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sexta-feira, 19 de março de 2021

O grito do cacique Babau Tupinambá

Pensava no que abordar para o meu segundo artigo desta Coluna, sempre em mente questões relacionadas à linha de investigação escolhida no programa de Doutorado – globalização neoliberal — tema com muito a se pesquisar, sobretudo pelas consequências nefastas desse fenômeno com a disseminação de um modelo político ideológico de Estado-mercado que vem ceifando vidas e destruindo países.

Pensava no que abordar para o meu segundo artigo desta Coluna, sempre em mente questões relacionadas à linha de investigação escolhida no programa de Doutorado – globalização neoliberal — tema com muito a se pesquisar, sobretudo pelas consequências nefastas desse fenômeno com a disseminação de um modelo político ideológico de Estado-mercado que vem ceifando vidas e destruindo países. 

 

Pensava em como avançar nesse tema para que pudesse, cada vez mais, desnudar esse fenômeno e mostrar sua perversidade e a partir dele trazer alguns aportes que tornassem possível desenhar um novo contrato social, um contrato social planetário, forjado na solidariedade.

 

Enquanto construía minhas ideias fui  impactada pela leitura de artigos desta Coluna que me levaram a seguir outro curso. Senti um enorme desejo de também denunciar a gravidade das escolhas de uma Corte de justiça que tinha por dever de ofício respeitar cláusulas civilizatórias da Carta Constitucional dizendo não ao retrocesso social. Decidi, então, juntar-me às vozes desses maravilhosos articulistas desta Coluna para fazer ecoar o grito de indignação, tal qual o grito do Cacique Babau Tupinambá – liderança indígena conhecida pela luta incansável em defesa dos Tupinambás de Olivença, pelos violentos conflitos fundiários sofridos por sua gente.

 

 O Cacique Babau foi um dos painelistas do Encontro Nacional da Associação Juizes para a Democracia, ocorrido na Bahia entre os dias 6 e 7 de março de 2015, onde se reuniram operadores do direito para dialogar com os que heroicamente lutaram contra a ditadura civil-militar pós 1964; com aqueles que cotidianamente lutam pela igualdade racial e contra a violência do Estado pela terra. Somavam-se ao Cacique outras lideranças dos movimentos sociais (MST e quilombolas). 

 

Enquanto ouvíamos as falas dos representantes dos movimentos sociais – relatos das  lutas e resistências, dos atos de violência praticados pelas polícias, do grande número de negros mortos pelas polícias como forma de encerrar uma investigação inconclusiva, da injustiça promovida pelo Estado brasileiro contra essa gente; de repente o Cacique Babau, transfigurado, soltou um grito de guerra – que representava a indignação travada no peito de quem sofre a injustiça social e a opressão, a repressão violenta da polícia e das políticas de um mundo que se autodefine civilizado. 

 

A leitura do texto de Grijalbo Coutinho, Extermínio de direitos do trabalho sem combinar com “russos”, fez ecoar em meus ouvidos aquele grito de guerra do Cacique Baubau. Grijalbo faz uma denúncia contundente de o quanto a fúria neoliberal de destruição do marco regulatório das relações de trabalho no Brasil tem sido chancelada pelo judiciário brasileiro. Relaciona as inúmeras decisões do Supremo Tribunal Federal, entre 2011-2020, em total menoscabo às cláusulas civilizatórias abraçadas pela Carta Constitucional de 1988.

 

Constatar a destruição dos direitos dos trabalhadores, chancelada pelo STF, provocou, em mim, a indignação que levou o Cacique àquele grito. Passei a lembrar das aulas ministradas pelos saudosos professores da Faculdade de Direito do Recife, nos ensinando os fundamentos de todo um conceito de Justiça, visto de uma perspectiva jurídico–filosófica. A conceituação filosófica da Justiça participava do espírito da frase referida ao poder judiciário, que a história dos Estados Unidos atribui a Thomas Jefferson: “Jurei, perante o altar de Deus, eterna hostilidade a toda forma de tirania sobre o espírito do homem.”  

 

Como entender um Judiciário a serviço do rei e contrário ao povo!

 

Em O Direito do Trabalho, o Supremo e a Morte, Tadeu Alkmin inspirado em Lev Tolstoi (A Morte de Ivan Ilitch), denuncia a derruição do pensamento crítico. Não há contraponto. A hegemonia político-cultural capitalista tem dado curso a esse modelo de juízes de suposta neutralidade, como na narrativa: “momentos finais de um juiz cumpridor dos seus deveres que vestiu ao longo da vida o manto da (suposta) neutralidade, aplicando ao pé da letra o Código Russo de 1864 […]. Sem riscos, nem inovações. Empolgavam-lhe os louros…”  

 

Em retrocesso interpretativo a Suprema Corte mostrou-se indiferente ao pacto social, advindo do processo constituinte de 1988, escolhendo por sacrificar um projeto civilizatório que teve como pilar ético e principiológico a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Negou, assim, o princípio da dignidade humana que norteia o Estado Democrático de Direito, manifesta no Preâmbulo da Constituição Federal de 1988, optando pela subalternidade às diretivas do Consenso de Washington.

 

Nem mesmo a peculiar teoria política absolutista de Filmer delineada em seu Patriarca, e o Leviatã de Hobbes, protótipo legitimador do autoritarismo e da ditadura, foram capazes de parar o impulso irreprimível dos novos ventos políticos vividos no século XVII que desencadeou o poder teórico do constitucionalismo inglês. 

 

Em verdade, a Suprema Corte se colocou como um longa manus da vontade do poder de plantão, na melhor caracterização do juiz Eichmann definido por Zéu Palmeira (O Juiz Eichmann: a burocracia judiciária como armadilha de classe), “o protótipo da autoridade que respalda o poder de plantão e valoriza a hiperdisciplina judiciária, tornando a “lei ordinária” um fetiche a ser servilmente louvado e observado.”  O juiz Eichmann de Zéu não se importa se há justiça no texto legal, é indiferente ao mal ou ao bem. Mesmo diante do claro retrocesso social promovido pela chamada “Reforma Trabalhista” a Suprema Corte brasileira manteve-se inerte, tal como o coelho fascinado pela serpente, nada fez para evitar o perigo que ameaça todo um projeto de Nação. 

 

Obriga-nos a perguntar: a quem servem os juízes se, em qualquer democracia, devem ser servidores de quem lhes delega o poder? Quem é o soberano, o rei ou nós mesmos – o povo? 

 

Enquanto não estivermos cientes de que as constituições são obra política do povo, não comparáveis ​​às Tábuas da Lei de Moisés, nem assimiláveis ​​ao dogma da Santíssima Trindade, teremos decisões que estão mais próximas do espírito de Filmer e Hobbes do que da verdadeira democracia. 

 

Muito embora a razão nos diga que deverímos estremecer de horror ante tais perspectivas, está havendo algo de estranho como se todos caminhássemos ao encontro do desastre.

 

Recentemente o Tribunal Superior do Trabalho – TST, em julgamento de dissídio coletivo instaurado pela  Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (DCG-662-58.2019) permitiu que um capitalismo de rapina destruísse cláusulas históricas da negociação coletiva entre as categorias profissionais e econômicas e pior, em prejuízo ao trabalhador.

 

Ao que parece estamos vivendo uma época dominada pelo sentimento de perplexidade impotente, como expressou Bertrand Russell (A última oportunidade do homem).  

 

A ofensiva neoliberal no Brasil fundou um bloco histórico capitalista com alterações, não só na base econômica também na superestrutura político-ideológica, a partir do recurso às instituições ditatoriais e hegemônicas do Estado burguês. O projeto neoliberal representou a derrota do movimento operário brasileiro. Percebe-se que o direito, tal como concebido no pensamento moderno, perdeu sua essência enquanto instrumento de emancipação social e infelizmente o judiciário tem caminhado para uma interpretação puramente econômica do Direito.

 

No dissídio coletivo referido a douta maioria condutora do voto vencedor em relação a cláusula 28ª, contra os votos dos Ministros Maurício Delgado e Kátia Magalhães, violou o princípio da proibição do retrocesso social previsto no caput do artigo 7º da Constituição Federal de 1988, postulado esse já referendado pelo STF na ADI 1.946/99-DF   sobre o salário maternidade e que teve como relator o Ministro Sidney Sanches. 

 

Os ministros vencidos pretendiam criar alternativos compensatórios ante a revogação de disposições normativas convencionadas anteriormente, ou seja, cláusulas históricas. Mas a douta maioria acompanhou o voto divergente adotando uma posição não condizente com os avanços obtidos pelo processo civilizatório construído nas batalhas sindicais, consolidados na Constituição Federal de 1988. Abandonaram uma classe de trabalhadores, existente há mais de 360 anos, que luta por seus direitos ao tempo em que algumas categorias sequer existiam, como enfatizou a Ministra Kátia. Outro aspecto enfatizado pela Ministra foi o momento vivenciado: “o momento social que vivenciamos – um momento de pandemia, com poucos precedentes na história. Um momento que gera incerteza, insegurança, gera medo em todos nós e que deveria aguçar os sentimentos de solidariedade e não de arrogância.”

 

Nada disso foi importante para os que acompanharam o voto divergente. Ao contrário, consagraram a redução do conteúdo do direito ao trabalho, afirmando-o unicamente com base na teoria das necessidades, o que esvazia da noção de trabalho o seu sentido emancipador, de transformação do real, no curso do qual se dá a descoberta e o desenvolvimento das potencialidades humanas. 

 

Para quem milita na Justiça do Trabalho há mais de 26 anos é impossível não se indignar em assistir a desconstrução dos direitos sociais, e presenciar a desolação do trabalhador brasileiro, cada dia mais vulnerável, abandonado à própria sorte, minado em sua força pela destruição dos sindicatos, um total enfraquecimento dos movimentos dos trabalhadores não só pelo modelo de Estado neoliberal, forjado na autonomia da vontade, sobretudo pelo descompromisso civilizatório do próprio judiciário brasileiro.

 

Por tudo isso, quero ecoar o grito do Cacique Babau contra as formas sociais determinadas na formação vigente, contra o economicismo que instrumentaliza as relações sociais; à mercantilização generalizada e aos ditames da política que subordina os direitos sociais à mera circulação no acesso aos mecanismos de poder. 

 

Grito contra o (dis)funcionamento social que a fragmentação e redução do significado do trabalho têm provocado em milhões de vidas. 

 

Grito contra a ilusão da criação de empregos através do mecanismo da flexibilização, instrumentalizada pela terceirização politicamente estimulada, que só trouxe o aumento da desigualdade. 

 

Grito com o mesmo sentimento dos deuses dos Tupinambás que fez eclodir aquele grito do Cacique Babau. 

Fonte: Justificando

quinta-feira, 18 de março de 2021

Morre o senador Major Olímpio vítima de Covid-19

Ex-aliado de Bolsonaro, Major Olímpio havia se tornado um dos principais críticos do atual governo no Senado. Família avalia possibilidade de doação dos órgãos




O senador 
Major Olímpio (PSL-SP) teve morte cerebral confirmada nesta quinta-feira (18) em decorrência da covid-19. Ele estava internado desde o início do mês no Hospital São Camilo em São Paulo e teve de ser intubado por dificuldade na respiração. Pelo menos quatro funcionários de seu gabinete também testaram positivo para covid-19. Um de seus assessores permanece em estado grave.

Major Olímpio era policial militar, tinha 58 anos e foi deputado estadual por São Paulo, sendo que em seu segundo mandato foi líder da bancada do PDT na Assembleia Legislativa do estado. Em 2014 elegeu-se deputado federal e em 2018 chegou ao Senado.

Em 2019 foi eleito melhor senador do ano pela votação popular no Prêmio Congresso em Foco. Também foi apontado pela internet como o parlamentar que mais se destacou na defesa do meio ambiente no Congresso. Por isso, recebeu o troféu do público na categoria especial “Clima e Sustentabilidade”.

Major Olímpio foi a favor do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Durante o governo Temer, votou contra a PEC do Teto dos Gastos Públicos. Em 2017, foi contrário à reforma trabalhista e votou a favor do processo de abertura de investigação de Michel Temer. 

Ex-aliado de Jair Bolsonaro, Major Olímpio havia se tornado um dos principais críticos do atual governo no Senado Federal.

terça-feira, 16 de março de 2021

Mulheres denunciam líder evangélico por abuso sexual: “Transgrida aqui comigo. Sou seu pastor e psicólogo”

No Recife, onze vítimas rompem o silêncio e prestam queixa contra pastor psicólogo, que chegou a ser indiciado, mas morreu após ser internado com coronavírus

“Não se preocupe, tudo faz parte da técnica.” Assim o pastor evangélico Francisco Dias da Silva Filho, ex-líder da Igreja Batista em Campo Grande, no Recife, assediou, estuprou e violentou mulheres dentro do gabinete pastoral da igreja, de acordo com onze vítimas que o denunciaram. Mestre em psicologia pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Silva Filho recebia as fiéis dizendo que pretendia aconselhá-las. O que ocorria, no entanto, não ficava somente nas orientações.

“Não se preocupe, tudo faz parte da técnica.” Assim o pastor evangélico Francisco Dias da Silva Filho, ex-líder da Igreja Batista em Campo Grande, no Recife, assediou, estuprou e violentou mulheres dentro do gabinete pastoral da igreja, de acordo com onze vítimas que o denunciaram. Mestre em psicologia pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Silva Filho recebia as fiéis dizendo que pretendia aconselhá-las. O que ocorria, no entanto, não ficava somente nas orientações. Por anos, Silva Filho abusou de mulheres, de acordo com inquérito da Polícia Civil, que começou a investigar o caso depois que as vítimas decidiram romper o silêncio e prestaram queixa contra o líder evangélico. Silva Filho chegou a ser indiciado pela Polícia Civil por assédio sexual, estupro, violação sexual mediante fraude, injúria racial, difamação e violação de segredo profissional, mas morreu no último dia 7 na capital pernambucana, após ser internado com coronavírus.

A morte do pastor encerrou o caso no âmbito jurídico, mas a delegada responsável pelo caso, Bruna Falcão, ressalta a importância do eco dessas vozes. “Francisco não era o único. Existe uma conduta nos meios cristãos e evangélicos de colocar panos quentes, não só em questões relacionadas à violência sexual, mas também à violência doméstica”, afirma. “Esse movimento de mulheres que procuram a polícia para denunciar abusos e violências na igreja não pode parar nunca, para que outras vítimas se reconheçam nessas historias e também busquem ajuda.” A denúncia contra Silva Filho veio à tona depois que essas mulheres se reconheceram nos relatos umas das outras.

“Confidenciei a ele que eu apresentava um transtorno alimentar e ele propôs que tivéssemos conversas sempre que pudéssemos, porque ele era psicólogo”, conta Luciana ―os nomes foram trocados para preservar a identidade das mulheres. Mas aos poucos os encontros se tornaram insustentáveis para ela. “Ele me fez enviar fotos de partes do meu corpo, porque dizia que eu tinha transtorno de autoimagem. Depois, pediu para eu mandar um vídeo me tocando. Foi tudo muito aos poucos”, conta. “Um dia, me pediu para que eu fosse até a sala dele e ficasse só de calcinha e sutiã para que eu pudesse me enxergar e aí ele me tocou”, ela conta. “Ele me disse ‘transgrida aqui comigo, sou seu pastor e sou seu psicólogo’”.

Luciana ainda chegou a encontrar o pastor em seu gabinete algumas vezes, em busca da cura para o transtorno alimentar do qual sofre e que na época nem mesmo sua família tinha conhecimento. Até o dia em que foi, de acordo com ela, estuprada por Silva Filho. Ele me disse ‘se você fizer isso comigo, você vai ficar boa’, e começou a me beijar”, conta ela. No final, a vítima conta que o pastor ainda a fez prometer que “nunca mais faria sexo com alguém que não fosse meu marido”. Ela só entendeu que havia sido estuprada quando, anos mais tarde, buscou ajuda de uma psicóloga. “Ela me disse que o que eu vivi não havia sido nem de longe uma terapia. Foi abuso”, conta. “Meu mundo caiu. Eu considerava ele como um pai para mim. Ele fez meu casamento, apresentou minhas duas filhas [como é chamado o batismo na igreja evangélica], foi no chá de revelação da minha filha... O que eu ia fazer com aquela informação? Como eu ia contar ao meu esposo?”.

A história de Luciana foi o fio condutor para que outras mulheres entendessem que também foram vítimas do pastor. Depois que ela conseguiu contar ao marido o que havia ocorrido, a família deixou todos os grupos da igreja. Kátia, outra vítima, conta que foi nesse momento que ela percebeu que também havia sofrido abuso. “Quando o marido de Luciana passa a mensagem para o grupo dizendo que eles estavam saindo dos grupos da igreja, e meu marido compartilha comigo, a ficha cai”, ela diz.

A sessão terapêutica de Kátia foi realizada com a promessa de curá-la do abuso que ela sofreu na infância pelo avô. Com a mesma abordagem, ela conta que Silva Filho chegou a pedir para que ela segurasse seu pênis como parte do tratamento. “Ele mostrou o pênis e disse ‘eu sou seu psicólogo. Marca no relógio 45 minutos como se fosse uma sessão de terapia’”, conta. “Eu saí atordoada, pedindo desculpas. Depois disso, ele começou a me tratar como se eu fosse a melhor amiga dele. E aí você acaba não sabendo o que de fato aconteceu.”

A delegada Bruna Falcão afirma que o modus operandi da abordagem do pastor foi importante para que ele fosse indiciado. “A gente não tinha prova material pericial de fato, até porque elas levaram muito tempo para se reconhecerem vítimas. Mas ficou claro que existia uma identidade de comportamento dele e não uma unicidade de discurso delas”, afirma. “Francisco se valia da confiança que elas depositavam nele como pastor. Muitas se culparam por muito tempo, acreditando que ele não seria capaz de fazer nada errado”, diz a delegada. “Elas só começaram a entender o que tinha se passado quando se reconheceram nas histórias uma das nas outras e perceberam que as técnicas eram muito parecidas”. As denúncias, de acordo com a delegada, ocorreram entre o final de 2019 e o início deste ano. Ao todo, onze mulheres prestaram depoimento e relataram casos ocorridos entre 1996 e 2019. Alguns desses casos já estavam prescritos.

“Perdi meu bebê”

A promotora de Justiça do Ministério Público de Pernambuco, Henriqueta de Belli, afirma que as vítimas do pastor Francisco não se limitaram às mulheres que frequentavam sua igreja. De acordo com ela, o pastor recebia fiéis de outras instituições, encaminhadas por suas lideranças, para serem “tratadas” por ele. “Havia uma rede”, diz. “Todo líder batista das igrejas de bairro de periferia do Recife recorria a esse pastor para resolver demandas com mulheres deprimidas ou com problemas pessoais”, afirma ela. “As estruturas das igrejas hoje no Recife se aproveitavam da figura dele como sendo um cara intermediador de conflitos. Eu tenho esse entendimento a partir das escutas que eu fiz na promotoria de Olinda, embora eu não seja promotora do caso”.

Duas das mulheres que denunciaram o pastor evangélico por abuso sexual: técnica utilizada para abordar as vítimas era muito parecida, diz delegada. BRENDA ALCÂNTARA
Juliana foi uma dessas mulheres encaminhadas ao pastor Francisco. Há três anos, ela engravidou de um homem que fazia parte do ministério de sua igreja, que fica em Olinda. Sabendo da gravidez, o líder da instituição que ela frequentava a encaminhou para Francisco. “Meu pastor foi até a minha casa e disse que eu estava louca de levar adiante a gravidez e que eu precisava de ajuda”, conta. “Na mesma hora ele ligou para o pastor Francisco e marcou um horário para que eu fosse lá.”

Juliana narra com muita dificuldade, mas com riqueza de detalhes, o dia em que foi até o gabinete pastoral, em setembro de 2017, e sofreu um estupro seguido de golpes violentos em seu ventre. “Com o órgão genital dele para fora da calça, ele dizia ‘não se preocupe, tudo faz parte da técnica’. Eu chorava muito, mas, mesmo nervosa, chorando, ele me deixava muito à vontade, porque a todo momento ele dizia que estava ali para me ajudar e me curar”. Após ser estuprada e violentada, J. saiu do gabinete pastoral com um pedido de ultrassom e um encaminhamento a um psiquiatra amigo do pastor. “No dia seguinte acordei com muita dor e sangrando”, conta. “Quando fui fazer o ultrassom, já havia perdido meu bebê.”

Em comum, além do relato da técnica utilizada, essas mulheres também encontram a dificuldade em assimilar o ocorrido. “Até o início deste ano, eu ainda achava que ele era homem de Deus e tinha feito um procedimento de cura comigo”, conta Juliana. Ela só entendeu o que havia ocorrido quando um amigo em comum relatou o que Luciana havia passado. “Foi só ali, ouvindo a história de Luciana, que eu entendi o que havia acontecido comigo”, diz Juliana. Seu depoimento foi coletado na semana passada. “Até agora eu achava que tinha perdido meu bebê por um plano de Deus, porque foi Deus que quis”, conta ela.

O Coletivo Vozes Marias, formado por mulheres evangélicas e feministas pela igualdade de gênero, denuncia que a institucionalidade das igrejas perpetua as violências cometidas contra as mulheres e protege os agressores. “Existe um modo de praticar a violência que, mesmo quando vem à tona, as mulheres são enquadradas como adúlteras, e eles dizem que foram seduzidos por elas”, afirma Bárbara Aguiar, articuladora e mobilizadora coletivo, que se propõe a levar a discussão de gênero para dentro das igrejas.

A conselheira de Direitos Humanos Sylvia Siqueira ajudou o grupo a quebrar o silêncio e prestar depoimento na delegacia. Ela afirma que mesmo após a morte do pastor, essas mulheres continuarão pedindo justiça, por meio de apoio psicológico e também pela responsabilização da igreja. “Lamento que Francisco Dias tenha falecido, pois os crimes que ele cometeu estão vivos nos corpos e nas mentes de mulheres que se contorcem de dor, uma dor na alma, ao lembrar do que viveram”, diz. “Por isso continuaremos exigindo justiça e isso vai além da condenação judicial”.

A Igreja Batista em Campo Grande foi procurada e afirmou, por meio de nota, que Francisco Dias da Silva Filho deixou a função de presidente da instituição em dezembro de 2019. “A igreja se colocou à disposição das autoridades competentes, com fins de colaborar com a apuração dos fatos”, afirma a nota. “No tocante às mulheres que apresentaram queixa contra o ex-pastor, a Igreja fez um trabalho de acolhimento oferecendo suporte psicológico e espiritual.” Todas as vítimas entrevistadas pela reportagem afirmaram que deixaram de frequentar a igreja. Algumas têm acompanhamento psicológico pago pela instituição.

A reportagem tentou contato com a família de Silva Filho, por meio de uma sobrinha, que não quis comentar o caso.

Fonte: El País

quinta-feira, 11 de março de 2021

Lula, Ciro e Mandetta bateriam Bolsonaro no segundo turno em 2022, mostra pesquisa Atlas

Levantamento fechado nesta quarta-feira marcada pela volta do petista ao palanque mostra resiliência da aprovação do presidente ultradireitista (34% apoiam) e melhora da imagem do ex-ministro da Saúde

Se as eleições presidenciais fossem nesta semana, Jair Bolsonaro estaria em maus lençóis no segundo turno. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e os ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Luiz Henrique Mandetta (DEM) venceriam o ultradireitista com ao menos seis pontos percentuais de diferença na disputa final eleitoral, mostra a pesquisa da consultoria Atlas. O levantamento da empresa, encerrado nesta quarta-feira, quando Lula fez, sem explicitá-lo, seu discurso de lançamento extraoficial de sua candidatura a 2022, mostra que o petista melhorou sua imagem e que Bolsonaro é afetado pela crescente rejeição à sua figura e ao Governo no auge da pandemia no país.

Se as eleições presidenciais fossem nesta semana, Jair Bolsonaro estaria em maus lençóis no segundo turno. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e os ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Luiz Henrique Mandetta (DEM) venceriam o ultradireitista com ao menos seis pontos percentuais de diferença na disputa final eleitoral, mostra a pesquisa da consultoria Atlas. O levantamento da empresa, encerrado nesta quarta-feira, quando Lula fez, sem explicitá-lo, seu discurso de lançamento extraoficial de sua candidatura a 2022, mostra que o petista melhorou sua imagem e que Bolsonaro é afetado pela crescente rejeição à sua figura e ao Governo no auge da pandemia no país.

De acordo com a pesquisa Atlas, numa simulação de primeiro turno das presidenciais, Bolsonaro aparece com 32,7% das intenções de voto, contra 27,4% de Lula, formando o primeiro pelotão isolado ―o presidente oscilou para baixo e Lula subiu cinco pontos em relação à pesquisa de janeiro. Na sequência aparecem o ex-ministro Sergio Moro (9,7%), Ciro Gomes (7,5%), Luiz Henrique Mandetta (4,3%), o governador paulista João Doria (4,3%) e o apresentador Luciano Huck (2,5%). No cenário sem Lula, o ex-prefeito Fernando Haddad aparece em segundo lugar, com 15,4% (veja os quadros completos nesta reportagem).


Já no segundo turno mais provável pelos números atuais, Lula aparece com 44,9% contra 36,9% de Bolsonaro, 8 pontos de diferença ―a disputa com Haddad seria mais apertada (43% a 39,4%), mas o petista também ganharia. Na simulação de segundo turno com Ciro, o pedetista também bate Bolsonaro (44,7% contra 37,5%). O levantamento mostra uma boa performance de Mandetta em uma eventual disputa final, apesar dos números modestos do democrata no primeiro turno. O ex-ministro da Saúde bateria o antigo chefe por 46,6% contra 36,9%. Já o tucano Doria aparece em rigoroso em empate com o presidente no levantamento, que tem margem de erro de dois pontos percentuais.

"É o ponto de maior pessimismo com a evolução da covid-19 no Brasil desde que começou a pandemia e Bolsonaro sofre os reflexos”, afirma Andrei Roman, CEO da Atlas. “Com tantos candidatos vencendo Bolsonaro no segundo turno, diria que nunca foi mais provável do que neste momento que o presidente perdesse em 2022. Mas a vida dá voltas. O Brasil pode sair da pandemia neste ano. Em 2022, o Governo pode fazer assistência social e Bolsonaro ainda pode se recuperar”, pondera o cientista político.

Roman vê no favoritismo de Lula no momento menos a melhora de sua popularidade e mais um reflexo “da rejeição maior e muito mais intensa a Bolsonaro”. A pesquisa Atlas foi feita entre os dias 8 e 10 de março e captou apenas o começo do impacto do discurso de Lula nesta quarta-feira, quando ele se apresentou como antítese do presidente e criticou o Governo ponto a ponto, da gestão da pandemia à economia, com ampla repercussão midiática. “É imprevisível como isso vai evoluir”, segue ele, que pontua que uma maioria justa (50,1%) diz apoiar a prisão de Lula.

Já os bons números de Mandetta são, na visão do CEO do Atlas, um reflexo da piora da avaliação de Bolsonaro como gestor da pandemia. “Na minha leitura, a intenção de voto de Mandetta é turbinada por uma pequena parcela que em janeiro ainda estava com o Bolsonaro e agora está migrando para um outro candidato, sendo que o destino mais natural deles é um candidato que faz crítica ao PT e tem um posicionamento um pouco menos antagônico em relação ao presidente”, explica.

Rejeição, Moro e Doria

O levantamento também mediu a imagem do presidente Bolsonaro e de seu Governo, além da percepção pública de vários líderes políticos e personalidades. Na pesquisa, 60% da população desaprova o atual ocupante do Planalto, contra 34,8% que o apoiam. Trata-se de uma queda de três pontos percentuais na aprovação em relação à pesquisa anterior, em 21 de janeiro. Apesar da redução, o patamar de apoio segue alto, puxado pelos homens (40% o aprovam), os evangélicos (53% o apoiam) e as regiões Norte e Centro-Oeste (41% e 42%, respectivamente, o apoiam), com índices de aprovação acima da média nacional.
Segundo o Atlas, é Luiz Henrique Mandetta é o político com a imagem mais positiva entre os líderes medidos pela pesquisa (40%), seguido por Bolsonaro, que tem 36% de imagem positiva, contra 60% de negativa. Lula, por sua vez, aparece com os mesmos 36% de índice positivo do presidente, alta de três pontos em relação a janeiro, provavelmente o começo do reflexo de sua reabilitação política. Seu nêmesis, o ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro de Bolsonaro Sergio Moro, aparece com recorde de rejeição (63%), a maior desde que o Atlas começou a medir.
Já o governador tucano João Doria estabilizou sua imagem positiva (25%), mas ainda tem uma rejeição muito alta (60%). “Doria ainda enfrenta tensões internas no partido, com os acenos de Eduardo Leite como candidato”, lembra Andrei Roman, citando o governador do Rio Grande do Sul, que disputa com o homólogo paulista espaço no PSDB. Para o CEO do Atlas, Leite pode ser um fator surpresa nos próximos meses. “Não medimos o Leite e ele pode constituir o principal fator surpresa pela frente. Leite tem a vantagem de ser desconhecido para a maioria do público nacional, então poderia chegar como uma espécie de salvador se nenhum outro candidato de centro decolar. Ele é jovem, tem um discurso moderado, não surfou na onda bolsonarista e tem uma boa aprovação como governador.”

A pesquisa Atlas foi realizada com 3.721 entrevistas feitas por questionários aleatórios via internet. As respostas são calibradas por um algoritmo de acordo com as características da população brasileira.

Errata: Uma primeira versão desta reportagem mencionava que a diferença entre Lula, Ciro e Mandetta e Bolsonaro em uma eventual disputa de segundo turno era de ao menos 16 pontos. O dado correto é uma diferença de ao menos 6 pontos. A informação foi corrigida.

Fonte: El País

quarta-feira, 10 de março de 2021

Morador de rua é queimado enquanto dormia na Praça da Estação

Um senhor em situação de rua foi vítima de um grave e covarde atentado no fim da madrugada desta terça-feira (9), na Praça da Estação, região Central de Belo Horizonte. Dois homens ainda não identificados jogaram gasolina sobre ele e atearam fogo, segundo o flagrante de testemunhas. O homem, que estava dormindo, sofreu queimaduras severas e teve o socorro ignorado por quem passava pelo local – mesmo com algumas partes do corpo em carne viva.

Um senhor em situação de rua foi vítima de um grave e covarde atentado no fim da madrugada desta terça-feira (9), na Praça da Estação, região Central de Belo Horizonte. Dois homens ainda não identificados jogaram gasolina sobre ele e atearam fogo, segundo o flagrante de testemunhas. O homem, que estava dormindo, sofreu queimaduras severas e teve o socorro ignorado por quem passava pelo local – mesmo com algumas partes do corpo em carne viva.

Quem amenizou a agonia da vítima foi Anne Menezes, que saiu do metrô na Estação Central por volta das 8h – portanto, mais de 2h após o atentado. “Ninguém socorreu ele, ele estava queimado desde o final da madrugada. É muito triste ver que tem pessoas que fazem isso e pessoas que ignoram completamente a situação. Na Praça das Estação, o metrô abre às 5 horas da manhã, passando gente praticamente em cima dele desde antes dele pegar fogo”, relata ao BHAZ.

Um dos moradores em situação de rua que estava ajudando a vítima contou à mulher que ninguém atendeu aos pedidos de ajuda. “Ele [o senhor] tremia de dor, se arrastava de dor no chão e ninguém fazia nada. E o morador de rua falando assim para mim: ‘Eu não consigo chamar o Samu, eu não tenho telefone’. Eu disse para ele que chamaria, depois da ligação, perguntei: ‘Por que vocês não ligaram antes?’ Foi quando ele me respondeu: ‘A gente pediu ajuda, ninguém quis ajudar'”, revela.

O crime

O crime aconteceu no final da madrugada. De acordo com o relato dos moradores de rua à mulher, um carro parou no local entre 5h30 e 6h. “Pelo o que eles falaram, o carro parou… Na hora que o carro parou, eles viram, e aí uns homens foram andando… No que foram andando, jogaram a gasolina e jogaram fogo muito rápido”, conta Anne. “Eles falaram: ‘Passou uns playboy doidão aí e jogaram fogo nele, não deu tempo da gente acudir'”.

Os responsáveis, sempre conforme testemunhas, fugiram do local depois de atacarem o senhor em situação de rua. “Saíram e arrancaram o carro”, completa a mulher. Depois do crime, o corpo dele ficou em carne viva. “Ele estava com a pele muito visível na carne viva, estava destampado porque o cobertor dele também pegou fogo. Então ele estava com metade do cobertor, com as pernas todas queimadas e um dos pés praticamente atrofiou”, diz.

Invisibilidade

A tragédia não acabou por aí. O homem foi negligenciado novamente – desta vez, por todos que passaram pela estação. “Ele estava na Caetés no meio da rua, no meio da calçada, estava jogado entre o meio fio e a calçada, tremendo. E ninguém falava nada, como se fosse normal um homem sentir dor daquela forma, acha que porque é morador de rua, não merece atenção, não sente dor”, desabafa Anne.

“Nesse horário, o fluxo já é muito grande, gente chegando para trabalhar no Centro o tempo inteiro. Ele ficou de 2 a 3 horas agonizando e ninguém fazendo nada, as pessoas passando de um lado pro outro”, diz. “Com certeza já tinha gente quando jogaram fogo nele, com certeza alguém viu alguma coisa, é uma sucessão de ignorar o ser humano muito longa. Ele tá ali, é invisível, a parte invisível da nossa cidade, é muito doido isso, ter seres humanos que para a maioria das pessoas não são considerados humanos. Ele e um poste dá na mesma”, desaba.

Quando chamou o Samu, a mulher precisou ser acalmada pelos profissionais do outro lado do telefone. “Eu liguei pro Samu, eles me acalmaram, porque eu estava chorando muito. Uma moradora de rua me agradeceu pela ajuda. Eu falei: ‘Não tem como não ajudar, é um ser humano’. Mas ela me respondeu: ‘As pessoas não veem a gente como um ser humano, igual você está vendo'”, conta, comovida.

Uma situação de 20 minutos na manhã de Anne fez com que ela parasse para refletir. “Estamos em uma onda de ignorar a Covid, ignorar o fechamento, essa individualidade reflete muito do que a gente está vivendo no todo. Essas pessoas não existem só no Natal, para levar comida uma vez por mês, tirar foto e postar no Instagram”, finaliza.

Mais invisibilidade?

Ao BHAZ, o Samu confirmou que foi acionado hoje na manhã desta terça-feira (9) para atendimento de um homem com cerca de 50 anos que apresentava queimaduras. Apesar da reportagem perguntar detalhes sobre o atendimento, a assessoria se limitou a dizer, por nota (leia a íntegra abaixo), que a vítima foi encaminhada à UPA Centro-Sul.

Já a Polícia Civil, quando questionada pela reportagem sobre as investigações, informou que ainda não houve registro do caso. A reportagem tentou contatar a Polícia Militar (PM), na tarde de hoje, mas não conseguiu obter uma resposta. O Corpo de Bombeiros também informou que não foi acionado para atuar no resgate e, portanto, não registrou o ocorrido.

Nota Samu

“A Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, informa que o SAMU foi acionado hoje na manhã desta terça-feira (9) para atendimento de um homem com cerca de 50 anos que foi encaminhado para a UPA Centro Sul com queimaduras”. 

Fonte: BHAZ

terça-feira, 9 de março de 2021

História - PARASITA DA VIDA REAL? MULHER ENCONTRA APARTAMENTO SECRETO ATRÁS DO ESPELHO DO BANHEIRO

A jovem, que mora nos EUA, notou uma circulação de ar em um buraco da porta do banheiro, encontrando muitos cômodos escondidos

Após meses notando uma onda de vento partindo de uma fresta do banheiro, a tiktokerSamantha Hartsoe decidiu investigar o motivo que causava incômodo em seu apartamento em Nova York, nos EUA.

Após meses notando uma onda de vento partindo de uma fresta do banheiro, a tiktoker Samantha Hartsoe decidiu investigar o motivo que causava incômodo em seu apartamento em Nova York, nos EUA.

Registrado em vídeo, ela notou que o vento de maior intensidade partia da borda do espelho da pia. Assim, fez um corte na moldura e descobriu uma estrutura imensa atrás do objeto.

Conforme repercutido pela revista Monet, a descoberta foi amplamente compartilhada na rede social chinesa, sendo curtida por mais de 805 mil pessoas.

Em quatro vídeos, ela ilustrou a abertura da parede, a entrada e filmou o apartamento secreto que era colado ao seu — mas nunca revelado pela imobiliária ou funcionários do prédio.

Tratava-se de um duplex completamente abandonado, que hospedava o sistema de resfriamento de alguns dos apartamentos ao redor, como Samantha explicou em entrevista ao canal de TV estadunidense NSBC, que também visitou o apartamento escondido.

Ela contou com o auxílio de um amigo para realizar a filmagem, que comparou o encontro com o filme “Parasita”, de 2019. As portas que davam acesso a saída estavam trancadas e o chão estava repleto de sacos de lixo e garrafas d’água, mas foi mantido intocado e notificado para o síndico.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Ministros querem julgar suspeição de Moro mesmo com decisão contrária de Fachin

A sugestão de Edson Fachin de que o julgamento da suspeição de Sergio Moro fica prejudicado depois que as condenações de Lula foram anuladas não deve ser seguida com facilidade por outros magistrados do STF (Supremo Tribunal Federal).

A sugestão de Edson Fachin de que o julgamento da suspeição de Sergio Moro fica prejudicado depois que as condenações de Lula foram anuladas não deve ser seguida com facilidade por outros magistrados do STF (Supremo Tribunal Federal).

Integrantes da 2ª Turma do STF, onde a ação contra Moro tramita, pretendem manter a análise da suposta parcialidade do ex-juiz nos processos que envolvem o petista.

Nesta segunda (8), Fachin decidiu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar o ex-presidente nos processos do tríplex, de compra de um terreno para o Instituto Lula, de doações para o mesmo instituto e do sítio de Atibaia.

Com isso, todos os atos dos processos, inclusive o recebimento da denúncia contra o petista, foram anulados.

No mesmo despacho, Fachin considerou que todos os habeas corpus apresentados pela defesa do ex-presidente questionando a conduta da Justiça ficaram prejudicados _ou seja, perdem a razão de ser e devem ser arquivados. Entre eles está a ação que levanta a suspeição de Sergio Moro.

A previsão é que ela seja pautada ainda no primeiro semestre. Os ministros da 2ª Turma vão ter a palavra final sobre a pertinência de que ela ainda seja analisada.

Fonte: Diário do Centro do Mundo

quinta-feira, 4 de março de 2021

17% de toda a comida disponível para consumo no mundo é desperdiçada

Relatório da ONU aponta desperdício de 931 milhões de toneladas de alimentos em 2019 e afirma que o problema não se restringe a países desenvolvidosEstima-se que cerca de 690 milhões de pessoas tenham sido afetadas pela fome em 2019. Nesse mesmo ano, aproximadamente 931 milhões de toneladas de alimentos, o equivalente a 17% de toda a comida disponível para consumo, tiveram o lixo como destino.
Estima-se que cerca de 690 milhões de pessoas tenham sido afetadas pela fome em 2019. Nesse mesmo ano, aproximadamente 931 milhões de toneladas de alimentos, o equivalente a 17% de toda a comida disponível para consumo, tiveram o lixo como destino.
Os dados são de uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU), apresentada nesta quinta-feira (4), que busca incentivar esforços globais para o cumprimento da meta 12.3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): reduzir pela metade o desperdício de comida até 2030.
O Índice de Desperdício de Alimentos 2021, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da organização parceira WRAP, analisou as sobras alimentares em pontos de venda, restaurantes e residências, considerando as partes comestíveis e as não comestíveis, como ossos. De acordo com a pesquisa, o maior desperdício vem das casas, que descartam 11% do total de alimentos disponíveis na fase de consumo da cadeia de abastecimento. Para serviços alimentícios e estabelecimentos de varejo, as taxas são de 5% e 2%, respectivamente.
O documento revela que, em nível global per capita, os consumidores desperdiçam 121 kg de alimentos a cada ano, sendo 74 kg descartados em residências. No caso do Brasil, esse número cai para 60 kg de alimentos desperdiçados por pessoa no ambiente doméstico e, no país, 12 milhões de toneladas. "Durante muito tempo, presumiu-se que o desperdício de alimentos em casa era um problema expressivo apenas nos países desenvolvidos. Com a publicação do relatório Índice de Desperdício de Alimentos, podemos ver que as coisas não estão tão claras", avalia, em nota, Marcus Gover, CEO da WRAP.
Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA, afirma que o impacto do desperdício de alimentos atinge pelo menos três esferas: a social, a ambiental e a econômica. Diante do cenário de crise climática, por exemplo, atribui-se até 10% das emissões globais de gases de efeito estufa a alimentos não consumidos, pensando nas perdas em toda a cadeia.
"A redução do desperdício de alimentos cortaria as emissões de gases de efeito estufa, retardaria a destruição da natureza, aumentaria a disponibilidade de comida e, assim, reduziria a fome e economizaria dinheiro em um momento de recessão global", diz Andersen. "Se quisermos levar a sério o combate à mudança climática, à perda da natureza e da biodiversidade, à poluição e ao desperdício, empresas, governos e cidadãos de todo o mundo devem fazer a sua parte".
Por isso, a ONU acredita que incluir o desperdício de alimentos na Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) do Acordo de Paris é um caminho para os países aumentarem a ambição climática e fortalecerem a segurança alimentar. Além disso, a fim de alcançar a meta 12.3 dos ODS, a organização ressalta que os governos precisam desenvolver uma melhor capacidade de monitorar o desperdício de alimentos.

quarta-feira, 3 de março de 2021

História - Como bancos ingleses lucraram com escravidão no Brasil

No auge do tráfico de escravos da África para o Brasil, entre 1800 e 1850, mais de 2 milhões de pessoas foram trazidas à força para o país para serem escravizadas, segundo o Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos (Transatlantic Slave Trade Database). No total, ao longo de quatro séculos, mais de 4,8 milhões de pessoas escravizadas foram obrigadas a desembarcar em solo brasileiro.

O tráfico era um negócio lucrativo, mas não foram só os traficantes e fazendeiros que se aproveitaram da exploração brutal de seres humanos. Banqueiros ingleses se envolveram com a escravidão no Brasil mesmo depois de ela ter sido abolida nas colônias britânicas, em 1833.

O tráfico era um negócio lucrativo, mas não foram só os traficantes e fazendeiros que se aproveitaram da exploração brutal de seres humanos. Banqueiros ingleses se envolveram com a escravidão no Brasil mesmo depois de ela ter sido abolida nas colônias britânicas, em 1833.

É isso que mostra uma pesquisa do historiador Joe Mulhern, especializado no envolvimento britânico com a escravidão no Brasil, pela Universidade de Durham, na Inglaterra.

"Apesar de o Império Britânico na era vitoriana pensar em si mesmo como um modelo moral quanto à escravidão e fazer pressão para que outros países, inclusive o Brasil, abolissem a prática, os legisladores tiveram dificuldade para cortar os laços econômicos com a escravidão em países estrangeiros", explica Mulhern em entrevista à BBC News Brasil.

Havia duas formas principais de envolvimento dos britânicos, explica o historiador. Uma mais ampla, por meio de empréstimos e a compra de títulos do Tesouro, entre outras relações indiretas com a economia escravocrata. E outra mais direta, em que instituições e indivíduos deram apoio financeiro, na forma de empréstimos e garantias, por exemplo, para o tráfico de escravos ou para fazendas que usavam esse tipo de mão de obra.

Alguns britânicos chegaram a ser diretamente proprietários de escravos — segundo o trabalho de Mulhern, um censo de 1848-1849 mostra que havia, naquele ano, cerca de 3.400 pessoas escravizadas por mestres britânicos.

Entre os envolvidos nessa relação mais direta, havia indivíduos ligados a bancos que foram predecessores de grandes instituições financeiras atuais do Reino Unido.

Lobby no parlamento

Em 1833 o Reino Unido havia extinguido a escravidão em suas colônias, dando compensações para os senhores mas não para os escravizados. O império começou também a fazer pressão diplomática para que a escravidão fosse abolida no Brasil. Essa pressão é apontada por historiadores brasileiros como um dos múltiplos fatores que levaram ao fim da prática no país.

A lei que proibiu o tráfico como parte de um acordo com o Reino Unido, inclusive, deu origem à expressão "para inglês ver", porque durante muito tempo não havia fiscalização e o tráfico continuou.

No entanto, apesar dessa pressão do governo do país europeu, muitos do britânicos envolvidos na prática conseguiam impedir que a legislação britânica fosse mais restritiva em relação às suas atividades no exterior.

"Essa ambivalência no envolvimento do Reino Unido na escravidão (tanto pressionando para o seu fim quanto deixando de cortar laços econômicos existentes) pode ser encontrada na legislação da época", diz o historiador.

Isso porque os envolvidos faziam lobby no Parlamento.

"Eles pressionavam para que seus negócios fossem protegidos, com os mesmos argumentos para defender a escravidão usados no Reino Unido antes de 1833", explica Mulhern.

Os três principais, aponta, eram a defesa da propriedade (porque as pessoas tinham sido vendidas como propriedades); a necessidade de o Reino Unido prosperar nesses mercados que ainda eram escravocratas; e o mito de que os britânicos que exploravam escravos eram "benevolentes".

"Já existia o mito de que os senhores de escravos no Brasil eram benevolentes. Os ingleses diziam que eles eram ainda mais", conta Mulhern. "Mas não há nenhuma evidência de que a escravização, uma prática baseada na violência ou na ameaça dela, era menos cruel quando praticada pelos britânicos".

Seres humanos como garantia

Muitas vezes os escravizados eram parte das propriedades usadas em garantias de empréstimos de um banco. Na dissertação de Mulhern, ele resgatou casos em que bancos ingleses tinham um devedor insolvente e acabavam leiloando os escravizados para cobrar a dívida.

Um desses bancos, mostra Mulhern em sua pesquisa, era o London and Brazilian Bank, criado em 1862 (e comprado em 1923 pelo Lloyd's Banking Group, que existe até hoje).

O banco continuou envolvido com a escravidão até a praticamente a abolição da prática no Brasil, em 1888 — ou seja, mais de 50 anos depois da abolição da escravatura nas colônias britânicas, como Jamaica e África do Sul.

Um dos executivos do London and Brazilian Bank, Edward Johnston, chegou a ser dono de escravos no Brasil e a casar com uma família que era dona de uma fazenda de café no Rio de Janeiro. "A riqueza gerada com a escravidão no Brasil ajudou a estabelecer um banco que investiria na exploração de pessoas", diz Mulhern.

Esses laços, no entanto, eram escondidos de investidores no Reino Unido, onde a opinião pública já não era favorável à escravidão.

Para evitar afugentar investidores no país de origem, a maior parte dos bancos envolvidos com operações relacionadas à escravidão não o fazia diretamente, mas por meio de comissários intermediários, explica Mulhern à BBC News Brasil.

Um desses intermediários era a casa bancária Gavião Ribeiro Gavião, que financiava a economia agrícola de São Paulo e atuava no comércio interno de escravos.

A casa bancária atuou como intermediária para o London and Brazilian Bank. O banco britânico declarava que seu propósito no Brasil era comercial, mas tinha uma carteira de hipotecas cujas garantias eram fazendas de café em São Paulo e mais de 800 pessoas que trabalhavam nelas como escravos.

Terceirização

O historiador também cita o caso da Fazenda Angélica, em Rio Claro, no interior de São Paulo, que acabou se tornando um dos ativos de um banco e sendo administrada por ele. Depois de uma tentativa fracassada de usar mão de obra de imigrantes, o banco resolveu "terceirizar" o uso de mão de obra escrava.

Isso porque, sendo uma empresa inglesa, o banco não poderia ser dono direto de escravizados. Mas uma brecha na legislação permitia que ele "alugasse" a mão de obra escrava de outros senhores de escravo — e foi o que fez.

Quando vendeu a fazenda, o banco afirmou que "não empregava um único escravo" — sem citar que pagou senhores de escravos para usarem as pessoas escravizadas por eles na plantação e que ainda tinha 80 escravos como garantia do financiamento que possibilitou a venda da fazenda.

Empréstimo não pago

"Nem sempre esse envolvimento era bem-sucedido, e agentes britânicos que fizeram as negociações do tipo no Brasil chegaram a ser repreendidos no Reino Unido", conta Mulhern.

Mas a repreensão, diz ele, não foi por questões morais, mas porque muitos dos empréstimos não foram recuperados e algumas instituições acabaram tendo dificuldades financeiras por causa disso.

"Muitos investidores buscavam investir em infraestrutura, em criação de linhas de trem por exemplo, mas os fazendeiros queriam um investimento direto na produção agrícola, que era um negócio muito arriscado", diz Mulhern. "Apesar disso, alguns agentes se envolveram, até contraindo orientações da sede, e depois foram repreendidos porque os negócios não deram certo".

Empréstimos que tinham seres humanos como garantia e não eram pagos tinham impactos diretos na vida dessas pessoas.

Em 1869, o Barão do Turvo, fazendeiro carioca que tinha uma dívida com o London and Brazilian Bank, não pagou um empréstimo que devia.

"O banco então entrou com um processo para recuperar o dinheiro, e como havia pessoas escravizadas como garantia, elas sofreram a consequência", diz Mulhern. Advogados do banco então realizam um leilão de 103 escravizados, incluindo famílias com crianças e bebês. Documentos da época compilados por Mulhern mostram como o banco vendeu pelo menos 30 dessas pessoas no leilão — entre elas a pequena Ancieta, uma bebê escravizada de apenas um ano de idade; e as pequenas Adelina e Marcellina, vendidas com 2 e 6 anos.

Lidando com o passado

O movimento americano Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em português), de protesto contra o racismo e contra o assassinato de negros pela polícia, fez com que muitas instituições viessem a público falar sobre seu histórico racista e mostrar que mudaram de postura, inclusive doando dinheiro para instituições de combate ao racismo.

"Historiadores já sabiam dessas ligações, mas o movimento Black Lives Matter trouxe um novo escrutínio sobre esse passado", diz Mulhern.

Após a publicação de um artigo de Joe Mulhern sobre sua pesquisa, o banco Lloyds Banking Group atualizou seu site para incluir um reconhecimento de que pelo menos seis dos 200 bancos que foram incorporados pelo grupo se envolveram com a escravidão, incluindo o London and Brazilian Bank.

"Embora tenhamos muito do nosso passado para nos orgulharmos, não podemos nos orgulhar de tudo", diz o banco.

"Mas se esse debate vai ir além do reconhecimento e levar de fato a algum tipo de reparação ou doação financeira é algo que eu não sei", afirma o pesquisador.

Fonte: BBC

terça-feira, 2 de março de 2021

Alerta Covid: Taxa de transmissão chega ao nível vermelho em BH

Os indicadores da Covid-19 em Belo Horizonte continuam a subir. Com o nível de transmissão da doença em alerta máximo, a capital tem 74,7% de leitos de UTIs ocupados. O Boletim Epidemiológico divulgado nesta segunda-feira (1) mostra os impactos negativos da falta de isolamento por parte da população.

Os indicadores da Covid-19 em Belo Horizonte continuam a subir. Com o nível de transmissão da doença em alerta máximo, a capital tem 74,7% de leitos de UTIs ocupados. O Boletim Epidemiológico divulgado nesta segunda-feira (1) mostra os impactos negativos da falta de isolamento por parte da população.

O número médio de transmissão por infectado (RT) saiu do nível amarelo e já ocupa o vermelho, com o total de 1,20. O número saltou desde o último boletim, que registrava 1,6 pontos. A taxa de ocupação em leitos da enfermaria também acompanhou a crescente, e foi de 56,2% para 58,3%.

Ainda segundo boletim, BH tem apenas 115.558 pessoas vacinas com a primeira dose da vacina. Já com a segunda dose, os números são ainda menores: apenas 59.012. A capital mineira tem 2.375.151 milhões de habitantes.

Negacionistas nas praias


Na última quinta-feira (25), o Prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), chegou a mencionar que a volta às aulas só será possível se os números estiverem baixos. Estamos esperando dar os 14 dias [após] o Carnaval. Muita gente viajou, muito negacionista foi para praia. Estamos com medo.”

Alexandre Kalil também bateu forte no ponto de que BH não tem onde comprar vacinas. O chefe do Executivo disse durante entrevista coletiva que já buscou o imunizante em vários laboratórios. Mesmo com recursos financeiros à disposição para a compra, não há doses à venda.

Kalil disse também que caso houvesse a possibilidade, a PBH compraria o imunizante na mesma hora. “Se tivesse para comprar, a gente compraria para usar só aqui. A gente tem caixa para comprar”, garantiu.  Apesar de não ter dado detalhes sobre quais laboratórios teria tentado fazer as compras, Kalil garantiu que vai continuar tentando comprar o imunizante para os mineiros.

Fonte: BHAZ

segunda-feira, 1 de março de 2021

CRM-DF usa notícia enganosa ao afirmar que OMS “condenou” lockdown

Para justificar sua absurda condenação ao lockdown, Conselho de Medicina usa frase fora de contexto como se fosse da Organização Mundial de Saúde

Com as UTIs do Distrito Federal lotadas, o Conselho Regional de Medicina divulgou uma nota condenando o lockdown decretado pelo governador Ibaneis Rocha na última sexta-feira, 26, para tentar conter o aumento dos contágios e o consequente colapso nos hospitais. Como se não fosse o suficiente, ainda utilizou uma notícia enganosa para justificar seu posicionamento. “O lockdown não salva vidas e faz os pobres muito mais pobres”, diz o texto, citando o “Dr. David Nabarro”, como se este falasse pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e a entidade estivesse “condenando” o lockdown. É mentira.

Com as UTIs do Distrito Federal lotadas, o Conselho Regional de Medicina divulgou uma nota condenando o lockdown decretado pelo governador Ibaneis Rocha na última sexta-feira, 26, para tentar conter o aumento dos contágios e o consequente colapso nos hospitais. Como se não fosse o suficiente, ainda utilizou uma notícia enganosa para justificar seu posicionamento. “O lockdown não salva vidas e faz os pobres muito mais pobres”, diz o texto, citando o “Dr. David Nabarro”, como se este falasse pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e a entidade estivesse “condenando” o lockdown. É mentira.

Em primeiro lugar, Nabarro não é diretor da OMS nem porta-voz da entidade, e sua fala, uma entrevista à revista britânica The Spectator, foi tirada de contexto pelos negacionistas do coronavírus, de acordo com verificação feita pelo projeto de checagem Comprova em outubro do ano passado. Na época, a notícia enganosa estava sendo espalhada no twitter por uma deputada federal bolsonarista, Major Fabiana.
“David Nabarro –que é enviado especial da organização e não seu diretor, como afirma a deputada–, de fato destacou os impactos econômicos e sociais negativos dos lockdowns. Isso não significa, no entanto, que a OMS tenha mudado de posição”, diz a checagem, lembrando que, na mesma entrevista, o representante da entidade afirmou que os lockdowns “são justificados em momentos de crise, para reorganizar os sistemas de saúde e proteger os profissionais que estão na linha de frente do combate à doença. A ideia desta prática é ‘achatar a curva’ de contágio, evitar a superlotação de hospitais e, depois, permitir a reabertura das economias”.

"A OMS estabeleceu seis requisitos para que os países pudessem relaxar quarentenas e lockdowns. Bolsonaro não cumpriu nenhum, mas sobre a má atuação do governo federal na pandemia os Conselhos Regionais e Federal de Medicina continuam em silêncio"

O que de fato Nabarro falou na entrevista é que os lockdowns não podem ser a principal forma de os governos combaterem a pandemia. “Nós realmente apelamos aos líderes mundiais: parem de usar o lockdown como seu método principal de controle”, disse.

Segundo declarou oficialmente a OMS diversas vezes, os países não podem trocar a quarentena por nada. A entidade estabeleceu seis requisitos antes de os governos relaxarem as restrições sobre a população (quarentenas e lockdowns): assegurar que as transmissões estejam sob controle; assegurar que os sistemas de saúde podem cuidar de todos os casos; minimizar riscos de contágio nos hospitais e centros de saúde; estabelecer medidas preventivas em escolas, locais de trabalho e outros lugares essenciais; gerenciar o risco de que o vírus seja importado de outros lugares; educar a comunidade sobre o novo normal, e como eles podem se proteger.

Bolsonaro não cumpriu nenhuma dessas prerrogativas, mas sobre a má atuação do governo federal na pandemia e sobre a mentira do tratamento precoce, os Conselhos Regionais e Federal de Medicina continuam em silêncio.