sábado, 10 de outubro de 2015

Victor Jara: a voz que Pinochet não pôde calar

Há 42 anos, a ditadura chilena executava o cantor popular, mas Jara continua soando e insiste em renascer, “sampleado” pelos jovens
No dia 11 de setembro de 1973, Victor Jara se dirigia à universidade onde dava aulas, quando foi interceptado e capturado pelo exército chileno. Estava em curso o golpe que derrubava o governo democrático de Salvador Allende para dar início à ditadura comandada pelo general Augusto Pinochet. Cantor, compositor, teatrólogo, professor e pesquisador da cultura popular, ele era um dos ícones e símbolos do novo tempo de esperanças que o País vivia.
No dia 11 de setembro de 1973, Victor Jara se dirigia à universidade onde dava aulas, quando foi interceptado e capturado pelo exército chileno.
Estava em curso o golpe que derrubava o governo democrático de Salvador Allende para dar início à ditadura comandada pelo general Augusto Pinochet. Cantor, compositor, teatrólogo, professor e pesquisador da cultura popular, ele era um dos ícones e símbolos do novo tempo de esperanças que o País vivia.
Conduzido ao Estádio Chile, uma arena convertida em campo de concentração, Victor Jara foi um dos mais de cinco mil presos naquele local nos primeiros dias da ditadura. “Somos dez mil mãos a menos / que não produzem / Quantos somos em toda a pátria?”, se perguntava em seu último poema (clique e leia). No dia 16 de setembro, exatos 42 anos atrás, Jara seria brutalmente torturado e assassinado pelos militares.
"Membro do Partido Comunista e militante ativo na campanha da Unidad Popular, coligação que levou Allende ao poder, Victor representava e ainda representa a imagem de um artista comprometido com a transformação e justiça social. Filho de camponeses crescido nos arredores da capital chilena, nunca deixou de lado sua identidade de classe"
Membro do Partido Comunista e militante ativo na campanha da Unidad Popular, coligação que levou Allende ao poder, Victor representava e ainda representa a imagem de um artista comprometido com a transformação e justiça social. Filho de camponeses crescido nos arredores da capital chilena, nunca deixou de lado sua identidade de classe. “Sou um trabalhador da música, não sou um artista. O povo e o tempo dirão se eu sou artista. Eu nesse momento sou um trabalhador e um trabalhador que se encontra com consciência muito definida como parte da classe trabalhadora que luta por construir uma vida melhor”, disse.
Música
O cantautor – palavra espanhola que significa cantor e compositor – chileno dizia que não concordava com a alcunha de canção de protesto dada ao estilo musical seu e de muitos artistas da época. Para ele, a canção, chame-se como seja, é antes de tudo, música. E seu objetivo ao fazer uma canção era que esta ficasse na “alma do povo”, como tão bem fazia sua mestra e incentivadora, Violeta Parra. E assim, Victor Jara tocou corações e almas ao falar do povo simples, do mineiro, da mulher indígena, do operário, do agricultor. Cantou a ícones como Che Guevara e Ho Chi Minh. E soprando ironia, ainda versou aos poderosos e aos indiferentes. Também foi romântico, mas sem ocultar o contexto social, como é o caso de “Te Recuerdo Amanda”, colocando um casal de operários como protagonistas da história de amor.
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Viajou, foi ao encontro do povo, ouviu e dialogou com os mais humildes a buscar sua essência e sabedoria. E com o rigor artístico que defendia, transformou tudo isso em canções que tocaram a alma e ficaram na memória do povo chileno, latino-americano e de outros países do mundo.
Memória
E a memória é um espaço de disputa política, evidência que explode no mês de setembro no Chile. Há quem ainda celebre Pinochet e o suposto sucesso da ordem e desenvolvimento econômico de seu governo neoliberal e assassino - com perdão pela redundância. Mas ressurgem Salvador Allende, Miguel Enríquez, entre outros líderes políticos, assim como Victor Jara, cuja tumba é uma das mais visitadas durante a marcha de 11 de setembro que passa pelo cemitério.
Em frente ao mesmo cemitério se realiza há alguns anos o evento “Mil Guitarras para Victor Jara” (Mil Violões para Victor Jara), que reúne uma multidão de artistas para tocar conjuntamente algumas de suas canções que até hoje chegam à alma do povo. As fotos e vídeos mostram que junto aos experientes homens e mulheres que viveram na pele aqueles intensos tempos de esperança e brutalidade, está presente uma infinidade de jovens (veja foto aqui).
Jovens aparecem também emocionados, alguns chorando, no final da “funa” (escracho) realizada há poucos anos para denunciar o militar responsável pelas torturas e mortes no Estádio Chile, hoje renomeado em homenagem a Victor Jara. O evento foi registrado por uma TV da Catalunha (clique e assista).
Inspiração para jovens
Victor Jara continua inspirando parte da juventude, que encontra nele um exemplo de artista com compromisso social. Reconhecidos músicos da nova geração chilena como Anita Tijoux e Nano Stern não negam a influência e por vezes homenageiam ao cantautor.
"O certo é que o Victor Jara que revive sampleado aparece no rap ocupando o mesmo lado dos estudantes, dos mapuches, dos moradores das periferias"
No rap, Victor e Violeta estão entre os mais sampleados, tendo suas falas e trechos de música mixados com novas canções, como faz o grupo Subverso em “Hijos de la Rebeldía” (assista aqui). O grupo GuerrillerOkulto vai mais longe, atualiza e insere nova letra a “Luchín” (clique e assista), música na qual Victor Jara falava de um menino muito pobre que jogava com sua bola de pano. O cantor esperançoso dizia que acreditava que num futuro próximo crianças como Luchín poderiam dirigir uma fábrica em seu país. Mas o grupo de rap conta uma história infelizmente diferente, de um Luchín consumido pelo mundo das drogas e da delinquência, um retrato atual de um país desigual que tenta esconder a pobreza por trás da vitrine neoliberal, conservada pelos governos da Concertación, coligação considerada de esquerda no espectro político.
Modelo Pinochet
Governos estes que ainda não conseguiram superar o modelo educativo implementado por Pinochet, pese a intensa luta estudantil pela educação pública e gratuita. Governos que ainda utilizam a lei anti-terrorismo da ditadura para criminalizar a luta do povo mapuche em defesa de seus territórios tomados pelas empresas transnacionais florestais, mineiras e energéticas.
Impossível imaginar o que diria Victor Jara hoje, caso fosse um senhor octagenário e não tivesse tido sua vida brutalmente interrompida. Mas o certo é que o Victor Jara que revive sampleado aparece no rap ocupando o mesmo lado dos estudantes, dos mapuches, dos moradores das periferias. Não consigo pensar que não estaria orgulhoso de estar no lugar de onde nunca saiu.

Fonte: Caros Amigos

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