terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Aborto, maconha, casamento gay e, agora, quase 100% de energia elétrica de fontes limpas – é o Uruguai

País vem chamando a atenção na conferência de clima em Paris pelas políticas para redução de carbono. O jornal inglês The Guardian diz que uruguaios têm muito a ensinar


Primeiro país da América do Sul a descriminalizar o aborto (2012), primeiro a legalizar a maconha (2014) e um dos primeiros a aprovar o casamento entre homossexuais com mesmos direitos civis garantidos aos casais heteros (2012), o Uruguai agora pode ostentar mais um pioneirismo na região -- desta vez, em função de seus avanços no uso de energia limpa.
O país vem chamando a atenção na conferência de clima em Paris, a COP-21, pelo progresso na mudança de sua matriz energética, com consequente redução as emissões de carbono.
Primeiro país da América do Sul a descriminalizar o aborto (2012), primeiro a legalizar a maconha (2014) e um dos primeiros a aprovar o casamento entre homossexuais com mesmos direitos civis garantidos aos casais heteros (2012), o Uruguai agora pode ostentar mais um pioneirismo na região -- desta vez, em função de seus avanços no uso de energia limpa.
O país vem chamando a atenção na conferência de clima em Paris, a COP-21, pelo progresso na mudança de sua matriz energética, com consequente redução as emissões de carbono.
Hoje, 94,5% da eletricidade do país e 55% da energia total consumida vêm de fontes renováveis - a média global de energia proveniente de fontes limpas é de 12%. Foi uma transformação forjada nos últimos anos. O país, que já foi dependente de gás importado da Argentina, é agora autosuficiente em energia e chega a exportar parte de sua produção. No verão passado, um terço da eletrecidade produzida no Uruguai foi exportada para os argentinos. Mais ainda: a mudança na matriz energética uruguaia aconteceu sem que o custo do quilowatt hora (kWh) aumentasse. Na verdade, considerando a inflação, hoje, a energia no Uruguai é mais barata que anos atrás.
Essa conquista vem dando visibilidade ao Uruguai em um momento em que o mundo tenta chegar a um acordo para a redução das emissões de carbono. “As delegações de Paris podem aprender muito com o sucesso uruguaio”, destacou o jornal inglês The Guardian. Segundo a reportagem, enquanto governantes se reúnem em Paris, com a difícil tarefa de chegar a possibilidades para substituir combustíveis fósseis por energia proveniente de fontes renováveis, “um pequeno país do outro lado do Atlântico vem mostrando que fazer essa transição é possível  e pode ser tão simples como coisa de criança.”
Um país liberal
O jornal também destaca que, apesar da população relativamente pequena – são 3,4 milhões de habitantes - o Uruguai vem ganhando uma “notável quantidade de elogios” nos últimos anos em função de suas políticas que o tornam um dos países mais liberais da América do Sul – em relação ao aborto, à homossexualidade e à maconha. Agora, diz o jornal, o Uruguai está sendo reconhecido por seu progresso em descarbonizar sua economia. 

Metas ambiciosas
As políticas uruguaias para transformar sua matriz enérgética em uma matriz mais limpa já receberam elogios do Banco Mundial, da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe, e no último ano, a WWF colocou o Uruguai entre os seus líderes em "energia verde". "O país está no caminho de definir as tendências mundiais em investimentos para energia renovável", definiu a WWF na ocasião.
Para fortalecer a posição de destaque no uso de energias renováveis, o Uruguai apresentou uma das metas mais ambiciosas na convenção da ONU. O compromisso é reduzir em 88% as emissões de carbono até 2017, na compração com a média emitida no período de 2009 a 2013.
As ações para a renovação da matriz energética uruguaia começaram a ser desenhadas em 2008 durante o governo de Tabaré Vázquez (da Frente Ampla, a coligação de partidos de esquerdas que comanda o Uruguai desde 2005 – Vázquez agora é novamente presidente do país). Foi uma decisão estratégica do Uruguai como parte de uma política que buscava sustentar o crescimento do país no período, ao mesmo em que tentava reduzir os índices de pobreza. “O Uruguai não tem petróleo, nem gás, e praticamente esgotou seu potencial hidrelétrico”, disse na ocasião Ramón Mendez, então diretor nacional de energia e um dos arquitetos do plano. “Mas o país está crescendo e deseja reduzir sua pobreza.” O país daquele momento era altamente dependente do gás argentino e de petróleo, que isoladamente chegou a representar mais de 27% das importações do Uruguai. Agora, o principal item de importação são turbinas eólicas.
Energia eólica Turbina de vento (Foto: Getty Images)
Ao The Guardian, Mendez ressaltou que “não há milagres tecnológicos” nesse tipo de transformação. Para ele, o sucesso do projeto, deu-se em função do ambiente regulatório no país e uma forte parceria entre o setor público e privado. O Uruguai, ele disse, tem uma democracia estável, honra seus compromissos externos e tem empresas públicas fortes, que podem ser parceiras confiáveis nos projetos. “Nós aprendemos que energia renovável é apenas um negócio”, disse Mendez. “A construção e manutenção (das usinas) têm custo baixo. Portanto, se você dá aos investidores um ambiente seguro, o negócio se torna muito atraente.”
Para forjar o novo cenário, foram investidos em cinco anos US$ 7 bilhões (R$ 26,3 bilhões), ou 15% do PIB anual do país – isso é cinco vezes mais que a média da América Latina para investimentos em fontes renováveis de energia e três vezes mais que o mínimo recomendado por especialistas sobre mudança climática. 
Como resultado, hoje, além de uma planta considerável para a geração de energia eólica, o país também tem usinas para geração de energia solar e a partir de biomassa. Somada à energia gerada por hidrelétricas, chega-se ao total de 94,5% de eletrecidade consumida no país vinda de fontes limpas – sendo 55% da energia total. A média global de geração de energia proveniente de fontes limpas é de 12%.

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