sábado, 14 de novembro de 2015

Exposição de Frida no instituto Tomie Ohtake peca por esconder comunismo da pintora

“Estou cada vez mais convencida de que o único caminho para se chegar a ser um homem, isto é, um ser humano e não um animal, é ser comunista”
(Frida Kahlo)
Me parece um desrespeito à memória da pintora e à sua inteligência dizer que ela “confundiu comunismo com comunidade”, seja lá o que isso signifique. Ora, Frida Kahlo ingressou nas Juventudes Comunistas aos 17 anos e, aos 20, se filiou ao Partido Comunista Mexicano. Com Diego Rivera, deixou o Partido em 1929 em solidariedade ao marido, que havia sido expulso por divergências com os dirigentes locais. Em 1937, o casal receberia Natalia e Leon Trotsky em seu exílio mexicano. Em 1948, Frida volta a ser aceita pelo PC mexicano, seis anos antes de Diego. Em seu colete ortopédico, trazia pintado o símbolo da foice e do martelo no meio do peito, próximo ao coração.
Em termos estritamente artísticos, a exposição Frida Kahlo: Conexões entre Mulheres Surrealistas no México, em cartaz no instituto Tomie Ohtake em São Paulo, é irretocável.
Alguns dos mais icônicos trabalhos da pintora mexicana estão lá, além de peças menos conhecidas, como as aquarelas. As mulheres surrealistas que a acompanham também estão representadas lindamente.
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(Diego em Meu Pensamento , 1943. Foto: Gerardo Suter/divulgação)
O único senão para a mostra é a tentativa de apagar ou minimizar a militância comunista que permeou toda a vida de Frida, sobretudo com a escolha do vídeoThe Life and Times of Frida Kahlo pela curadora Teresa Arcq para contar a biografia da pintora mexicana.
O documentário, dirigido pela norte-americana Amy Stechler para a TV PBS com patrocínio da Elma Chips (!!!), dilui o comunismo de Frida, afirmando que ela “só foi comunista ferrenha” nos seus últimos anos e que “confundiu comunismo com comunidade”. Para referendar a opinião, a diretora convoca o escritor Carlos Fuentes, ex-esquerdista que se tornou liberal, que diz que Frida “não era comunista, era panteísta”, sem ninguém que lhe sirva de contraponto.
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(O abraço do amor do Universo, a Terra, Diego e eu e o senhor Xólotl, 1949. Foto: divulgação)
Me parece um desrespeito à memória da pintora e à sua inteligência dizer que ela “confundiu comunismo com comunidade”, seja lá o que isso signifique. Ora, Frida Kahlo ingressou nas Juventudes Comunistas aos 17 anos e, aos 20, se filiou ao Partido Comunista Mexicano. Com Diego Rivera, deixou o Partido em 1929 em solidariedade ao marido, que havia sido expulso por divergências com os dirigentes locais. Em 1937, o casal receberia Natalia e Leon Trotsky em seu exílio mexicano. Em 1948, Frida volta a ser aceita pelo PC mexicano, seis anos antes de Diego. Em seu colete ortopédico, trazia pintado o símbolo da foice e do martelo no meio do peito, próximo ao coração.
Frida pintou Marx e Stalin e tinha retratos de comunistas na cabeceira de sua cama na Casa Azul, em Coyoacán. Dias antes de morrer, já em estado grave, insistiu em participar de uma manifestação contra o golpe de Estado organizado pela CIA que derrubou Jacobo Arbenz na Guatemala, acusado de comunismo por defender a realização da reforma agrária no país. Em seu funeral, o caixão de Frida Kahlo foi coberto pela bandeira comunista, causando a demissão do diretor do Palácio de Belas Artes por ter permitido que fosse desfraldada ali.
Muitos especialistas e fãs de Frida Kahlo vêm denunciando a transformação da artista por seus herdeiros em objeto de consumo, a metamorfose de uma comunista em um produto capitalista, a exploração de sua imagem para vender jóias, roupas, bonecas, tequila, tênis, cosméticos, aplicativos e jogos para celular e até – blasfêmia das blasfêmias –um cartão de banco com o rosto e a assinatura dela estampados.
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Tudo pelas mãos da sobrinha da pintora, Isolda Kahlo (1929-2007), que fundou aFrida Kahlo Corporation (oh, tragédia) com sede em Miami (onde mais?). Hoje obusiness Kahlo é controlado por Mara Romeo-Kahlo, sobrinha-neta de Frida, e um investidor venezuelano, Carlos Dorado, que detêm a maioria das ações. Entre os planos da empresa estão a construção de hotéis e spas com o nome da pintora, além de uma cerveja e um restaurante. “Se Frida visse o que estão fazendo com o nome dela, suas cinzas estariam se revolvendo na urna”, disse a historiadora de arte Teresa del Conde na época do lançamento da tequila. A crítica de arte Raquel Tibol ficou indignada. “É uma vergonha, uma total falta de respeito.”
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(Três Mulheres com Corvos, Leonora Carrington, 1951. Foto: divulgação)
Obviamente que o interesse em diminuir ou esconder que Frida era comunista é uma prioridade para os que manejam o negócio milionário da Fridamania. Esta omissão não poupa as pintoras surrealistas cujas obras integram a exposição no Tomie Ohtake. Algumas delas foram para o México justamente para fugir ao regime fascista de Franco na Espanha, como aconteceu, por exemplo, com Remedios Varo. A fotógrafa Kati Horna era anarquista; Leonora Carrington era feminista militante; Lucienne Bloch foi sindicalista e ativista dos direitos trabalhistas.
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(A Carruagem, Remedios Varo, 1955. Foto: divulgação)
O título da exposição fala em “conexões”, mas os estudantes que se acotovelam diante das obras de Frida Kahlo fazendo selfies vão sair de lá desconhecendo por completo algo que unia profundamente estas mulheres: eram mulheres de esquerda, engajadas politicamente. De fato, orna melhor com o mercantilismo com que os herdeiros tratam o legado de Frida deixá-los pensar que sua militância nunca existiu.

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