segunda-feira, 4 de julho de 2016

Modelo esnobe da Flip não serve a um país que lê tão pouco como o Brasil

Conheci de perto a primeira edição da Flip (Festa Literária de Paraty), em 2003, que teve entre os convidados ninguém menos que Eric Hobsbawm. Eu havia sido repórter de Literatura da Folha até o ano anterior, mas não fui como repórter, e sim fazendo um frila na assessoria de imprensa da organização. Achei incrível estar pertinho de grandes nomes da literatura, e ainda tinha um simpático programa para jovens escritores que “residiriam” em Parati e produziriam, cada um deles, uma pequena ficção envolvendo a cidade.
Tudo circulava ao redor da editora inglesa Liz Calder, que morava no Rio na época e idealizou um pequeno e charmoso evento literário em Paraty, à semelhança do festival de Hay-on-Eye, no País de Gales. Logo de cara, no entanto, tive a sensação de que aquela era uma confraria de eleitos. Me senti como penetra na mesa-redonda do hotel Algonquin, que reunia os amigos de Dorothy Parker em Nova York na década de 1920. Vi que a “festa” literária era um evento exclusivo, para poucos. Recalque do proletariado, eu sei. Quem nunca?
Conheci de perto a primeira edição da Flip (Festa Literária de Paraty), em 2003, que teve entre os convidados ninguém menos que Eric Hobsbawm.
Eu havia sido repórter de Literatura da Folha até o ano anterior, mas não fui como repórter, e sim fazendo um frila na assessoria de imprensa da organização. Achei incrível estar pertinho de grandes nomes da literatura, e ainda tinha um simpático programa para jovens escritores que “residiriam” em Parati e produziriam, cada um deles, uma pequena ficção envolvendo a cidade.
Tudo circulava ao redor da editora inglesa Liz Calder, que morava no Rio na época e idealizou um pequeno e charmoso evento literário em Paraty, à semelhança do festival de Hay-on-Eye, no País de Gales. Logo de cara, no entanto, tive a sensação de que aquela era uma confraria de eleitos. Me senti como penetra na mesa-redonda do hotel Algonquin, que reunia os amigos de Dorothy Parker em Nova York na década de 1920. Vi que a “festa” literária era um evento exclusivo, para poucos. Recalque do proletariado, eu sei. Quem nunca?
De lá para cá, os grandes nomes da literatura se sucederam na Flip, alguns mais, outros menos conhecidos. Ela cresceu bastante, sem nunca perder o ar de festa privê –pelo contrário, se acentuou. Não faltaram, ao longo dos anos, críticas ao domínio paulista, da Folha e da Companhia das Letras sobre o evento, muito embora poupando o caráter elitista da coisa em si. Mesmo entre o público que viaja até Paraty com a intenção de conhecer de perto seus autores favoritos e assistir às palestras, quem é capaz de não reconhecer que faz parte de uma elite? E que mal há nisso? Nenhum.
Este tipo de encontro literário é sempre enriquecedor e um programa delicioso para se fazer com a família e amigos. Mas ele se justifica muito mais em países com tradição literária sólida do que no Brasil. Não dá para promover um modelo desses como ideal em um lugar onde se lê tão poucos livros. A imprensa e o marketing em torno da Flip a elevaram à condição de “maior evento literário” do país, a meu ver uma visão provinciana e pouco estratégica da literatura e mesmo do negócio do livro. Num país onde se lê pouco, o foco deveria ser popularizar a leitura, e não gourmetizá-la.
O festival de Hay-On-Eye está entre os 7 festivais mais bacanas de literatura do Reino Unido, que com seus 243 mil metros quadrados possui dezenas de eventos literários. Mas Hay-On-Eye está longe de ser algo “chique” como a Flip, que além de tudo delimita os convidados ao que considera “boa” literatura. Ficam, portanto, de fora algumas novidades do mercado e, consequentemente, restringe as possibilidades de interação entre autores nas mesas que renderiam surpresas.
A pouca presença de cor local e o predomínio do anglicismo diante da latinidade dão a impressão de que a festa poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, não necessariamente no Brasil e em Paraty. Para se ter uma ideia, com o momento de crise política que estamos vivendo, discutiu-se em uma mesa na Flip a situação da Síria, mas não a nossa. Notável e sintomática a falta de autoras negras, numa edição dedicada à mulher escritora sob as bênçãos da homenageada, a poeta Ana Cristina César (1952-1983).
Festivais de livros tão exclusivos assim funcionam, no fundo, como uma maneira, ainda que não deliberada, de manter o conhecimento em poder de poucos em vez de disseminá-lo. A decisão de jamais nenhum autor “popular” ser convidado, para manter o “nível”, ajuda a reforçar a ideia de que a literatura não é para o bico de qualquer um. Todo esse esnobismo em torno do livro e da paixão pela literatura me causa antipatia à Flip. Em minha opinião, este é um modelo que não atrai leitores, os espanta. Não nos serve enquanto política cultural, em um país com baixos índices de leitura como o nosso.
Eventos literários podem e devem ser mais inclusivos. A feira de Porto Alegre, por exemplo, acontece numa praça pública, aberta a todos, com banquinhas de livreiros, com os moradores da cidade que circulam pelo centro e os visitantes passando por ali, respirando livros e trombando com os escritores, além da possibilidade de comprar as obras muito mais barato, em balaios. Não à toa, a capital gaúcha é uma das duas cidades brasileiras onde mais se lê livros. A Flip contribui para que tenhamos mais leitores? Duvido.

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