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quinta-feira, 11 de março de 2021

Lula, Ciro e Mandetta bateriam Bolsonaro no segundo turno em 2022, mostra pesquisa Atlas

Levantamento fechado nesta quarta-feira marcada pela volta do petista ao palanque mostra resiliência da aprovação do presidente ultradireitista (34% apoiam) e melhora da imagem do ex-ministro da Saúde

Se as eleições presidenciais fossem nesta semana, Jair Bolsonaro estaria em maus lençóis no segundo turno. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e os ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Luiz Henrique Mandetta (DEM) venceriam o ultradireitista com ao menos seis pontos percentuais de diferença na disputa final eleitoral, mostra a pesquisa da consultoria Atlas. O levantamento da empresa, encerrado nesta quarta-feira, quando Lula fez, sem explicitá-lo, seu discurso de lançamento extraoficial de sua candidatura a 2022, mostra que o petista melhorou sua imagem e que Bolsonaro é afetado pela crescente rejeição à sua figura e ao Governo no auge da pandemia no país.

Se as eleições presidenciais fossem nesta semana, Jair Bolsonaro estaria em maus lençóis no segundo turno. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e os ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Luiz Henrique Mandetta (DEM) venceriam o ultradireitista com ao menos seis pontos percentuais de diferença na disputa final eleitoral, mostra a pesquisa da consultoria Atlas. O levantamento da empresa, encerrado nesta quarta-feira, quando Lula fez, sem explicitá-lo, seu discurso de lançamento extraoficial de sua candidatura a 2022, mostra que o petista melhorou sua imagem e que Bolsonaro é afetado pela crescente rejeição à sua figura e ao Governo no auge da pandemia no país.

De acordo com a pesquisa Atlas, numa simulação de primeiro turno das presidenciais, Bolsonaro aparece com 32,7% das intenções de voto, contra 27,4% de Lula, formando o primeiro pelotão isolado ―o presidente oscilou para baixo e Lula subiu cinco pontos em relação à pesquisa de janeiro. Na sequência aparecem o ex-ministro Sergio Moro (9,7%), Ciro Gomes (7,5%), Luiz Henrique Mandetta (4,3%), o governador paulista João Doria (4,3%) e o apresentador Luciano Huck (2,5%). No cenário sem Lula, o ex-prefeito Fernando Haddad aparece em segundo lugar, com 15,4% (veja os quadros completos nesta reportagem).


Já no segundo turno mais provável pelos números atuais, Lula aparece com 44,9% contra 36,9% de Bolsonaro, 8 pontos de diferença ―a disputa com Haddad seria mais apertada (43% a 39,4%), mas o petista também ganharia. Na simulação de segundo turno com Ciro, o pedetista também bate Bolsonaro (44,7% contra 37,5%). O levantamento mostra uma boa performance de Mandetta em uma eventual disputa final, apesar dos números modestos do democrata no primeiro turno. O ex-ministro da Saúde bateria o antigo chefe por 46,6% contra 36,9%. Já o tucano Doria aparece em rigoroso em empate com o presidente no levantamento, que tem margem de erro de dois pontos percentuais.

"É o ponto de maior pessimismo com a evolução da covid-19 no Brasil desde que começou a pandemia e Bolsonaro sofre os reflexos”, afirma Andrei Roman, CEO da Atlas. “Com tantos candidatos vencendo Bolsonaro no segundo turno, diria que nunca foi mais provável do que neste momento que o presidente perdesse em 2022. Mas a vida dá voltas. O Brasil pode sair da pandemia neste ano. Em 2022, o Governo pode fazer assistência social e Bolsonaro ainda pode se recuperar”, pondera o cientista político.

Roman vê no favoritismo de Lula no momento menos a melhora de sua popularidade e mais um reflexo “da rejeição maior e muito mais intensa a Bolsonaro”. A pesquisa Atlas foi feita entre os dias 8 e 10 de março e captou apenas o começo do impacto do discurso de Lula nesta quarta-feira, quando ele se apresentou como antítese do presidente e criticou o Governo ponto a ponto, da gestão da pandemia à economia, com ampla repercussão midiática. “É imprevisível como isso vai evoluir”, segue ele, que pontua que uma maioria justa (50,1%) diz apoiar a prisão de Lula.

Já os bons números de Mandetta são, na visão do CEO do Atlas, um reflexo da piora da avaliação de Bolsonaro como gestor da pandemia. “Na minha leitura, a intenção de voto de Mandetta é turbinada por uma pequena parcela que em janeiro ainda estava com o Bolsonaro e agora está migrando para um outro candidato, sendo que o destino mais natural deles é um candidato que faz crítica ao PT e tem um posicionamento um pouco menos antagônico em relação ao presidente”, explica.

Rejeição, Moro e Doria

O levantamento também mediu a imagem do presidente Bolsonaro e de seu Governo, além da percepção pública de vários líderes políticos e personalidades. Na pesquisa, 60% da população desaprova o atual ocupante do Planalto, contra 34,8% que o apoiam. Trata-se de uma queda de três pontos percentuais na aprovação em relação à pesquisa anterior, em 21 de janeiro. Apesar da redução, o patamar de apoio segue alto, puxado pelos homens (40% o aprovam), os evangélicos (53% o apoiam) e as regiões Norte e Centro-Oeste (41% e 42%, respectivamente, o apoiam), com índices de aprovação acima da média nacional.
Segundo o Atlas, é Luiz Henrique Mandetta é o político com a imagem mais positiva entre os líderes medidos pela pesquisa (40%), seguido por Bolsonaro, que tem 36% de imagem positiva, contra 60% de negativa. Lula, por sua vez, aparece com os mesmos 36% de índice positivo do presidente, alta de três pontos em relação a janeiro, provavelmente o começo do reflexo de sua reabilitação política. Seu nêmesis, o ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro de Bolsonaro Sergio Moro, aparece com recorde de rejeição (63%), a maior desde que o Atlas começou a medir.
Já o governador tucano João Doria estabilizou sua imagem positiva (25%), mas ainda tem uma rejeição muito alta (60%). “Doria ainda enfrenta tensões internas no partido, com os acenos de Eduardo Leite como candidato”, lembra Andrei Roman, citando o governador do Rio Grande do Sul, que disputa com o homólogo paulista espaço no PSDB. Para o CEO do Atlas, Leite pode ser um fator surpresa nos próximos meses. “Não medimos o Leite e ele pode constituir o principal fator surpresa pela frente. Leite tem a vantagem de ser desconhecido para a maioria do público nacional, então poderia chegar como uma espécie de salvador se nenhum outro candidato de centro decolar. Ele é jovem, tem um discurso moderado, não surfou na onda bolsonarista e tem uma boa aprovação como governador.”

A pesquisa Atlas foi realizada com 3.721 entrevistas feitas por questionários aleatórios via internet. As respostas são calibradas por um algoritmo de acordo com as características da população brasileira.

Errata: Uma primeira versão desta reportagem mencionava que a diferença entre Lula, Ciro e Mandetta e Bolsonaro em uma eventual disputa de segundo turno era de ao menos 16 pontos. O dado correto é uma diferença de ao menos 6 pontos. A informação foi corrigida.

Fonte: El País

quarta-feira, 10 de março de 2021

Morador de rua é queimado enquanto dormia na Praça da Estação

Um senhor em situação de rua foi vítima de um grave e covarde atentado no fim da madrugada desta terça-feira (9), na Praça da Estação, região Central de Belo Horizonte. Dois homens ainda não identificados jogaram gasolina sobre ele e atearam fogo, segundo o flagrante de testemunhas. O homem, que estava dormindo, sofreu queimaduras severas e teve o socorro ignorado por quem passava pelo local – mesmo com algumas partes do corpo em carne viva.

Um senhor em situação de rua foi vítima de um grave e covarde atentado no fim da madrugada desta terça-feira (9), na Praça da Estação, região Central de Belo Horizonte. Dois homens ainda não identificados jogaram gasolina sobre ele e atearam fogo, segundo o flagrante de testemunhas. O homem, que estava dormindo, sofreu queimaduras severas e teve o socorro ignorado por quem passava pelo local – mesmo com algumas partes do corpo em carne viva.

Quem amenizou a agonia da vítima foi Anne Menezes, que saiu do metrô na Estação Central por volta das 8h – portanto, mais de 2h após o atentado. “Ninguém socorreu ele, ele estava queimado desde o final da madrugada. É muito triste ver que tem pessoas que fazem isso e pessoas que ignoram completamente a situação. Na Praça das Estação, o metrô abre às 5 horas da manhã, passando gente praticamente em cima dele desde antes dele pegar fogo”, relata ao BHAZ.

Um dos moradores em situação de rua que estava ajudando a vítima contou à mulher que ninguém atendeu aos pedidos de ajuda. “Ele [o senhor] tremia de dor, se arrastava de dor no chão e ninguém fazia nada. E o morador de rua falando assim para mim: ‘Eu não consigo chamar o Samu, eu não tenho telefone’. Eu disse para ele que chamaria, depois da ligação, perguntei: ‘Por que vocês não ligaram antes?’ Foi quando ele me respondeu: ‘A gente pediu ajuda, ninguém quis ajudar'”, revela.

O crime

O crime aconteceu no final da madrugada. De acordo com o relato dos moradores de rua à mulher, um carro parou no local entre 5h30 e 6h. “Pelo o que eles falaram, o carro parou… Na hora que o carro parou, eles viram, e aí uns homens foram andando… No que foram andando, jogaram a gasolina e jogaram fogo muito rápido”, conta Anne. “Eles falaram: ‘Passou uns playboy doidão aí e jogaram fogo nele, não deu tempo da gente acudir'”.

Os responsáveis, sempre conforme testemunhas, fugiram do local depois de atacarem o senhor em situação de rua. “Saíram e arrancaram o carro”, completa a mulher. Depois do crime, o corpo dele ficou em carne viva. “Ele estava com a pele muito visível na carne viva, estava destampado porque o cobertor dele também pegou fogo. Então ele estava com metade do cobertor, com as pernas todas queimadas e um dos pés praticamente atrofiou”, diz.

Invisibilidade

A tragédia não acabou por aí. O homem foi negligenciado novamente – desta vez, por todos que passaram pela estação. “Ele estava na Caetés no meio da rua, no meio da calçada, estava jogado entre o meio fio e a calçada, tremendo. E ninguém falava nada, como se fosse normal um homem sentir dor daquela forma, acha que porque é morador de rua, não merece atenção, não sente dor”, desabafa Anne.

“Nesse horário, o fluxo já é muito grande, gente chegando para trabalhar no Centro o tempo inteiro. Ele ficou de 2 a 3 horas agonizando e ninguém fazendo nada, as pessoas passando de um lado pro outro”, diz. “Com certeza já tinha gente quando jogaram fogo nele, com certeza alguém viu alguma coisa, é uma sucessão de ignorar o ser humano muito longa. Ele tá ali, é invisível, a parte invisível da nossa cidade, é muito doido isso, ter seres humanos que para a maioria das pessoas não são considerados humanos. Ele e um poste dá na mesma”, desaba.

Quando chamou o Samu, a mulher precisou ser acalmada pelos profissionais do outro lado do telefone. “Eu liguei pro Samu, eles me acalmaram, porque eu estava chorando muito. Uma moradora de rua me agradeceu pela ajuda. Eu falei: ‘Não tem como não ajudar, é um ser humano’. Mas ela me respondeu: ‘As pessoas não veem a gente como um ser humano, igual você está vendo'”, conta, comovida.

Uma situação de 20 minutos na manhã de Anne fez com que ela parasse para refletir. “Estamos em uma onda de ignorar a Covid, ignorar o fechamento, essa individualidade reflete muito do que a gente está vivendo no todo. Essas pessoas não existem só no Natal, para levar comida uma vez por mês, tirar foto e postar no Instagram”, finaliza.

Mais invisibilidade?

Ao BHAZ, o Samu confirmou que foi acionado hoje na manhã desta terça-feira (9) para atendimento de um homem com cerca de 50 anos que apresentava queimaduras. Apesar da reportagem perguntar detalhes sobre o atendimento, a assessoria se limitou a dizer, por nota (leia a íntegra abaixo), que a vítima foi encaminhada à UPA Centro-Sul.

Já a Polícia Civil, quando questionada pela reportagem sobre as investigações, informou que ainda não houve registro do caso. A reportagem tentou contatar a Polícia Militar (PM), na tarde de hoje, mas não conseguiu obter uma resposta. O Corpo de Bombeiros também informou que não foi acionado para atuar no resgate e, portanto, não registrou o ocorrido.

Nota Samu

“A Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, informa que o SAMU foi acionado hoje na manhã desta terça-feira (9) para atendimento de um homem com cerca de 50 anos que foi encaminhado para a UPA Centro Sul com queimaduras”. 

Fonte: BHAZ

terça-feira, 9 de março de 2021

História - PARASITA DA VIDA REAL? MULHER ENCONTRA APARTAMENTO SECRETO ATRÁS DO ESPELHO DO BANHEIRO

A jovem, que mora nos EUA, notou uma circulação de ar em um buraco da porta do banheiro, encontrando muitos cômodos escondidos

Após meses notando uma onda de vento partindo de uma fresta do banheiro, a tiktokerSamantha Hartsoe decidiu investigar o motivo que causava incômodo em seu apartamento em Nova York, nos EUA.

Após meses notando uma onda de vento partindo de uma fresta do banheiro, a tiktoker Samantha Hartsoe decidiu investigar o motivo que causava incômodo em seu apartamento em Nova York, nos EUA.

Registrado em vídeo, ela notou que o vento de maior intensidade partia da borda do espelho da pia. Assim, fez um corte na moldura e descobriu uma estrutura imensa atrás do objeto.

Conforme repercutido pela revista Monet, a descoberta foi amplamente compartilhada na rede social chinesa, sendo curtida por mais de 805 mil pessoas.

Em quatro vídeos, ela ilustrou a abertura da parede, a entrada e filmou o apartamento secreto que era colado ao seu — mas nunca revelado pela imobiliária ou funcionários do prédio.

Tratava-se de um duplex completamente abandonado, que hospedava o sistema de resfriamento de alguns dos apartamentos ao redor, como Samantha explicou em entrevista ao canal de TV estadunidense NSBC, que também visitou o apartamento escondido.

Ela contou com o auxílio de um amigo para realizar a filmagem, que comparou o encontro com o filme “Parasita”, de 2019. As portas que davam acesso a saída estavam trancadas e o chão estava repleto de sacos de lixo e garrafas d’água, mas foi mantido intocado e notificado para o síndico.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Ministros querem julgar suspeição de Moro mesmo com decisão contrária de Fachin

A sugestão de Edson Fachin de que o julgamento da suspeição de Sergio Moro fica prejudicado depois que as condenações de Lula foram anuladas não deve ser seguida com facilidade por outros magistrados do STF (Supremo Tribunal Federal).

A sugestão de Edson Fachin de que o julgamento da suspeição de Sergio Moro fica prejudicado depois que as condenações de Lula foram anuladas não deve ser seguida com facilidade por outros magistrados do STF (Supremo Tribunal Federal).

Integrantes da 2ª Turma do STF, onde a ação contra Moro tramita, pretendem manter a análise da suposta parcialidade do ex-juiz nos processos que envolvem o petista.

Nesta segunda (8), Fachin decidiu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar o ex-presidente nos processos do tríplex, de compra de um terreno para o Instituto Lula, de doações para o mesmo instituto e do sítio de Atibaia.

Com isso, todos os atos dos processos, inclusive o recebimento da denúncia contra o petista, foram anulados.

No mesmo despacho, Fachin considerou que todos os habeas corpus apresentados pela defesa do ex-presidente questionando a conduta da Justiça ficaram prejudicados _ou seja, perdem a razão de ser e devem ser arquivados. Entre eles está a ação que levanta a suspeição de Sergio Moro.

A previsão é que ela seja pautada ainda no primeiro semestre. Os ministros da 2ª Turma vão ter a palavra final sobre a pertinência de que ela ainda seja analisada.

Fonte: Diário do Centro do Mundo

quinta-feira, 4 de março de 2021

17% de toda a comida disponível para consumo no mundo é desperdiçada

Relatório da ONU aponta desperdício de 931 milhões de toneladas de alimentos em 2019 e afirma que o problema não se restringe a países desenvolvidosEstima-se que cerca de 690 milhões de pessoas tenham sido afetadas pela fome em 2019. Nesse mesmo ano, aproximadamente 931 milhões de toneladas de alimentos, o equivalente a 17% de toda a comida disponível para consumo, tiveram o lixo como destino.
Estima-se que cerca de 690 milhões de pessoas tenham sido afetadas pela fome em 2019. Nesse mesmo ano, aproximadamente 931 milhões de toneladas de alimentos, o equivalente a 17% de toda a comida disponível para consumo, tiveram o lixo como destino.
Os dados são de uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU), apresentada nesta quinta-feira (4), que busca incentivar esforços globais para o cumprimento da meta 12.3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): reduzir pela metade o desperdício de comida até 2030.
O Índice de Desperdício de Alimentos 2021, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da organização parceira WRAP, analisou as sobras alimentares em pontos de venda, restaurantes e residências, considerando as partes comestíveis e as não comestíveis, como ossos. De acordo com a pesquisa, o maior desperdício vem das casas, que descartam 11% do total de alimentos disponíveis na fase de consumo da cadeia de abastecimento. Para serviços alimentícios e estabelecimentos de varejo, as taxas são de 5% e 2%, respectivamente.
O documento revela que, em nível global per capita, os consumidores desperdiçam 121 kg de alimentos a cada ano, sendo 74 kg descartados em residências. No caso do Brasil, esse número cai para 60 kg de alimentos desperdiçados por pessoa no ambiente doméstico e, no país, 12 milhões de toneladas. "Durante muito tempo, presumiu-se que o desperdício de alimentos em casa era um problema expressivo apenas nos países desenvolvidos. Com a publicação do relatório Índice de Desperdício de Alimentos, podemos ver que as coisas não estão tão claras", avalia, em nota, Marcus Gover, CEO da WRAP.
Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA, afirma que o impacto do desperdício de alimentos atinge pelo menos três esferas: a social, a ambiental e a econômica. Diante do cenário de crise climática, por exemplo, atribui-se até 10% das emissões globais de gases de efeito estufa a alimentos não consumidos, pensando nas perdas em toda a cadeia.
"A redução do desperdício de alimentos cortaria as emissões de gases de efeito estufa, retardaria a destruição da natureza, aumentaria a disponibilidade de comida e, assim, reduziria a fome e economizaria dinheiro em um momento de recessão global", diz Andersen. "Se quisermos levar a sério o combate à mudança climática, à perda da natureza e da biodiversidade, à poluição e ao desperdício, empresas, governos e cidadãos de todo o mundo devem fazer a sua parte".
Por isso, a ONU acredita que incluir o desperdício de alimentos na Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) do Acordo de Paris é um caminho para os países aumentarem a ambição climática e fortalecerem a segurança alimentar. Além disso, a fim de alcançar a meta 12.3 dos ODS, a organização ressalta que os governos precisam desenvolver uma melhor capacidade de monitorar o desperdício de alimentos.

quarta-feira, 3 de março de 2021

História - Como bancos ingleses lucraram com escravidão no Brasil

No auge do tráfico de escravos da África para o Brasil, entre 1800 e 1850, mais de 2 milhões de pessoas foram trazidas à força para o país para serem escravizadas, segundo o Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos (Transatlantic Slave Trade Database). No total, ao longo de quatro séculos, mais de 4,8 milhões de pessoas escravizadas foram obrigadas a desembarcar em solo brasileiro.

O tráfico era um negócio lucrativo, mas não foram só os traficantes e fazendeiros que se aproveitaram da exploração brutal de seres humanos. Banqueiros ingleses se envolveram com a escravidão no Brasil mesmo depois de ela ter sido abolida nas colônias britânicas, em 1833.

O tráfico era um negócio lucrativo, mas não foram só os traficantes e fazendeiros que se aproveitaram da exploração brutal de seres humanos. Banqueiros ingleses se envolveram com a escravidão no Brasil mesmo depois de ela ter sido abolida nas colônias britânicas, em 1833.

É isso que mostra uma pesquisa do historiador Joe Mulhern, especializado no envolvimento britânico com a escravidão no Brasil, pela Universidade de Durham, na Inglaterra.

"Apesar de o Império Britânico na era vitoriana pensar em si mesmo como um modelo moral quanto à escravidão e fazer pressão para que outros países, inclusive o Brasil, abolissem a prática, os legisladores tiveram dificuldade para cortar os laços econômicos com a escravidão em países estrangeiros", explica Mulhern em entrevista à BBC News Brasil.

Havia duas formas principais de envolvimento dos britânicos, explica o historiador. Uma mais ampla, por meio de empréstimos e a compra de títulos do Tesouro, entre outras relações indiretas com a economia escravocrata. E outra mais direta, em que instituições e indivíduos deram apoio financeiro, na forma de empréstimos e garantias, por exemplo, para o tráfico de escravos ou para fazendas que usavam esse tipo de mão de obra.

Alguns britânicos chegaram a ser diretamente proprietários de escravos — segundo o trabalho de Mulhern, um censo de 1848-1849 mostra que havia, naquele ano, cerca de 3.400 pessoas escravizadas por mestres britânicos.

Entre os envolvidos nessa relação mais direta, havia indivíduos ligados a bancos que foram predecessores de grandes instituições financeiras atuais do Reino Unido.

Lobby no parlamento

Em 1833 o Reino Unido havia extinguido a escravidão em suas colônias, dando compensações para os senhores mas não para os escravizados. O império começou também a fazer pressão diplomática para que a escravidão fosse abolida no Brasil. Essa pressão é apontada por historiadores brasileiros como um dos múltiplos fatores que levaram ao fim da prática no país.

A lei que proibiu o tráfico como parte de um acordo com o Reino Unido, inclusive, deu origem à expressão "para inglês ver", porque durante muito tempo não havia fiscalização e o tráfico continuou.

No entanto, apesar dessa pressão do governo do país europeu, muitos do britânicos envolvidos na prática conseguiam impedir que a legislação britânica fosse mais restritiva em relação às suas atividades no exterior.

"Essa ambivalência no envolvimento do Reino Unido na escravidão (tanto pressionando para o seu fim quanto deixando de cortar laços econômicos existentes) pode ser encontrada na legislação da época", diz o historiador.

Isso porque os envolvidos faziam lobby no Parlamento.

"Eles pressionavam para que seus negócios fossem protegidos, com os mesmos argumentos para defender a escravidão usados no Reino Unido antes de 1833", explica Mulhern.

Os três principais, aponta, eram a defesa da propriedade (porque as pessoas tinham sido vendidas como propriedades); a necessidade de o Reino Unido prosperar nesses mercados que ainda eram escravocratas; e o mito de que os britânicos que exploravam escravos eram "benevolentes".

"Já existia o mito de que os senhores de escravos no Brasil eram benevolentes. Os ingleses diziam que eles eram ainda mais", conta Mulhern. "Mas não há nenhuma evidência de que a escravização, uma prática baseada na violência ou na ameaça dela, era menos cruel quando praticada pelos britânicos".

Seres humanos como garantia

Muitas vezes os escravizados eram parte das propriedades usadas em garantias de empréstimos de um banco. Na dissertação de Mulhern, ele resgatou casos em que bancos ingleses tinham um devedor insolvente e acabavam leiloando os escravizados para cobrar a dívida.

Um desses bancos, mostra Mulhern em sua pesquisa, era o London and Brazilian Bank, criado em 1862 (e comprado em 1923 pelo Lloyd's Banking Group, que existe até hoje).

O banco continuou envolvido com a escravidão até a praticamente a abolição da prática no Brasil, em 1888 — ou seja, mais de 50 anos depois da abolição da escravatura nas colônias britânicas, como Jamaica e África do Sul.

Um dos executivos do London and Brazilian Bank, Edward Johnston, chegou a ser dono de escravos no Brasil e a casar com uma família que era dona de uma fazenda de café no Rio de Janeiro. "A riqueza gerada com a escravidão no Brasil ajudou a estabelecer um banco que investiria na exploração de pessoas", diz Mulhern.

Esses laços, no entanto, eram escondidos de investidores no Reino Unido, onde a opinião pública já não era favorável à escravidão.

Para evitar afugentar investidores no país de origem, a maior parte dos bancos envolvidos com operações relacionadas à escravidão não o fazia diretamente, mas por meio de comissários intermediários, explica Mulhern à BBC News Brasil.

Um desses intermediários era a casa bancária Gavião Ribeiro Gavião, que financiava a economia agrícola de São Paulo e atuava no comércio interno de escravos.

A casa bancária atuou como intermediária para o London and Brazilian Bank. O banco britânico declarava que seu propósito no Brasil era comercial, mas tinha uma carteira de hipotecas cujas garantias eram fazendas de café em São Paulo e mais de 800 pessoas que trabalhavam nelas como escravos.

Terceirização

O historiador também cita o caso da Fazenda Angélica, em Rio Claro, no interior de São Paulo, que acabou se tornando um dos ativos de um banco e sendo administrada por ele. Depois de uma tentativa fracassada de usar mão de obra de imigrantes, o banco resolveu "terceirizar" o uso de mão de obra escrava.

Isso porque, sendo uma empresa inglesa, o banco não poderia ser dono direto de escravizados. Mas uma brecha na legislação permitia que ele "alugasse" a mão de obra escrava de outros senhores de escravo — e foi o que fez.

Quando vendeu a fazenda, o banco afirmou que "não empregava um único escravo" — sem citar que pagou senhores de escravos para usarem as pessoas escravizadas por eles na plantação e que ainda tinha 80 escravos como garantia do financiamento que possibilitou a venda da fazenda.

Empréstimo não pago

"Nem sempre esse envolvimento era bem-sucedido, e agentes britânicos que fizeram as negociações do tipo no Brasil chegaram a ser repreendidos no Reino Unido", conta Mulhern.

Mas a repreensão, diz ele, não foi por questões morais, mas porque muitos dos empréstimos não foram recuperados e algumas instituições acabaram tendo dificuldades financeiras por causa disso.

"Muitos investidores buscavam investir em infraestrutura, em criação de linhas de trem por exemplo, mas os fazendeiros queriam um investimento direto na produção agrícola, que era um negócio muito arriscado", diz Mulhern. "Apesar disso, alguns agentes se envolveram, até contraindo orientações da sede, e depois foram repreendidos porque os negócios não deram certo".

Empréstimos que tinham seres humanos como garantia e não eram pagos tinham impactos diretos na vida dessas pessoas.

Em 1869, o Barão do Turvo, fazendeiro carioca que tinha uma dívida com o London and Brazilian Bank, não pagou um empréstimo que devia.

"O banco então entrou com um processo para recuperar o dinheiro, e como havia pessoas escravizadas como garantia, elas sofreram a consequência", diz Mulhern. Advogados do banco então realizam um leilão de 103 escravizados, incluindo famílias com crianças e bebês. Documentos da época compilados por Mulhern mostram como o banco vendeu pelo menos 30 dessas pessoas no leilão — entre elas a pequena Ancieta, uma bebê escravizada de apenas um ano de idade; e as pequenas Adelina e Marcellina, vendidas com 2 e 6 anos.

Lidando com o passado

O movimento americano Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em português), de protesto contra o racismo e contra o assassinato de negros pela polícia, fez com que muitas instituições viessem a público falar sobre seu histórico racista e mostrar que mudaram de postura, inclusive doando dinheiro para instituições de combate ao racismo.

"Historiadores já sabiam dessas ligações, mas o movimento Black Lives Matter trouxe um novo escrutínio sobre esse passado", diz Mulhern.

Após a publicação de um artigo de Joe Mulhern sobre sua pesquisa, o banco Lloyds Banking Group atualizou seu site para incluir um reconhecimento de que pelo menos seis dos 200 bancos que foram incorporados pelo grupo se envolveram com a escravidão, incluindo o London and Brazilian Bank.

"Embora tenhamos muito do nosso passado para nos orgulharmos, não podemos nos orgulhar de tudo", diz o banco.

"Mas se esse debate vai ir além do reconhecimento e levar de fato a algum tipo de reparação ou doação financeira é algo que eu não sei", afirma o pesquisador.

Fonte: BBC

terça-feira, 2 de março de 2021

Alerta Covid: Taxa de transmissão chega ao nível vermelho em BH

Os indicadores da Covid-19 em Belo Horizonte continuam a subir. Com o nível de transmissão da doença em alerta máximo, a capital tem 74,7% de leitos de UTIs ocupados. O Boletim Epidemiológico divulgado nesta segunda-feira (1) mostra os impactos negativos da falta de isolamento por parte da população.

Os indicadores da Covid-19 em Belo Horizonte continuam a subir. Com o nível de transmissão da doença em alerta máximo, a capital tem 74,7% de leitos de UTIs ocupados. O Boletim Epidemiológico divulgado nesta segunda-feira (1) mostra os impactos negativos da falta de isolamento por parte da população.

O número médio de transmissão por infectado (RT) saiu do nível amarelo e já ocupa o vermelho, com o total de 1,20. O número saltou desde o último boletim, que registrava 1,6 pontos. A taxa de ocupação em leitos da enfermaria também acompanhou a crescente, e foi de 56,2% para 58,3%.

Ainda segundo boletim, BH tem apenas 115.558 pessoas vacinas com a primeira dose da vacina. Já com a segunda dose, os números são ainda menores: apenas 59.012. A capital mineira tem 2.375.151 milhões de habitantes.

Negacionistas nas praias


Na última quinta-feira (25), o Prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), chegou a mencionar que a volta às aulas só será possível se os números estiverem baixos. Estamos esperando dar os 14 dias [após] o Carnaval. Muita gente viajou, muito negacionista foi para praia. Estamos com medo.”

Alexandre Kalil também bateu forte no ponto de que BH não tem onde comprar vacinas. O chefe do Executivo disse durante entrevista coletiva que já buscou o imunizante em vários laboratórios. Mesmo com recursos financeiros à disposição para a compra, não há doses à venda.

Kalil disse também que caso houvesse a possibilidade, a PBH compraria o imunizante na mesma hora. “Se tivesse para comprar, a gente compraria para usar só aqui. A gente tem caixa para comprar”, garantiu.  Apesar de não ter dado detalhes sobre quais laboratórios teria tentado fazer as compras, Kalil garantiu que vai continuar tentando comprar o imunizante para os mineiros.

Fonte: BHAZ

segunda-feira, 1 de março de 2021

CRM-DF usa notícia enganosa ao afirmar que OMS “condenou” lockdown

Para justificar sua absurda condenação ao lockdown, Conselho de Medicina usa frase fora de contexto como se fosse da Organização Mundial de Saúde

Com as UTIs do Distrito Federal lotadas, o Conselho Regional de Medicina divulgou uma nota condenando o lockdown decretado pelo governador Ibaneis Rocha na última sexta-feira, 26, para tentar conter o aumento dos contágios e o consequente colapso nos hospitais. Como se não fosse o suficiente, ainda utilizou uma notícia enganosa para justificar seu posicionamento. “O lockdown não salva vidas e faz os pobres muito mais pobres”, diz o texto, citando o “Dr. David Nabarro”, como se este falasse pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e a entidade estivesse “condenando” o lockdown. É mentira.

Com as UTIs do Distrito Federal lotadas, o Conselho Regional de Medicina divulgou uma nota condenando o lockdown decretado pelo governador Ibaneis Rocha na última sexta-feira, 26, para tentar conter o aumento dos contágios e o consequente colapso nos hospitais. Como se não fosse o suficiente, ainda utilizou uma notícia enganosa para justificar seu posicionamento. “O lockdown não salva vidas e faz os pobres muito mais pobres”, diz o texto, citando o “Dr. David Nabarro”, como se este falasse pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e a entidade estivesse “condenando” o lockdown. É mentira.

Em primeiro lugar, Nabarro não é diretor da OMS nem porta-voz da entidade, e sua fala, uma entrevista à revista britânica The Spectator, foi tirada de contexto pelos negacionistas do coronavírus, de acordo com verificação feita pelo projeto de checagem Comprova em outubro do ano passado. Na época, a notícia enganosa estava sendo espalhada no twitter por uma deputada federal bolsonarista, Major Fabiana.
“David Nabarro –que é enviado especial da organização e não seu diretor, como afirma a deputada–, de fato destacou os impactos econômicos e sociais negativos dos lockdowns. Isso não significa, no entanto, que a OMS tenha mudado de posição”, diz a checagem, lembrando que, na mesma entrevista, o representante da entidade afirmou que os lockdowns “são justificados em momentos de crise, para reorganizar os sistemas de saúde e proteger os profissionais que estão na linha de frente do combate à doença. A ideia desta prática é ‘achatar a curva’ de contágio, evitar a superlotação de hospitais e, depois, permitir a reabertura das economias”.

"A OMS estabeleceu seis requisitos para que os países pudessem relaxar quarentenas e lockdowns. Bolsonaro não cumpriu nenhum, mas sobre a má atuação do governo federal na pandemia os Conselhos Regionais e Federal de Medicina continuam em silêncio"

O que de fato Nabarro falou na entrevista é que os lockdowns não podem ser a principal forma de os governos combaterem a pandemia. “Nós realmente apelamos aos líderes mundiais: parem de usar o lockdown como seu método principal de controle”, disse.

Segundo declarou oficialmente a OMS diversas vezes, os países não podem trocar a quarentena por nada. A entidade estabeleceu seis requisitos antes de os governos relaxarem as restrições sobre a população (quarentenas e lockdowns): assegurar que as transmissões estejam sob controle; assegurar que os sistemas de saúde podem cuidar de todos os casos; minimizar riscos de contágio nos hospitais e centros de saúde; estabelecer medidas preventivas em escolas, locais de trabalho e outros lugares essenciais; gerenciar o risco de que o vírus seja importado de outros lugares; educar a comunidade sobre o novo normal, e como eles podem se proteger.

Bolsonaro não cumpriu nenhuma dessas prerrogativas, mas sobre a má atuação do governo federal na pandemia e sobre a mentira do tratamento precoce, os Conselhos Regionais e Federal de Medicina continuam em silêncio.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Pró-Esia - Fábrica de Versos... A filosofia do homem que mora em um castelo de areia: “Tento não me apegar a nada

Márcio Mizael vive do efêmero numa praia do Rio de Janeiro. Ele mora na rua desde os 8
Márcio Mizael Matolas nasceu há 44 anos em um bairro paupérrimo do Rio de Janeiro, mas hoje mora num castelo. Construído num dos calçadões com o metro quadrado mais caro da cidade, ele tem vista livre para o Atlântico, vizinhos nobres e uma quadra de vôlei no quintal. O homem usa coroa de rei e os banhistas param para tirar fotos junto à fortaleza. Seu reinado, porém, é tão efêmero como a areia, mas foi assim que concebeu sua forma de viver: “As pessoas gostam muito de possuir. Eu tento não me apegar a nada”.

Márcio Mizael Matolas nasceu há 44 anos em um bairro paupérrimo do Rio de Janeiro, mas hoje mora num castelo. Construído num dos calçadões com o metro quadrado mais caro da cidade, ele tem vista livre para o Atlântico, vizinhos nobres e uma quadra de vôlei no quintal. O homem usa coroa de rei e os banhistas param para tirar fotos junto à fortaleza. Seu reinado, porém, é tão efêmero como a areia, mas foi assim que concebeu sua forma de viver: “As pessoas gostam muito de possuir. Eu tento não me apegar a nada”.

O homem, apelidado “Castelinho”, perdeu o pai assassinado antes de nascer e aos oito anos se lançou à rua. Começou vendendo quadrinhos, revistas e livros velhos no bairro do Flamengo, na zona sul da cidade, sem saber ler uma palavra do que oferecia. Foi na praia desse bairro onde lembra ter construído seu primeiro castelo: uma pirâmide. “Depois aprendi a fazer pirâmides incas, maias, astecas... Via os desenhos nas revistas”, relembra quase quatro décadas depois sob a sombra de uma árvore da praia do Pêpe, na Barra de Tijuca.

Com cerca de 10 anos, Castelinho já fazia seu dinheiro, ajudava a mãe e era conhecido no bairro. Sempre rodeado de livros, os moradores ensinaram ele a ler. Não sabe dizer quantas obras já devorou desde então, mas há uma que não esquece, mesmo porque já a leu quatro vezes. Capitães de Areia, de Jorge Amado, narra o cotidiano de um grupo de meninos sem teto na Bahia e também o dele próprio. “Ele retrata bem a vivência de rua, o sentimento de egoísmo e de solidão”, diz este rei de bermuda.

Um dia uma família se dispôs a adotá-lo, mas ele se recusou. “Eu sempre quis o carinho da minha família, não de outra”, explica. “Sempre vi as mães dos outros abraçando os filhos e eu chorava muito com isso. Ela já me abraçou quando eu fui mais velho, mas sabe essa coisa de que, quando arranha, é difícil tirar a marca?”.

Com 14 anos, Castelinho acumulava mais de 15.000 livros numa rua de Leblon e nos tempos vagos ia para a praia para construir sereias e jacarés que o mar levava antes de qualquer um admirar. Começou também a brincar com origami, a arte japonesa de dobrar papel que um senhor lhe ensinou no hospital quando se recuperava do atropelamento de um ônibus. Fazia borboletas, mas também bonecos complexos. Casou e foi, por fim, morar sob um teto. Não deu certo. Tampouco os relacionamentos que vieram depois. “Poxa, há tanto tempo que não sinto o amor... Elas não entendem minha liberdade. Em seguida querem mudar como eu vivo. Me dizem: pô, eu não quero morar num castelo!”, diz rindo, com seu sorriso quebrado, da sua própria ironia.


O habitáculo onde ele mora, nos fundos desse palácio, tem até seu jeito. Escondido na estrutura de areia, o buraco tem sacos de dormir e redes no chão e prateleiras de livros nas paredes. Na porta fica Humana, a cachorra. “Já fiz castelo em Copacabana, onde tem um monte de turista. Mas aqui é sossegado, posso ler”. Protegido de desabamentos por sacos de areia e pilares de madeira, Castelinho não teme a chuva tropical do verão. “É pior o sol, que seca tudo e estraga”, diz, prometendo se dedicar umas quantas horas a restaurar sua obra.

Castelinho acha que lembrar do pior momento da vida é um exercício difícil. Mas recorda o mais feliz. “Uma vez eu fiz um castelo mirabolante em Copacabana, me deitei na frente dele e pensei: Cara, sou foda!”. No sol escaldante do início do verão, cigarro numa mão e uma latinha de cerveja na outra, o homem alimenta seu sonho: montar um ateliê onde trabalhar com mais matéria efêmera.


Durante a conversa, duas mulheres de chinelo de salto, vestidos de renda compridos e óculos de espelho posam com duas crianças na frente do palácio. Sentam numa cadeira de madeira batizada de “Trono das Estrelas” e lançam as melenas para um lado. “Pode botar a coroa!”, grita Castelinho de longe. As visitantes o ignoram, terminam suas fotos e vão embora sem soltar um centavo. “Antes eu brigava, tentava explicar que isto aqui não nasce sozinho, que preciso carregar areia, água, que preciso manter a estrutura, que as costas doem. Mas há um tempo que resolvi que era um desgaste, e que viva a arte!”.

Fonte:El País

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Imigrantes no Acre vivem limbo em meio à Covid-19 e clima tenso na fronteira

Situação vivida pelos imigrantes na fronteira também expressa indiferença por parte dos governos nacionais quanto à questão migratóriaFronteiras fechadas, condições precárias, risco de contrair Covid-19 e um clima crescente de tensão. Eis um resumo da situação vivenciada no momento por imigrantes que estão no estado do Acre, mais exatamente na região de fronteira do Brasil com Peru e Bolívia.

Fronteiras fechadas, condições precárias, risco de contrair Covid-19 e um clima crescente de tensão. Eis um resumo da situação vivenciada no momento por imigrantes que estão no estado do Acre, mais exatamente na região de fronteira do Brasil com Peru e Bolívia.

Um grupo de pelo menos 500 imigrantes está na região de Assis Brasil, com a intenção de deixar o Brasil por via terrestre. Na quarta (24) chegou ao município mais um ônibus com 60 imigrantes. O roteiro é semelhante dos que já estão na região há mais tempo: eles chegaram ao estado de avião, desembarcam na capital Rio Branco e seguem de ônibus para Assis Brasil (último ponto brasileiro da fronteira).

A maioria do grupo é composta por pessoas de nacionalidade haitiana, mas também há representantes de outras nacionalidades. Segundo dados da Caritas Dioecesana de Rio Branco, ao menos 40% dos imigrantes que estão em Assis Brasil são mulheres e crianças.

A maior parte está em dois abrigos improvisados dentro de escolas públicas no município. De acordo com a Pastoral do Migrante local, há também 80 pessoas dormindo na rua e 70 acampadas na Ponte Binacional que liga a cidade acreana a Iñapari, já no lado peruano, como forma de protesto.

Com o fechamento da ponte, caminhões dos dois lados da fronteira não conseguem passar. O protesto gera grande insatisfação por parte dos motoristas, que temem prejuízos com as cargas paradas e querem a reabertura da via.

Pessoas que acompanham a situação na fronteira ouvidas pelo MigraMundo temem que ocorra um conflito na região, caso a insatisfação alcance níveis mais altos.

Jornada incerta

Em razão da pandemia, muitos imigrantes perderam seus empregos e passaram a enfrentar dificuldades financeiras no Brasil – que também vive mau momento na economia, agravado pela Covid-19.

Diante desse cenário, mesmo com as fronteiras fechadas, alguns decidem apostar em uma nova migração para tentar obter melhores condições de vida em outro país.

Essa jornada, que já é complicada em circunstâncias normais, se torna ainda mais penosa, complexa e perigosa diante da Covid-19. Para tentar frear a disseminação do vírus, países em todo o mundo vêm fechando fronteiras e adotando critérios cada vez mais severos para admitir pessoas de outros países em seus territórios.

Como resultado, os imigrantes que tentam sair do país para seguir viagem por outras nações do continente vivem uma situação de limbo. Possuem pouco ou nenhum dinheiro para se manter no Brasil, ao mesmo tempo que não conseguem passar para outros países. Ao mesmo tempo, ficam ainda mais suscetíveis ao contágio pelo novo coronavírus.

As fake news também possuem uma parcela de culpa pela situação na fronteira. Correm entre os imigrantes boatos de que as fronteiras do Peru e dos Estados Unidos estão abertas, o que encoraja muitas pessoas a venderem tudo na esperança do “sonho americano”.

Um comunicado em creole haitiano, escrito pela Defensoria Pública da União (DPU), já circula entre grupos de WhtsApp acessados por imigrantes e visa conscientizar sobre os riscos de tentar sair do Brasil no momento.

Alguns, inclusive, já decidiram fazer o caminho de volta e desistiram de sair do Brasil. Um grupo de cerca de 20 pessoas deixou a ponte na sexta-feira (19) e seguiu para a capital do Acre, Rio Branco, tendo São Paulo como destino final.

“Por pior que esteja a situação dos migrantes nas cidades de origem em que estão residindo, ao menos nelas é possível conseguir algum bico pra prover o sustento. Assis Brasil oferece zero empregos, sem falar nos riscos de Covid-19 nos abrigos. Estamos tentando divulgar pros grupos de migrantes que a fronteira não está aberta e que esse não é o melhor momento para tentar sair do Brasil”, explica a defensora pública Larissa Moisés, que integrou uma comitiva da DPU que conheceu de perto a situação na fronteira com o Peru.

A Defensoria relata haver imigrantes que tentam driblar o fechamento da fronteira peruana com a ajuda de coiotes. No entanto, a fiscalização peruana tem conseguido impedir a entrada da maioria dos que se arriscam por essa opção, além de usar a força para impedir travessias por meio da ponte. Quem tenta fazer o mesmo por meio da fronteira com a Bolívia também não tem obtido sucesso.

Tensão no Acre e indiferença federal

O próprio estado do Acre vivem um momento delicado em meio à questão migratória. A estação chuvosa tem sido mais intensa que o normal, causando transbordamento de rios e enchentes em todo o estado. A pandemia também alcança patamares cada vez mais altos, inclusive em Assis Brasil. O estado já contabiliza ao menos 55 mil casos do vírus, com 975 mortes, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde.

Diante desse cenário, o prefeito de Assis Brasil, Jerry Correia (PT), decretou estado de calamidade pública no município e pede constantemente por ajuda do governo federal para resolver a questão.

“Pedimos que o MPE e MPF se posicionem a respeito da crise humanitária que vivemos aqui. Eu pergunto: é humanitário permitir que crianças e mulheres grávidas fiquem por dias em uma ponte debaixo de sol e chuva? Esta prefeitura não deixou de assistir essas pessoas em nenhum momento. Mesmo no limite de nossas condições temos garantido água, comida, abrigo e atendimento médico. Chegamos a fornecer 1.500 refeições por dia. É uma situação de guerra que foge totalmente da nossa capacidade de gerenciamento. Estamos pedindo socorro”, afirmou o prefeito em mensagem compartilhada com grupos da sociedade civil que atuam no Acre.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) até esteve no Acre na última quarta-feira (24), mas sequer passou perto da região de fronteira. A medida federal mais efetiva até o momento foi a autorização do uso da Força Nacional de Segurança Pública no Acre.

A portaria, assinada pelo Ministério da Justiça em 17 de fevereiro, vale por 60 dias e estabelece que o efetivo deve auxiliar “nas atividades de bloqueio excepcional e temporário de entrada no país de estrangeiros, em caráter episódico e planejado”.

O efetivo de 12 militares já se juntou a policiais federais, agentes do batalhão de choque da Polícia Militar e do Grupo Especial de Fronteiras (Gefron) que atuam na região.

Por meio de nota, o Ministério das Relações Exteriores informou que tem mantido contato com as autoridades peruanas sobre a questão, e confirmou que o fechamento da fronteira é motivado pela pandemia de novo coronavírus.

O governo peruano, por sua vez, diz que estuda uma forma para liberar a passagem dos imigrantes pelo território, mas que por enquanto a fronteira não será liberada.

Resolver a questão da fronteira virou uma espécie de “pergunta de um milhão de dólares”, segundo a defensora. “Eu e várias pessoas da comitiva nos perguntamos isso o dia todo no tempo que estivemos lá”.

A Caritas e a Pastoral do Migrante informam que mantêm “diálogo constante com as lideranças dos imigrantes para minimizar o impacto negativo, assistindo as suas necessidades: alimentação, medicamento, kits de higiene pessoal e coletiva na medida do possível.

Ponto de passagem e mobilidade seletiva

O Acre ficou conhecido na última década como ponto de entrada no Brasil da migração haitiana, especialmente entre 2010 e 2015. Nos anos seguintes, o estado se consolidou como um local de passagem de imigrantes: tanto são verificados aqueles que deixam o Brasil para outros países quanto outros que fazem o caminho inverso, de ingressar no território brasileiro.

Em meados de 2020, ganhou destaque a situação vivida por imigrantes, em sua maioria venezuelanos, que acamparam sob chuva e sol na ponte que liga Peru e Brasil, na esperança de solicitar refúgio em território brasileiro.

A situação na fronteira mobilizou entidades da sociedade civil e a Defensoria Pública da União, que protocolaram ações junto à Justiça brasileira em favor dos imigrantes. Um tipo de ação que não é possível no atual contexto, uma vez que o desejo do grupo em Assis Brasil é de ingressar no Peru para seguir viagem pelo continente.

Para Letícia Mamed, professora de Teoria Social/Sociologia da Universidade Federal do Acre (UFAC), esse contexto reforça a necessidade de se pensar em uma estrutura permanente no estado que atenda aos desafios trazidos pela temática migratória.

“É preciso suplantar a tendência a uma atuação emergencial, que lida com o problema de modo circunstancial, para encarar o desafio de pensar e desenvolver uma política ativa e realista ao contexto do Acre, em conformidade com o seu atual posicionamento nas rotas internacionais de migração”.

A pesquisadora também critica o caráter seletivo adotado pelos governos nacionais – tanto o brasileiro quanto o peruano – quanto à admissão de pessoas de outros países. Ambos têm adotado medidas restritivas à mobilidade humana em entradas por via terrestre ou aquaviária, mas flexibilizam o acesso por via aérea, que tende a ser usado por pessoas mais abastadas.

“Isso evidencia, portanto, o tratamento diferenciado e seletivo dispensado pelos governos aos imigrantes: aos empobrecidos, oriundos da América Latina, Caribe e África, majoritariamente negros, a política assume caráter restritivo e repressivo; aos abastados, provenientes dos países considerados desenvolvidos, a política é ampla e condescendente, capaz de implementar procedimentos que conciliam as preocupações sanitárias e a preservação do direito humano à mobilidade”, analisa.

Fonte: Migra Mundo