quinta-feira, 3 de março de 2016

20 ANOS SEM MAMONAS: HUMORISTAS FALAM SOBRE O HIT ROBOCOP GAY

Há 20 anos um dos maiores fenômenos da música brasileira desaparecia de maneira trágica e traumática para muitos fãs.
O avião que levava Dinho, Bento, Julio, Samuel e Sergio se chocava contra a Serra da Cantareira, em São Paulo. OsMamonas Assassinas deixaram de ocupar os palcos Brasil afora, mas ainda hoje são lembrados em homenagens que vão de centenas de bandas covers espalhadas pelo país a um documentário e uma minissérie que será exibida ainda este ano pela Record.

Em números de vendas de discos, os Mamonas foram o maior êxito artístico de uma banda ao unir humor e música. Um de seus maiores sucessos, a músicaRobocop Gay é ainda executada passadas duas décadas fazendo a pista se jogar tanto em festas com o público majoritariamente hétero, como com o público majoritariamente gay.
Luis Lobianco, do Porta dos Fundos, Pedro HMC, do Põe na Roda, e Kris Barz, do Torta de Climão, respondem à pergunta: A música é depreciativa ou a favor?
Há 20 anos um dos maiores fenômenos da música brasileira desaparecia de maneira trágica e traumática para muitos fãs.
O avião que levava Dinho, Bento, Julio, Samuel e Sergio se chocava contra a Serra da Cantareira, em São Paulo. OsMamonas Assassinas deixaram de ocupar os palcos Brasil afora, mas ainda hoje são lembrados em homenagens que vão de centenas de bandas covers espalhadas pelo país a um documentário e uma minissérie que será exibida ainda este ano pela Record.
Em números de vendas de discos, os Mamonas foram o maior êxito artístico de uma banda ao unir humor e música. Um de seus maiores sucessos, a músicaRobocop Gay é ainda executada passadas duas décadas fazendo a pista se jogar tanto em festas com o público majoritariamente hétero, como com o público majoritariamente gay.
A reportagem procurou humoristas que tenham como material de trabalho a cena gay para saber o que acham da música. Se curtem ou acham depreciativa. Luis Lobianco, do Porta dos Fundos, lembra do sucesso e do quanto achava divertida a música quando ainda era adolescente. “Na escola, com 14 anos, eu achava o máximo, super engraçada. Todo mundo cantava. Tem uma parte que fala “abra sua mente”, tinha uma preocupaçao de dar o recado para o jovem que ouvia a musica”, argumentou.
O comediante, que atua em dois espetáculos no Buraco da Lacraia, boate gay do Rio, pondera que há 20 anos a discussão sobre sexualidade vivia outro momento. “Hoje eu estava pesquisando sobre transexualidade, um caso que aconteceu há 10 anos e me dei conta de como mudou a forma de se abordar o assunto, imagina há 20 anos. Era muito difícil explicar para as pessoas”, concluiu.
Para o roteirista e apresentador do Põe na RodaPedro HMC, Robocop Gay deve ser analisada no contexto em que foi criada, em 1994.
“A gente tem que entender onde a sociedade estava mais de 20 anos atrás quando eles cantavam. Talvez hoje, em que essas questões são mais discutidas e estão mais evoluídas, possa até parecer (depreciativa) em algum ponto se for problematizar excessivamente. Mas principalmente considerando a época, Robocop Gay era um hino extremamente corajoso, uma letra defendendo um gay pra TODOS os públicos. Basta analisar os versos: “Abra a sua mente, GAY TAMBÉM É GENTE, baiano fala oxente e come vatapá. Você pode ser gótico, ser punk…”. Claramente, a letra defende a diversidade, a pluralidade de maneiras de existir e o respeito que cada um deve ter por todas as diferenças. Em nenhum momento a letra fala contra gays, pelo contrário, pode sim falar de um gay bem estereotipado, mas defende ele, ao dizer que pode sim fazer a barba, arrancar o bigode, entrar na ginástica, e principalmente: Não tem que disfarçar”, disse o roteirista.
O criador do Põe na Roda acredita que o humor dos Manonas contribuiu para transmitir, com alegria, o respeito à diversidade. “Eu acho que é não só uma musica de humor, mas uma música que defende os gays. Você não precisa ser sério pra defender alguém. O humor é uma excelente arma inclusive pra fazer a mensagem espalhar. Quanto machao nao cantou por aí “gay tambem é gente”?


Opinião um pouco diferente tem o cartunista Kris Barz, criador das tirinhas Torta de Climão, um grande sucesso nas redes sociais. Kris aponta a confusão entre identidade de gênero e orientação sexual como um dos principais problemas da música dos Mamonas.
“Eu tinha 10 anos quando os Mamonas estouraram no país inteiro. Meus pais colocavam a fita deles pra tocar nas longas viagens de carro em família. Gostava muito das músicas mas confesso que tinha uma relação estranha com Robocop Gay.
Aos 10 anos, eu era chamado constantemente de gay e viado na escolar e no meu bairro. Ao ver a performance do Dinho na TV, eu não me identificava com aquela imagem de gay (que pela letra, era alguém que fazia cirurgias para ter seios e bunda). Na verdade eu nem sabia ainda que eu era gay, então essas informações visuais confundiam bastante a cabeça de uma criança que ainda não tinha acesso à internet para saber o que homossexualidade é.
A música para mim deve ser analisada no contexto e época em que ela foi criada. Ela é de 1995. Tem uma mensagem ambígua, fala de tolerância (“abra sua mente, gay também é gente”), mas ao mesmo tempo erra ao confundir gay com transexual. Vale lembrar que é de uma época em que ainda usava-se a terminologia GLS, ou seja, travestis e transexuais nem eram incluídos na discussão, eram mais marginalizados do que são hoje.
A discussão atual é muito mais abrangente e embasada. Acho que uma música de conteúdo semelhante não faria tanto sucesso hoje em dia e, se fizesse, teria que lidar com as críticas. Não desconsidero meu carinho pelos Mamonas apesar de não ser fã do conteúdo equivocado da música, mas acho importante termos em mente a época e contexto limitados nos quais ela foi criada e abraçada pelo público”.
Marchinhas de Carnaval de gosto duvidoso
Usar o humor para falar de gênero foi um artifício muito comum às marchinhas de Carnaval, muitas vezes de gosto duvidoso. Desde a Cabeleira do Zezé que queria praticar a “cura gay” com o transviado cortando o cabelo dele até a Maria Sapatão, uma figura que, segundo a letra, de dia era Maria e de noite era João.
Mas o mau gosto é explícito na letra de O teu cabelo não nega, ainda hoje tocada no Carnaval. Em determinado trecho, versa o autor: “Mas como a cor não pega mulata / Mulata eu quero seu amor”.
Se Robocop Gay erra ao misturar orientação sexual com identidade de gênero, pelo menos evoluiu ao não praticar uma ofensa explícita aos gays. E conseguiu ser aceita por todos os públicos. Apesar dos equívocos.
Manonas em números
3 milhões de discos vendidos do único álbum lançado com os artistas em vida
24 estados, além do Distrito Federal, foram visitados pela banda na única turnê
190 shows em apenas 180 dias

47 pontos de audiência atingiu o Domingo Legal com a cobertura da morte dos Mamonas Assassinas. Abusando do sensacionalismo, Gugu tornou uma figura nacional Mãe Diná, que afirmara ter previsto a morte dos rapazes. Hoje, nem o principal produto da televisão brasileira, a telenovela das 21h, atinge esse número.
Fonte: Os Entendidos

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