domingo, 7 de junho de 2015

FHC ou Carlos Sampaio, o PSDB não mais será o que já foi

Os erros de FHC estavam na incapacidade de impedir o assalto financeiro à dívida pública, ou de uma combinação juros-câmbio que destruiu a economia em um momento de profundas alterações na economia mundial ou do desprezo absoluto a qualquer forma de pró-atividade em favor do aprimoramento da gestão pública. Nada tinham a ver com sua visão de mundo.
 
Os erros de Dilma estão na má implementação do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na incompatibilidade entre as atribuições conferidas à Petrobras e o congelamento de tarifas de combustível, na distribuição de subsídios fiscais ignorando os alertas dos técnicos do Tesouro, na falta de indicadores de acompanhamento do Fies e da Pronatec. Ou seja, erros claros de gestão, que nada tem a ver com uma suposta nova matriz econômica.
 
Assim como as fraquezas de José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, na incapacidade de definir uma meta modernizante sequer e implementá-la de forma eficaz – com exceção das tentativas iniciais do “choque de gestão” de Minas.
O Estadão fez um bom trabalho hoje, na tentativa de resgatar o PSDB programático que se perdeu nas fímbrias do neoliberalismo de Fernando Henrique Cardoso.
 
A reportagem tem objetivo de fortalecer José Serra na próxima convenção do partido.
 
Fica claro nas manifestações pelo retorno aos valores do partido, do serrista Alberto Goldmann e do ex-covista Arnaldo Madeira – que aderiu às pretensões de Andrea Matarazzo de futuro candidato a prefeito de São Paulo e está envolvido até o pescoço na Operação Castelo de Areia. Logo eles.
 
Batem também com a estratégia recente de Serra, de afastar-se das manifestações radicais e tentar recuperar a imagem de formulador que teve muitas décadas atrás.
 
O objetivo dessas propostas é do mesmo nível da fase evangélica de Serra, da fase dos dossiês que nunca abandonou,  da fase carbonária de FHC. Não é reconstruir o partido mas apenas conquistar espaço político interno, aliando-se a quem estiver disponível com a proposta que estiver à mão, mesmo que oriunda das profundezas da intolerância.
O distanciamento histórico e a memória
FHC tem sido beneficiado pelo chamado distanciamento histórico, mas no sentido do esquecimento das oportunidades que jogou fora.
 
É o direito ao esquecimento que permite ao Estadão atribuir a ele as formulações originais do PSDB.
 
Até ser indicado Ministro da Fazenda de Itamar, FHC nunca passou de um troféu acadêmico que o partido exibia para consumo externo.
O PSDB original foi filho da Constituinte, através de suas duas maiores lideranças, Mário Covas e Franco Montoro.
Foi composto pela chamada ala autêntica do PMDB, como maneira de se distanciar da maioria fisiológica que, desde então, assumiu o partido.
 
Na economia, diferenciava-se do estatismo e da síndrome dos campeões nacionais da Unicamp e do financismo da PUC-Rio, propondo um desenvolvimentismo em parceria com o mercado, especialmente através das formulações de Luiz Carlos Bresser-Pereira, Yoshiaki Nakano e Luiz Carlos Mendonça de Barros.
Defendia, também, o aprimoramento da gestão pública. Seu maior feito foi a modernização da gestão financeira de São Paulo, através do trabalho de Nakano na Secretaria da Fazenda.
 
Sem ser um intelectual, Covas – e, antes dele, Montoro – deu a faceta política do partido: visão socialdemocrata, preocupação com a responsabilidade fiscal, com a chamada voz das ruas, com a descentralização, compromissos com a coerência, que o levaram, inclusive, a apoiar o PT contra Paulo Maluf.
 
Eleito presidente, FHC manteve um discurso para cada ocasião.  Embarcou de cabeça no financismo dos economistas da PUC-Rio, terceirizando para eles a gestão do país, deixando de lado qualquer preocupação social ou fiscal.
 
A ideia – aventada nas entrevistas do Estadão – de que o PSDB de FHC foi responsável pela seriedade fiscal é risível. Como falar em responsabilidade fiscal de um governo que recebeu de Collor uma relação dívida/PIB na faixa dos 20% e a entregou na faixa dos 60%, mesmo com a troca de moedas da economia? E todo esse aumento não se traduziu em gastos sociais, investimentos públicos, mas em transferência direta para o setor financeiro, através das mais exorbitantes taxas de juros da história.
 
A Lei de Responsabilidade Fiscal foi uma imposição do FMI, depois que FHC quebrou o país e foi obrigado a apelar ao fundo.
 
No meu livro “Os Cabeças de Planilha”, o último capítulo é uma longa entrevista com FHC. Nela, o ex-presidente revela um desconhecimento absurdo dos principais fatores portadores de futuro. Nenhum domínio sobre políticas sociais, sobre o papel das políticas industriais, sobre a dinâmica da regionalização ou do fortalecimento de cadeias produtivas. Ignorância total sobre políticas científico-tecnológicas ou programas de gestão.
 
O grupo que acompanhou FHC, com a notável exceção de Sérgio Motta, em parte de dona Ruth, não tinha a menor vontade de mudar nada, mas apenas de aproveitar da melhor forma possível a passagem pelo poder para melhor se colocar na volta à vida civil.
Capacidade de formular programas
O que define um bom ou mau governo é a capacidade de identificar as melhores propostas e formular programas consistentes. Daí a malícia de alguns economistas neoliberais de atribuir a crise atual ao que denominam de “nova matriz econômica”, devolvendo na mesma moeda que tenta atribuir todos os erros de FHC ao neoliberalismo.
 
Os erros de FHC estavam na incapacidade de impedir o assalto financeiro à dívida pública, ou de uma combinação juros-câmbio que destruiu a economia em um momento de profundas alterações na economia mundial ou do desprezo absoluto a qualquer forma de pró-atividade em favor do aprimoramento da gestão pública. Nada tinham a ver com sua visão de mundo.
Os erros de Dilma estão na má implementação do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na incompatibilidade entre as atribuições conferidas à Petrobras e o congelamento de tarifas de combustível, na distribuição de subsídios fiscais ignorando os alertas dos técnicos do Tesouro, na falta de indicadores de acompanhamento do Fies e da Pronatec. Ou seja, erros claros de gestão, que nada tem a ver com uma suposta nova matriz econômica.
Assim como as fraquezas de José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, na incapacidade de definir uma meta modernizante sequer e implementá-la de forma eficaz – com exceção das tentativas iniciais do “choque de gestão” de Minas.
Hoje em dia há uma infinidade de boas ideias e bons projetos gravitando em torno de temas educacionais, regionais, mobilidade urbana, educação, políticas industriais, movimentos de inovação, formas de aprofundamento da democracia participativa.
O que o PT tem a oferecer? As ideias do Instituto Perseu Abramo que não são nem aproveitadas nem assimiladas pela direção.
O que o PSDB tem a oferecer? Sequer ideias, porque o Instituto Teotônio Vilella virou objeto de barganha. Ou seja, o partido que pretende investir contra o aparelhamento do PT aparelha até aquele que deveria ser o centro do seu novo pensamento.
O álibi de FHC, de que o PSDB não tem um programa rígido por não ser um partido de caciques, é piada. Não tem um programa rígido, hoje em dia sequer valores, por ser um partido de caciques incapazes de uma visão consistente de país.
 
Certa vez, FHC definiu-se a ele, Serra e Aécio como os “malacas”. O termo se aplica a um estilo de político voltado especificamente para cavalgar as ondas de fumaça da mídia. FHC, o iluminista, não se pejou de incentivar Rebeldes Online e companhia quando viu alguma vantagem nisso. E teve reação débil e dúbia quando as bestas saíram das profundezas para investir na intolerância e nas políticas regressivas em relação aos avanços sociais e morais.
Aliás, teve papel direto na promoção do discurso de intolerância que, saindo da mídia, inoculou irreversivelmente o partido de Mário Covas.
 
Por tudo isso, a cara do partido continuará  inevitavelmente Carlos Sampaio, Aloyzio Nunes, Serra. Com FHC a única diferença será a firula acadêmica de, dez vez em quando, rechear com algumas citações de terceiros.

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