terça-feira, 7 de julho de 2015

Você sabe o que esconde a Arena da Amazônia, uma obra faraônica da Copa?

Em um ano de vida, os clubes locais só se enfrentaram no estádio da Copa do Mundo três vezes. Duas pelas finais do Campeonato Amazonense de 2015, graças à ajuda do governo estadual – que, aliás, também patrocina o torneio. As agremiações não têm condições financeiras sequer de abrir as portas da Arena. As histórias descobertas por Andreucci, que acompanhou um cartola transportar milhares de reais em notas no banco de trás de seu carro para pagar e dispensar jogadores no interior do Estado, dão o tom da realidade trágica do futebol amazonense.
plataforma BRIO lança uma reportagem – fruto de uma investigação de mais de dois anos – que mostra a cadeia produtiva cruel que resultou na construção da Arena da Amazônia, o maior elefante da Copa do Mundo.
A construção do estádio utilizou uma cadeia de produção do aço cujas empresas são investigadas por uso de carvão fruto de desmatamento e uso de mão de obra ilegal. Este blog antecipa, abaixo, detalhes inéditos da investigação.
No momento em que se discute como nunca antes a corrupção na Fifa, a investigação analisa como projetos pensados pela cúpula do futebol mundial afetam a vida de cidadãos comuns. Além disso, mostra como o futebol do Amazonas concentra as piores mazelas do esporte nacional: uma federação dominada pela política, onde quem sofre são os jogadores com salários miseráveis e incertezas. O trabalho foi feito pelos repórteres Raul Andreucci e Tulio Kruse.
Entre janeiro e agosto de 2014, Kruse viajou para os lugares onde nasce a matéria prima do aço que construiu a Arena da Amazônia. No norte de Goiás, conversou com trabalhadores de carvoarias que já foram libertados pelo Ministério do Trabalho e Emprego em condições análogas à escravidão. Os carvoeiros eram ameaçados de morte quando pediam as contas ao patrão.
A seguir, um trecho do relatório de fiscalização sobre a carvoaria:
“Então, o trabalhador cobrou o salário devido pelos 48 (quarenta e oito) dias de trabalho. Após receber a cobrança, o Sr. Nenzico teria aberto uma bolsa e dito: 'espera aí Baiano que vou te dar o seu dinheiro'. Então, como o trabalhador já sabia que Nenzico possuía uma arma, saiu correndo rumo a uma estrada que dá acesso à porteira de saída da fazenda. Logo em seguida, o trabalhador teria ouvido 3 (três) disparos e o Sr. Nenzico dizendo: 'vem cá, Baiano, vem buscar o seu dinheiro!'''
Investigações do Ibama e do Ministério Público do Trabalho, além do próprio relato de trabalhadores, dão conta que o carvão produzido no norte de Goiás e sul de Tocantins, nessas condições de trabalho subumanas e utilizando madeira ilegal, servia para abastecer as principais siderúrgicas de Minas Gerais. Entre elas está a Sidermin, uma das principais siderúrgicas de Sete Lagoas. A empresa está relacionada em uma Declaração Ambiental de Produto apresentada à construtora da Arena da Amazônia, documento obtido com exclusividade pela reportagem do BRIO.
Apesar de ter sido alvo de ao menos três operações do Ibama que acusam a empresa de comprar carvão ilegal e seu dono já ter sido preso, a Sidermin continua sendo uma das principais fornecedoras de ferro gusa à ArcelorMittal, a maior produtora de aço do mundo. A fábrica em Piracicaba da ArcelorMittal forneceu aço de vergalhão para concreto armado à arena de Manaus, e boa parte desse aço foi feito com ferro gusa da Sidermin. Ou seja, feito em uma cadeia com trabalho ilegal e desmatamento de mata nativa.
Em nota, a ArcelorMittal declarou seguir padrões de procedimento para cadastrar e qualificar seus “fornecedores críticos''. Ela alega pedir documentos ao fornecedor e uma gerência de Meio Ambiente da empresa os analisa. No caso de dúvida, uma auditoria checa in loco a veracidade das informações. Fornecedores regulares são fiscalizados com prazos de até dois anos de intervalo. De acordo com a empresa, não foram identificadas irregularidades durante as auditorias de 2013.
A reportagem também descobriu que foram embargadas, por desmatar a floresta amazônica, ao menos cinco carvoarias no Pará que fizeram parte da relação de fornecedoras indiretas da Arena da Amazônia. Este caso envolve a Sinobras, empresa do polo siderúrgico Marabá que já foi investigada em uma pesquisa da Repórter Brasil, publicada em 2012, quando o estádio estava sendo construído.
O que o texto de Andreucci e Kruse mostra é que o estádio construído no coração da floresta ajudou a destruí-la, e ajudou a destruir também outros biomas brasileiros. Compridos vergalhões debaixo do concreto das arquibancadas, pilares, grades que cercam os estádios, fazem parte da ameaça ao maior patrimônio ambiental do Brasil e o desmatamento do Cerrado no Centro-Oeste.
Tudo isso para fazer um estádio que não é utilizado.
Em um ano de vida, os clubes locais só se enfrentaram no estádio da Copa do Mundo três vezes. Duas pelas finais do Campeonato Amazonense de 2015, graças à ajuda do governo estadual – que, aliás, também patrocina o torneio. As agremiações não têm condições financeiras sequer de abrir as portas da Arena. As histórias descobertas por Andreucci, que acompanhou um cartola transportar milhares de reais em notas no banco de trás de seu carro para pagar e dispensar jogadores no interior do Estado, dão o tom da realidade trágica do futebol amazonense.
Isso também é reflexo de um rincão dominado por um dos mais longevos presidentes de federações estaduais de esporte do Brasil. Responsável pela Federação Amazonense de Futebol (FAF) desde 1993, Dissica Valério Tomaz resiste no cargo a todo tipo de acusações. Cuidadoso, só se encontrou com o repórter, em Manaus, depois de um intermediário de confiança confirmar que o assunto não seria o escândalo de abuso sexual nas categorias de base de times do Estado. O cartola sobrevive ainda a diversos processos ligados ao seu mandato esportivo e político.
Curiosamente, é próximo do atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Marco Polo Del Nero – e chefiou a delegação da seleção brasileira sub-20 no último Mundial da categoria, em junho, na Nova Zelândia. Essas e outras histórias dessa realidade até agora obscura do futebol brasileiro estarão disponíveis a partir desta quarta, no BRIO.

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