sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Jorge Amado, as mulheres e as flores da Chapada Diamantina

Esta semana completaram-se 15 anos da partida de Jorge Amado, que faria 104 anos hoje. Ex-stalinista, sempre socialista, ateu que “simpatizava” com o candomblé, o baiano Jorge era um grande admirador das mulheres, em sua vida e em sua obra. Mulheres fortes, mestiças, bem brasileiras: Tieta, que vai embora puta e volta rica e poderosa; Dona Flor, dona-de-casa independente que tem dois maridos; Tereza Batista, que enfrenta a polícia para defender suas colegas prostitutas; e Gabriela, a sensual sertaneja que tem cheiro de cravo e canela…
Esta semana completaram-se 15 anos da partida de Jorge Amado, que faria 104 anos hoje. Ex-stalinista, sempre socialista, ateu que “simpatizava” com o candomblé, o baiano Jorge era um grande admirador das mulheres, em sua vida e em sua obra.
Mulheres fortes, mestiças, bem brasileiras: Tieta, que vai embora puta e volta rica e poderosa; Dona Flor, dona-de-casa independente que tem dois maridos; Tereza Batista, que enfrenta a polícia para defender suas colegas prostitutas; e Gabriela, a sensual sertaneja que tem cheiro de cravo e canela…
Na vida real, Jorge foi casado com Matilde, seu primeiro amor, e com Zélia Gattai, companheira de caminhada até o fim, sua eterna namorada, “cúmplice da aventura” durante mais de 50 anos.
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Em seu “rascunho de autobiografia”, o delicioso Navegação de Cabotagem, publicado em 1992, Jorge Amado expõe o último desejo: morrer com as mãos repousadas em cima do órgão sexual feminino, sobre quem reproduz nomes populares e inventa alcunhas poéticas. Acho linda sua devoção ao “xibiu”. Reproduzo para vocês este trecho do capítulo final do livro, acompanhado por fotos que fiz de flores da Chapada Diamantina, na Bahia, algumas bastante sugestivas…
Me falaram que no final do ano a variedade é ainda maior, principalmente de orquídeas. Não consegui identificar todas, se alguém puder ajudar será ótimo. Boa leitura.
***
“Como dizer para nomeá-la? Não direi vulva, vagina, boceta, babaca, não direi, como então designá-la? Ai falta-me o dom da poesia para criar a imagem justa, encontrar comparação para a incomparável. Queria coroá-la com as flores do poema, falta-me a inspiração do bardo, a frágua mágica do vate, prosador terra-a-terra não sei como denominá-la, não a mereço.
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Flor de cactos, trago de aguardente, cratera de vulcão, a engole-pau, a feita de cravo e de canela, poço sem fundo, porta-do-oriente, mansão de árabe, mesquita, precipício, a xoxota em fogo de Gabriela.
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(Flor conhecida como “bocetinha”)
La chatte de madame, pasto de miosótis, campo de papoulas, chão dos prazeres, mapa do refinamento, mestra de meninos, gata em cio, matriz do ipsilone, o xibiu doutor honoris causa de Tieta.
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Os três vinténs, a vendida, a comprada, a violada, a conspurcada, fonte de mel, barra da manhã, luz de candeeiro, labareda, nascente d’água, foz de rio, concha do mar, ai a boca do mundo de Tereza.
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Não direi rosa chá, marulho, fogo do inferno, bálsamo da estrovenga, o altar-mor, a gruta escura, a aurora, a noite, a estrela, a colina do deleite, o ostíolo, a buça de chupeta, a madona, a contadina, a pazza, a louca de albano, la mamma, a prova dos nove, os nove-fora, lar da pudicícia, porta de devassidão, apocalipse, não direi abismo onde faleço e ressuscito, não direi mãe de Deus, mulher do cão.
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Irei buscá-la onde um dia a coloquei para resguardá-la, a escondi lá onde sabes, no xis de dona Flor, e direi a peladinha de Euá. Direi a peladinha e tu entenderás que a ela me refiro, tomarás da chave da adivinha e abrirás a porta do tabernáculo, cavaleiro e montaria, amazona bravia e árdego ginete percorreremos os caminhos. Minha égua se chama a peladinha, teu cavalo se nomeia o bom de trote e de galope.
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Na hora derradeira quero nela pousar a mão, tocar-lhe a penugem, a pétala do grelo, sentir-lhe a doce consistência, a maciez, nela depositar meu último suspiro…”

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