unidos estão a todo instante promovendo ações que são muito perigosas para o Estado de Israel. A saber, o apoio incondicional às políticas israelenses. Pelos últimos 40 anos, a maior ameaça enfrentada por Israel veio de suas próprias políticas. Se você olhar 40 anos atrás, e falo de 1970, Israel era um dos países mais admirados e respeitados em todo o mundo. Havia muitas atitudes favoráveis para com o país. No início dos anos 70s Israel tomou uma decisão. Tinha que fazer uma escolha e preferiu trilhar o caminho da expansão em detrimento da segurança com todas as perigosas consequências que esta decisão provocou. Consequências estas que atualmente são óbvias. Além de mim, outras pessoas escreveram sobre isso. Se você prefere expansão à segurança isso vai levar você em direção à degeneração interna, ódio, oposição, isolamento e por último, a possível destruição. Apoiando essas políticas, os Estados Unidos estão contribuindo para as ameaças que Israel encara hodiernamente.
Entrevistas e matéria original do euronews.com.
Isabelle Kumar (IK): O mundo em 2015 parece ser um lugar muito inseguro, mas se você olhar para o todo, sentir-se-ia otimista ou pessimista sobre a situação atual?
Noam Chomsky (NC): Na cena global estamos caminhando para um precipício e determinados a cair nele, através de radicais reduções da capacidade para uma sobrevivência decente.
IK: Que precipício é esse?
NC: Há dois atualmente, um deles a catástrofe ambiental que é iminente e estamos sem tempo suficiente para lidar com o problema. Quando fazemos alguma coisa, fazemos a coisa errada, e o outro tem a ver com os últimos 70 anos, que seja a ameaça de uma guerra nuclear, que na realidade está crescendo. Se você prestar atenção aos dados, é um milagre que tenhamos sobrevivido até agora.
IK: Primeiro, o problema ambiental. Temos perguntas oriundas de frequentadores de nossa mídia social, que estão enviando seus questionamentos e são montes deles. Recebemos, por exemplo, uma pergunta de Enoa Agoli: quando você olha para o problema ambiental através da lente de um filósofo, o que você pensa sobre a mudança climática?
NC: A espécie humana está aqui há cerca de mais ou menos 100.000 anos e neste instante está face a face com um momento único em sua história. Esta espécie está agora em uma posição em que deve decidir muito rapidamente, em algumas gerações, se o experimento autointitulado “vida inteligente” continuará a existir ou está determinado à autodestruição? Quero dizer aqui que a esmagadora maioria dos cientistas reconhece que grande parte dos combustíveis fósseis deveriam ser deixados no solo, isso se quisermos realmente que nossos netos tenham um futuro decente. Mas a estrutura institucional de nossa sociedade pressiona cada vez mais agudamente para que se extraia cada gota. Os efeitos, as consequências para os seres humanos e os efeitos já preditos sobre a mudança climática estão às nossas portas e são catastróficos. Trata-se da corrida para o precipício que já mencionei.
IK: Já que falamos de guerra nuclear, podemos ver um panorama no qual se alcançou um acordo preliminar com o Irã. Isso lhe dá pelo menos um raio de esperança de que o mundo possa se tornar um lugar mais seguro?
NC: Sou favorável às negociações com o Irã, mas tais negociações estão profundamente equivocadas. Há dois Estados cuja voracidade no Oriente Médio está produzindo agressões, violência, atos terroristas e ações ilegais constantemente. Os dois são Estados nucleares e possuem blindagem contra ataques nucleares. E suas armas nucleares não estão sendo levadas em conta.
IK: A quem exatamente você está se referindo?
NC: Aos Estados Unidos e a Israel. Dois dos maiores estados nucleares no mundo. Entendo que é por essa razão que em pesquisas internacionais, levadas a efeito por agências de pesquisas dos próprios Estados Unidos, este aparece lembrado como a maior ameaça à paz mundial por grande margem. Nenhum outro país chega sequer perto. É interessante notar que a mídia dos Estados Unidos se recusa a publicar estes resultados, o que não os faz desaparecer.
IK: Você não tem muita consideração com o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Mas este acordo não faz com que você o veja em termos um pouco melhores? O fato de que ele está tentando reduzir o risco de uma guerra nuclear?
NC: Bem, na verdade ele não está. Ele acaba de dar início a um programa de um trilhão de dólares para modernizar o sistema de armas nucleares dos Estados Unidos, o que significa expandir o sistema de armamento nuclear. Esta é uma das razões pelas quais o relógio do juízo final, criado pelo Boletim dos Cientistas Atômicos foi, apenas duas semanas atrás, colocado dois minutos mais perto da meia noite. A meia noite significa o fim. Assim, estamos agora a apenas três minutos da meia noite, o que é o mais perto nos últimos trinta anos, desde o início dos anos Reagan, quando estivemos assustadoramente perto da guerra nuclear.
IK: Você mencionou Israel e Estados Unidos relacionados ao Irã. Agora, o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Natenyahu obviamente não quer que o acordo nuclear com o Irã funcione, e ele disse…
NC: Interessante… deveríamos nos perguntar por que.
IK: Por que?
NC: Nós sabemos porque. O Irã gasta muito pouco com equipamentos militares, mesmo pelo padrão da região, muito menos que os Estados Unidos. A estratégia do Irã é defensiva, projetada para segurar um ataque o tempo suficiente para que a diplomacia possa agir, e os Estados Unidos e Israel, dois estados bandidos, não podem tolerar um estado dissuasivo. Nenhum analista estratégico que tenha um cérebro que funcione minimamente pensa que o Irã usará uma arma nuclear. Mesmo que seja capaz disso, o país seria simplesmente vaporizado e não há qualquer indicação de que os clérigos que dirigem o país, não importa o que se pense deles, querem ver tudo o que têm destruído.
IK: Apenas mais uma questão sobre este assunto e veio através da mídia social, de Morten A. Andersen. Ele pergunta: “você acredita que os Estados Unidos jamais assinariam um acordo que traria perigo, em primeiro lugar, para Israel?”
NC: Os Estados Unidos estão a todo instante promovendo ações que são muito perigosas para o Estado de Israel. A saber, o apoio incondicional às políticas israelenses. Pelos últimos 40 anos, a maior ameaça enfrentada por Israel veio de suas próprias políticas. Se você olhar 40 anos atrás, e falo de 1970, Israel era um dos países mais admirados e respeitados em todo o mundo. Havia muitas atitudes favoráveis para com o país. No início dos anos 70s Israel tomou uma decisão. Tinha que fazer uma escolha e preferiu trilhar o caminho da expansão em detrimento da segurança com todas as perigosas consequências que esta decisão provocou. Consequências estas que atualmente são óbvias. Além de mim, outras pessoas escreveram sobre isso. Se você prefere expansão à segurança isso vai levar você em direção à degeneração interna, ódio, oposição, isolamento e por último, a possível destruição. Apoiando essas políticas, os Estados Unidos estão contribuindo para as ameaças que Israel encara hodiernamente.
IK: O que me leva então ao tema do terrorismo. Porque é uma praga global e muita gente, e penso que posso incluir você mesmo, afirmarão que é um tiro pela culatra da política de guerra ao terror dos Estados Unidos ao redor do mundo. Até onde podem ser os Estados Unidos e seus aliados responsabilizados pelo que vimos atualmente em termos de terrorismo pelo mundo afora?
NC: Não se esqueça de que a pior campanha terrorista do mundo é, de longe, aquela levada a efeito por e orquestrada em Washington. É uma campanha global de assassinatos. Nunca antes houve uma campanha terrorista nesta escala.
IK: Quando você fala de campanha de assassinatos…?
NC: As ações com o uso de drones – é exatamente o que isso quer dizer. Sobre grande parte do globo os Estados Unidos estão sistemática, pública e abertamente – não há qualquer segredo no que estou dizendo, nós sabemos disso – está levando a efeito uma campanha regular para assassinar pessoas que o governo dos Estados Unidos suspeita que possa prejudicá-lo algum dia. E isso é, na realidade, como você mencionou, uma campanha que gera mais terror, pois quando você bombardeia uma vila no Iêmem e mata algumas pessoas – as quais talvez sejam as pessoas que você quer, talvez não – e mais algumas pessoas que moram ou que aconteça se encontrarem nas vizinhanças – como você acha que os sobreviventes reagirão? Eles querem vingança.
IK: Você descreve os Estados Unidos como o principal país terrorista. Onde se encaixa então a Europa neste quadro?
NC: Bem, esta é uma questão bem interessante. Assim, por exemplo, já existe um estudo feito recentemente. Penso que foi realizado pela Open Society Foundation… a pior forma de tortura é a “entrega extraordinária”. Entrega extraordinária significa que você prende uma pessoa da qual você tem uma suspeita qualquer, e a envia para o seu ditador favorito, talvez Assad ou Kadaffi ou Mubarak para ser torturada, esperando que surja disso alguma coisa. Isto define a maravilhosa entrega extraordinária. Obviamente, os ditadores do Oriente Médio participam, e estas pessoas foram enviadas para lá para serem torturadas. Também a Europa participa. A maioria da Europa participa. Inglaterra, Suécia e outros países. De fato, só existe uma região no mundo onde nenhum país participou: a América Latina. Esse fato é dramático. Não participou apenas porque hoje a América Latina está livre dos laços que a prendiam ao controle dos Estados Unidos. Quando a América Latina era dominada pelos EUA, há não muito tempo atrás, ela foi um dos centros mundiais de tortura. Agora, não participam da pior forma de tortura que existe, que é a entrega extraordinária. A Europa participa. Quando os mestres rugem, os servos obedecem.
IK: Então a Europa é serva dos Estados Unidos?
NC: Não tenha dúvidas. São muito covardes para ter qualquer posição de independência.
IK: Onde se enquadra Vladimir Putin nesta paisagem? Ele é pintado como se fosse uma enorme ameaça à segurança. Ele é?
NC: Como muitos líderes, ele é uma ameaça para a população de seu próprio país. Praticou ações ilegais, obviamente. Mas descrevê-lo como sendo um monstro enlouquecido, dizer que ele tem problemas mentais e que sofre de Alzheimer, que é uma criatura vil e maldosa, trata-se de fanatismo Orwelliano do tipo padrão. Quero dizer, o que quer que você pense sobre suas políticas, elas são compreensíveis. A ideia de que a Ucrânia pode se juntar a uma aliança militar ocidental seria inaceitável para qualquer líder russo. Isso remete para 1990, quando do colapso da União Soviética. Havia uma questão muito importante sobre o que aconteceria com a OTAN. Gorbachev concordou em permitir que a Alemanha fosse reunificada e se juntasse à OTAN. Foi uma concessão e tanto, mas havia uma contrapartida: que a OTAN nunca mais se expandiria sequer uma polegada para o leste. Esta foi exatamente a frase usada naquela ocasião.
IK: Então a Rússia tem sido provocada?
NC: Bem, o que aconteceu? A OTAN instantaneamente incorporou a Alemanha Oriental e então Clinton tratou de expandir a OTAN diretamente até as fronteiras da Rússia. Agora, o governo ucraniano, estabelecido depois de um golpe que derrubou o governo precedente, fez o parlamento votar a adesão à OTAN, com uma aprovação de 300 a 8 ou coisa semelhante.
IK: Mas você pode entender porque eles gostariam de se unir à OTAN, você pode ver por que o governo de Petro Poroshenko muito provavelmente vê a união com a OTAN como a proteção de seu país?
NC: Não, não, não, não. Não se trata de proteção. É certo que a Crimeia foi tomada apenas depois do golpe que derrubou o governo anterior. E a união com a OTAN não protege a Ucrânia e sim a ameaça com uma guerra em grande escala. Neste momento, não se trata de proteção. O ponto é: o que temos é uma ameaça estratégica muito séria contra a Rússia, contra a qual qualquer líder russo tem que reagir. É muito fácil de entender.
IK: Porém quando olhamos a situação da Europa, existe outro fenômeno interessante tomando lugar. Vemos a Grécia movendo-se em direção ao leste, potencialmente, assim como vemos o partido PODEMOS que ganha poder na Espanha. E há a Hungria. Você vê que existe um potencial para a Europa iniciar por si mesma um alinhamento maior com os interesses russos?
NC: Dê uma olhada no que está acontecendo. A Hungria não se encaixa, é uma situação inteiramente diferente. O partido Syriza assumiu o poder levado por uma onda popular que afirmava que a Grécia não mais deveria sujeitar-se às políticas de Bruxelas e aos bancos da Alemanha que estavam destruindo o país. O efeito das políticas de Bruxelas e dos bancos era na verdade fazer crescer imensuravelmente o débito grego em relação à sua capacidade de produzir riqueza; provavelmente metade dos jovens gregos está desempregada e provavelmente 40% da população vive abaixo da linha da pobreza. A Grécia está em ruínas.
IK: Então seu débito deve ser anulado?
NC: Sim, da mesma forma que foi feito em relação à Alemanha. Em 1953, quando a Europa perdoou a maioria dos débitos germânicos. Apenas por isso foi a Alemanha capaz de reconstruir o país devastado pela guerra.
IK: Mas então, e quanto aos demais países da Europa…?
NC: A mesma coisa.
IK: Posso concluir então que Portugal deve ter seu débito anulado, assim como a Espanha?
NC: Quem contraiu esse débito? A quem se deve tais quantias? Em grande parte, as dívidas foram contraídas por ditadores. Como na Grécia, onde uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos contraiu grande parte do débito grego. Penso que essa dívida é ainda mais brutal que a ditadura, e não deve ser paga, pois se trata daquilo que em direito internacional é chamado de “dívida odiosa”, introduzida na legislação internacional principalmente pelos Estados Unidos, quando isso era de seu interesse. Muito do restante dos débitos, chamados de contribuições para a Grécia não passaram de contribuições para os bancos franceses e alemães, que decidiram emprestar dinheiro com baixo interesse e risco extremo e agora se veem face ao risco de não serem pagos de volta.
IK: Agora, eu gostaria de fazer a seguinte questão, enviada por Gil Gribaudo que pergunta: Como pode a Europa se transformar contra os desafios existenciais que enfrenta atualmente? Porque, sim, temos uma crise econômica e também o crescimento do nacionalismo e você também descreveu algumas falhas culturais que foram criadas através da Europa. Como você vê a Europa a transformar-se em algo melhor?
NC: Os problemas enfrentados pela Europa são sérios. Alguns destes problemas são causados pelas políticas impostas pelos burocratas em Bruxelas, a Comissão Europeia, etc., enfrentando a pressão da OTAN e dos grandes bancos a maioria dos quais da Alemanha. Apenas do ponto de vista de seus elaboradores estas políticas fazem algum sentido. Por um lado, eles querem ser pagos pelos empréstimos de risco, e investimentos arriscados que fizeram e por outro lado, estas políticas estão destruindo sistema de bem estar social dos Estados, do qual aliás, eles nunca gostaram. Mas o sistema de bem estar social é uma das maiores contribuições europeias para a sociedade moderna, mesmo que os ricos e poderosos nunca tenham gostado dele e o fato de que estas políticas o estão erodindo é bom, pelo menos do seu ponto de vista. Há ainda outro problema na Europa. O continente é extremamente racista. Eu sempre considerei que, de fato, a Europa é ainda mais racista que os Estados Unidos. Tal situação não era tão notada na Europa porque as populações europeias no passado sempre tenderam a ser muito homogêneas. Assim, se todos tem cabelos louros e olhos azuis, então você não verá racistas, mas assim que a população começa a mudar, o racismo põe o focinho fora da toca. Muito rapidamente. Este é um dos sérios problemas culturais na Europa.
IK: Eu gostaria de terminar, porque o tempo se tornou curto, com uma questão de Robert Light em um tom mais positivo. Ele pergunta: O que lhe dá esperanças?
NC O que me dá esperanças são algumas das coisas das quais falei. Da América Latina, por exemplo. Há uma significância histórica no que acontece ali. Estamos prestes a ver isso se confirmar na Cúpula das Américas (a entrevista aconteceu antes da reunião de chefes de Estado – NT) que acontecerá no Panamá. Em encontros hemisféricos recentes, os Estados Unidos ficaram completamente isolados. É uma mudança radical em relação a 10 ou 20 anos atrás, quando os Estados Unidos impunham (os assuntos latino americanos). De fato, a razão pela qual Obama fez gestos de amizade em direção a Cuba, foi uma tentativa de romper o isolamento dos Estados Unidos nas Américas. Ocorre que quem estava isolado não era Cuba. Eram os Estados Unidos. Talvez a tentativa venha a falhar. Vamos ver. Os sinais de otimismo na Europa são os partidos Syriza e PODEMOS. Esperemos que haja, finalmente, uma revolta popular contra as políticas de destruição econômica e esmagamento de direitos sociais que resultam da burocracia e dos bancos, e isto é muito esperançoso. Tem que ser.
IK: Noam Chomsky, muito obrigado por ter estado conosco.
Fonte: Site Encontra Senso

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