sábado, 19 de março de 2016

Por que alguém quer ser jornalista hoje em dia?

Por conta de uma greve em 2014, o ano letivo irá começar em 21 de março. Mais uma vez vou ministrar as aulas de Introdução ao Jornalismo. Mais uma vez vou entrar em sala e perceber, na expressão de todos eles, dúvidas, certezas, indiferença,...
Segundo, porque a grande imprensa está cada vez mais engajada. Defende interesses corporativos e ideológicos e não se furtam mais em dissimular isso. A cobertura da GloboNews neste domingo, 13/03, foi algo de revirar o estômago de quem estuda ou tenta exercer o jornalismo dentro dos princípios deontológicos da profissão: a neutralidade e objetividade do fato. O Jornal Nacional, edição de sábado dia 12/03, se disse “espantado” com os advogados do presidente Lula por um pedido de resposta? Como assim um telejornal se diz surpreendido ou espantado com um pedido de resposta dentro de um sistema democrático? São deuses que nunca erram? São contra o direito de alguém pedir uma retratação? Ademais, o referencial de profissionais atualmente não são de jornalistas, mas de apresentadores de notícias. Seja Bial no BBB, Fátima Bernardes, Ana Paula Padrão, Ticiane Villa Boas, que deixaram a bancada do telejornalismo e se tornaram apresentadoras de programas de entretenimento ou ainda Sandra Annenberg, uma atriz mediana que conseguiu na bancada exercitar seu talento de atriz com caras, bocas e expressões.
Por conta de uma greve em 2014, o ano letivo irá começar em 21 de março. Mais uma vez vou ministrar as aulas de Introdução ao Jornalismo.
Mais uma vez vou entrar em sala e perceber, na expressão de todos eles, dúvidas, certezas, indiferença, sono e, em alguns, sonhos. São adolescentes, quase que na totalidade com idade entre 17 e 21 anos. Quase todos experimentam pela primeira vez morar fora de casa. Como de praxe, pergunto para a turma por que escolheram fazer jornalismo. As respostas são similares e quase sempre dizem respeito às características técnicas da profissão. Alguns porque gostam de ler, outros porque odeiam matemática, outros porque queriam alguma coisa na área de humanas, gostam de viajar, escrever, tem quem adore fotografia, goste muito de cinema e outras tantas particularidades. Possuem pouco referenciais acerca do jornalismo. Assistem à pouquíssima programação regular da TV aberta. São especialistas em séries americanas e poucos leem jornais diariamente.
Então eu meu pergunto, será que eles não sabem onde estão se metendo? É certo que nem todos que se formam em um curso de graduação exercem a profissão, mas uma boa parte ali tentará mesmo exercer a profissão. Eles não imaginam o que irão enfrentar. E essa é a função que eu penso que me cabe como professor dessa matéria, abrir os olhos para o tipo de jornalismo que se pratica no Brasil. E infelizmente, a situação não é boa.
Primeiro, porque as inovações tecnológicas estão impactando o modelo de negócios das empresas jornalísticas e muitas estão encontrando dificuldades financeiras na manutenção de suas estruturas. Redações cada vez menores, menos pessoal, menos investimentos nas coberturas factuais. O jornalismo sentado na redação é uma prática cada vez mais usual.
Segundo, porque a grande imprensa está cada vez mais engajada. Defende interesses corporativos e ideológicos e não se furtam mais em dissimular isso. A cobertura da GloboNews neste domingo, 13/03, foi algo de revirar o estômago de quem estuda ou tenta exercer o jornalismo dentro dos princípios deontológicos da profissão: a neutralidade e objetividade do fato. O Jornal Nacional, edição de sábado dia 12/03, se disse “espantado” com os advogados do presidente Lula por um pedido de resposta? Como assim um telejornal se diz surpreendido ou espantado com um pedido de resposta dentro de um sistema democrático? São deuses que nunca erram? São contra o direito de alguém pedir uma retratação? Ademais, o referencial de profissionais atualmente não são de jornalistas, mas de apresentadores de notícias. Seja Bial no BBB, Fátima Bernardes, Ana Paula Padrão, Ticiane Villa Boas, que deixaram a bancada do telejornalismo e se tornaram apresentadoras de programas de entretenimento ou ainda Sandra Annenberg, uma atriz mediana que conseguiu na bancada exercitar seu talento de atriz com caras, bocas e expressões.
Domingo, dia 13 de março de 2016, foi um dia muito difícil para o jornalismo no Brasil. Foi também um momento histórico não apenas pela multidão ser maior do que a das Diretas Já!, mas também um dia histórico para o jornalismo, pois aquilo que pensávamos ter ficado para trás no Golpe de 64 está retornando. Um jornalismo comprometido com uma classe política corrupta e uma elite que guarda profundo rancor dos avanços sociais conseguido nas últimas décadas.
Mas, há sempre uma esperança. Hoje a internet vem mesmo desconstruindo o discurso hegemônico. No meu tempo o JN dava 65 pontos no Ibope. Hoje, sua influência ainda é importante, mas é menor. Não quero dizer que o jornalismo praticado na internet será a salvação dos jornalistas, mas é que dessa vez, a grande imprensa tem um adversário de respeito contra sua hegemonia. Assim como os alunos chegam sem ter a verdadeira noção do que vão enfrentar na profissão, chegam também menos afetados por essa hegemonia. Tem os corações e mentes abertos para o novo, para o contraditório. Quem sabe é aí que eu deva me pautar.

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