domingo, 15 de fevereiro de 2015

A crise do jornalismo em discussão

A leitura do e-book Jornalismo século XXI – o modelo #midiaNINJA, de Elizabeth Lorenzotti, me traz duas sensações simultâneas e de igual intensidade.A primeira delas é alimentada pela cultura romântica da cognição do mundo através do texto impressoA leitura do e-book Jornalismo século XXI – o modelo #midiaNINJA, de Elizabeth Lorenzotti, me traz duas sensações simultâneas e de igual intensidade.
A primeira delas é alimentada pela cultura romântica da cognição do mundo através do texto impresso. Não se trata de uma referência apenas pessoal: acredito que todos os que construíram sua vida escolar e intelectual nos pós-guerra, em especial nos anos 60, acostumaram-se a buscar nos textos convencionais – os dos jornais, das revistas, dos livros – as pistas fundamentais para a compreensão do que ocorria à sua volta.

Na verdade – e a própria autora do livro não deixa escapar essa compreensão –, esses produtos (suportes ou dispositivos, no glossário pós-moderno) ocupavam o espaço central da construção dos sujeitos, uma espécie de prova de fogo dos próprios acontecimentos – pois eles (os acontecimentos) só se consolidavam no imaginário do público se fossem referendados naqueles textos. Se não estavam lá, não tinham acontecido.
Repórteres, redatores, material de agência, fotos analógicas – tudo isso compunha um complexo de comunicação em torno do qual se organizavam os movimentos, as ideias sobre eles; e o trabalho do jornalista me parece ter sido, na sua essência, o núcleo mais importante da dinâmica social.
Indagado recentemente por um aluno a respeito da amplitude dessa conjuntura cultural, sintetizei com alguma liberdade poética uma definição que me pareceu adequada: o jornalista – disse – é (era?) o arquiteto da esfera pública, um personagem epistêmico em torno do qual gravitam (gravitavam?) os fatos.  
Pois essa é a primeira das duas sensações que o livro de Beth Lorenzotti me desperta. Afinal, esse universo se perdeu, deixou de existir, funciona apenas na sua condição fossilizada e arquetípica?
Tenho a impressão de que ainda não chegou o momento histórico dessa decretação inapelável segundo a qual o jornalismo tradicional morreu. Ele está vivo e procura caminhos que possam compatibilizar suas práticas e suas características com as transformações do presente, mas já não ocupa a centralidade que a autora do livro refere todas as vezes que ela ressalta essa nova hierarquia atomizada que as tecnologias digitais – das quais as mídias sociais são o maior exemplo – constroem cotidianamente à nossa volta.
Encantamento  
A outra sensação é decorrente desse olhar para trás diante das mudanças, um olhar saudoso, mas não reacionário, que tem um indisfarçado encantamento com as possibilidades que se abrem para a democratização da informação e do conhecimento, e pelo empoderamento do sujeito, ele sim agora como núcleo nervoso do entendimento do real, a dessacralização da autoria (embora de existência socialmente legitimada e reconhecida), a horizontalização das fontes de referência.
No final das contas, é isto o que está acontecendo: um processo tecnológico-cultural (e não apenas um ou outro, como Lorenzotti deixa claro na investigação que faz sobre o Mídia NINJA) que torna o dinamismo da realidade mais apreensível com a redução da sua dimensão espaço-temporal.
Posso estar enganado e eventualmente sendo vítima do deslumbramento que me foi reforçado pelo livro, mas essas mudanças (que é preciso chamar de revolucionárias sem qualquer receio de exagero do conceito), que se dão na esteira das transformações eletrônicas do século XX (rádio e televisão) chegam ao século XXI – mais propriamente ao cotidiano do homem do século XXI - representando um Renascimento ressignificado, como disse numa entrevista o professor de Leipzig Alfonso de Toro.   
O que aconteceu com a cobertura dos protestos de 2013, quando durante três meses quase completos, a sociedade exibiu seu descontentamento nas ruas das principais cidades brasileiras, parece-me ser a comprovação de que a convergência não é tecnológica, ainda que a tecnologia o permita; a convergência é simbólica e cognitiva e, diante disso, o jornalismo convencional ficou irremediavelmente comprometido, duplamente comprometido: com o dinamismo da técnica e com a amplitude da cultura.  
Junioridade
E aqui faço referência a um outro aspecto que Beth Lorenzotti deixa percorrer em todos os enunciados de seu livro: essa convergência que é simbólica e cognitiva, cultural portanto, mais do que técnica, tem uma marca que me parece muito própria dos grandes processos de mudança de estruturas (neste caso, estruturas midiáticas e comunicacionais): a sua junioridade.
Eu não associaria a esse adjetivo a ideia de juventude porque não é verdade que se trata de uma noção geracional, como o termo pode enganosamente dar a perceber. Digo junioridade porque ela é principiante no ponto de partida e vai se mantendo inovadora o tempo todo, carregando consigo um geist de inquietação político-cultural, uma certa arrogância de quem se apossa do mundo.
Lorenzotti faz alusão sistemática a isso quando descreve a composição da liderança desse espectro que se construiu à margem das manifestações, e nos consegue demonstrar que o ritmo desse povo não decorre da geração à qual pertence, mas ao sentido de urgência que imprime à sua curiosidade (o que a faz carregar consigo alguns provectos velhos professores e jornalistas) para a qual vem em socorro à digitalização do discurso em várias disposições narrativas.  
Deduzo disso que o jornalismo NINJA – ainda que se reproduza sob outras configurações – é júnior, mas não jovem. Cria em torno de si um movimento desregrado e algo indisciplinado, mas em sintonia com a diversidade do real e leva para esses espaços – que configuram uma dilatação da esfera pública habermasiana, processo para o qual o próprio Habermas está atento e maravilhado.
Nos dias transcorridos sob o impacto das manifestações de 2013, várias delas acompanhas por mim fisicamente, não foi difícil perceber como meus alunos da PUC e da Umesp hipotecavam credibilidade ao modus operandi do Fora do Eixo, ainda que tenham acompanhado as críticas surgidas em diversas oportunidades sobre os eventuais descaminhos do seu modus vivendi, dos que protagonizavam a experiência.  
Lacuna
Esse espírito de pertencimento me parece pré-orgânico e aqui talvez valha a pena apontar a lacuna que considero a mais delicada do livro de Lorenzotti: a ausência de questionamento sobre uma certa desideologização das práticas jornalísticas do NINJA – um fenômeno que pode ter sido incorporado de fora para dentro ou o inverso.
Quero dizer da possibilidade que o movimento todo – e não apenas o seu perfil jornalístico – foi desorgânico e avesso a formulações programáticas como foi possível observar de uma recorrente rejeição que suas lideranças (mesmo que pulverizadas, como é do perfil do desorgânico) faziam (e ainda fazem) das formas tradicionais de representação política – os sindicatos, os partidos – e simbólica – os veículos de comunicação – igualando uns e outros como instâncias discursivas ilegítimas na função de lugar de fala.   
Vi com meus próprios olhos explosões de ânimo, de rejeição, a bandeiras de partidos empunhadas por militantes que se aproximaram das manifestações mais numerosas (e ruidosas) meio sorrateira e insinuosamente, como quem dá tapinhas de falsa intimidade com os manifestantes e emite meio-sorrisos e gestos de assentimento com aquilo que observa. Junto com o pessoal da Globo, foram vaiados impiedosamente. Vaiados por quem? Ora... Pois esse vazio de organicidade – que também se traduz num certo autoritarismo massivo (eventualmente repressor) – é bem a marca política que eu acredito ter sido gerada pelo descentramento ao qual Lorenzotti se refere. Pode ser ao mesmo tempo “cruz e delícia” das jornadas de 2013, mas nesse aspecto serviram para colocar a mídia tradicional (quase digo “velha”) no lugar em que ela está institucionalizada – o lugar do poder.
Sintomático – e metafórico – o fato narrado por Lorenzotti logo na apresentação do livro: os jornalistas sitiados no topo de um edifício narrando o constrangimento em que se encontravam ao tempo em que cobriam as manifestações. Pois o jornalismo do século XXI – esse sobre o qual o livro se debruça – pode representar uma secção com o terreno de vizinhança que a mídia tradicional ocupa com os interesses que já não dizem muito para a sociedade.  
Aqui é inevitável fazer referência a esse divórcio que desde as manifestações de maio de 2011 em Madri – que se alastraram pela Europa através das mobilizações feitas pelas redes sociais – passando pela cultura do Ocupa, as manifestações na China, no Egito, nos Estados Unidos, e agora na Grécia e novamente na Espanha: é uma mancha – encardida aos olhos dos saudosos da velha ordem hierárquica da comunicação e do jornalismo – que se espalha de forma intermitente, fazendo balançar um sistema de poder que se desdobrava do velho conceito (usado aqui apenas como associação de ideias) do broadcast. Não é por outro motivo que os heróis dessa turma sejam hackers ciberativistas como Julian Assange ou Edward Snowden – para fazer referência àqueles que pelo impacto do que compartilharam na rede ganharam maior exposição.   
Pós-jornalismo
Todos esses fatos estão presentes de uma ou de outra forma no cenário sobre o qual Elizabeth Lorenzotti disserta no estilo de uma grande reportagem (como é de sua competência e do seu perfil de atuação profissional), mas de acordo com o caráter nervoso – mas não estressado – desses heróis de um novo tempo – que quase ganha espaço com a consagração do conceito de pós-jornalismo. Minha opinião é a de que o livro da Beth fica nessa história como uma referência para quem quiser entender o fenômeno da construção das redes sociais e o processo essencial que as alimentam – que é o de resgate do compromisso essencial do jornalismo em qualquer época – pré ou pós: a apuração dos fatos e a tradução do seu dinamismo no compartilhamento que o repórter faz da matéria-prima do seu trabalho.
Não haverá retorno ao normal, adverte o título de um dos capítulos do livro, sentença que vem acompanhada de um quase aforismo de Luis Nassif, citado por Lorenzotti: “A capacidade da mídia tradicional de pautar o país acabou”. Tudo indica que, sim, graças a essa extraordinária percepção que os ativistas digitais do Mídia NINJA revelaram até aqui: a apropriação cultural da técnica e, com ela, a possibilidade de radicalizar a democracia da informação.
O livro de Elizabeth Lorenzotti é de leitura fundamental para quem quiser entender isso em todas as suas dimensões. 
Fonte: Brasil de Fato

Nenhum comentário:

Postar um comentário