quinta-feira, 13 de julho de 2017

No Japão, paraplégico é obrigado a rastejar para embarcar em avião por falta de auxílio

Um passageiro paraplégico e uma companhia aérea de baixo custo chegaram às manchetes internacionais depois que o homem, incapaz de usar suas pernas, teve que rastejar pelas escadas do avião que embarcava no Aeroporto de Amami.

A companhia foi obrigada a pedir desculpas, e prometeu melhorar seus serviços para passageiros com deficiências físicas. Mesmo assim, o debate no Japão se focalizou mais na questão da legitimidade das queixas do passageiro do que nos problemas de acomodação e discriminação enfrentados por viajantes deficientes.
Um passageiro paraplégico e uma companhia aérea de baixo custo chegaram às manchetes internacionais depois que o homem, incapaz de usar suas pernas, teve que rastejar pelas escadas do avião que embarcava no Aeroporto de Amami.
A companhia foi obrigada a pedir desculpas, e prometeu melhorar seus serviços para passageiros com deficiências físicas. Mesmo assim, o debate no Japão se focalizou mais na questão da legitimidade das queixas do passageiro do que nos problemas de acomodação e discriminação enfrentados por viajantes deficientes.
Kijima Hideto, o passageiro em questão, estava visitando a pequena ilha e resort de Amami Oshima, na Província de Kagoshima, no sudoeste do Japão. Kijima viajou de Osaka, a cidade na região central do Japão onde ele mora, até a ilha pela Vanilla Airuma companhia de baixo custo que faz parte de uma das duas maiores companhias aéreas do país, a All-Nippon Airways (ANA).
O aeroporto da ilha é bem pequeno e os passageiros têm que subir escadas para embarcar nos aviões. Apesar de Kijima, que utiliza cadeira de rodas para se movimentar, ter conseguido viajar até Amami Oshima e desembarcar da aeronave com a ajuda de seus amigos, no dia 5 de junho, quando ele tentava viajar em seu voo de volta, funcionários da Vanilla Air disseram que não poderiam ajudá-lo a bordo. Eles também impediram os amigos de Kijima a carregá-lo para dentro do avião. Alegadamente, um funcionário falou para Kijima que ele só poderia embarcar se conseguisse “subir as escadas sozinho, sem a assistência” das pessoas que viajavam com ele.
Nesse ponto, Kijima decidiu rastejar-se pelas escadas. O que os funcionários da Vanilla Air no Aeroporto de Amami não sabiam é que Kijima chefia a ONG Japan Accessible Tourism Center, um órgão que promove a acessibilidade do turismo para deficientes japoneses e que já analizou 200 aeroportos em 158 países.


紙面【社会】飛行機搭乗拒否、格安航空会社バニラ・エアの社員から「歩けないと乗れない」と言われ自力でタラップをはい上がらされた問題。車いす男性「周りにも複数」ほか 詳しくは本日(6月29日付)東京新聞朝刊にて
Legenda da imagem: “Como o passageiro rastejou pelas escadas da aeronave.”
No jornal de hoje: Passageiro impedido de embarcar num avião da companhia aérea econômica Vanilla Air. “Se você não consegue andar, não pode embarcar”, disse um funcionário da compnhia ao passageiro, que foi obrigado a subir as escadas sozinho; o passageiro diz que ele não foi o primeiro (a ser tratado dessa maneira pela Vanilla Air). […]
Ao chegar em Osaka, no dia 5 de junho, Kijima escreveu um post sobre o que tinha acontecido e compartilhou o link na sua página do Facebook. Ele descreveu a experiência como uma violação dos seus direitos humanos (“バニラエアの奄美空港は人権侵害です”).
Ele também destacou, através de capturas de tela, que a Vanilla Air promete em seu site oficial que passageiros com deficiências físicas seriam acomodados, o que não foi o caso no Aeroporto de Amami. O problema era que, apesar daquele aeroporto ter uma ponte telescópia que facilitaria o acesso de uma cadeira de rodas, ela estava sendo utilizada por outro avião quando Kijima chegou e na hora de partir.
Durante os dias seguintes, Kijima continuou a divulgar a sua experiência em Amami Oshima, até entrar em contato com um oficial do governo de Osaka encarregado de implementar as leis provinciais sobre a discriminação de pessoas deficientes (障害者差別禁止法). Os voos da Vanilla Air para Amami Oshima decolam de um aeroporto na Província de Osaka e, de acordo com Kijima, graças a uma intervenção do governo provincial de Osaka, a companhia aérea de baixo custo prometeu que até o dia 16 de junho iria instalar um elevador no aeroporto da ilha, para possibilitar o embarque de viajantes com deficiências.
Em um post no Facebook do dia 16 de junho Kijima disse:
Nunca desistam, nem chorem suas mágoas até dormir! Parece que até novembro uma segunda ponte vai ser instalada no Aeroporto de Amami. Quando fizerem isso, não será necessário de subir escadas (para embarcar no avião) e o problema de mobilidade será resolvido.
A partir do dia 28 de junho, a história de Kijima ganhou repercussão na imprensa japonesa. A Vanilla Air teve que pedir desculpas para Kijima publicamente, e as províncias de Osaka e Kagoshima pressionaram a companhia aérea a acomodar imediatamente os passageiros deficientes do Aeroporto de Amami, o que ela concordou.
Além de gerar manchetes nacionais e internacionais, a experiência de Kijima chamou atenção nas redes sociais. Um blogueiro conhecido pelo nome de usuário Cocochan  divulgou no Naver Matome, um site agregador de blogs e redes sociais, as reações sobre a história: algumas eram positivas, enquanto outras mostravam um certo ceticismo sobre a situação de Kijima.
Alguns usuários questionaram por que Kijima não havia confirmado se poderia embarcar no avião antes de reservar o seu voo:


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「半身不随で車椅子で生活している木島英登さん。今月3日、友人らと奄美大島を旅行するため格安航空会社バニラエアを利用しました。」
なぜ予約の際にあらかじめ車いす利用と連絡しないのか?
“Kijima Hideto, que não pode movimentar suas pernas, depende de uma cadeira de rodas. No dia 3 de junho, ele viajou para Amami Oshima com seus amigos pela companhia aérea econômica Vanilla Air.”
Por que ele não avisou a companhia com antecendência que ele viajaria de cadeira de rodas?
Tsuda Daisuke, jornalista japonês que tem 1,34 milhão de seguidores no Twitter, explicou por que a estratégia do passageiro era a melhor solução:
バニラエアの件は当事者の人がかつてブログで「あえて事前に車椅子であることを連絡しないようにしている」と書いていることが叩かれているけど、記事全部読めばなぜそうしないか理由書かれてるじゃん。事前に伝えることで搭乗拒否などのトラブルに巻き込まれやすいからって。
As pessoas estão atacando o homem diante da controvérsia com a Vanilla Air porque, previamente, ele escreveu no seu blog: “Eu intencionalmente não divulguei que estava viajando de cadeira de rodas”. Mas se você ler todo o artigo, ele explica o motivo. Ele diz que se tivesse alertado (os funcionários) sobre sua cadeira de rodas, seu embarque teria sido negado, o que criaria outros problemas.
Como consultor de viagens para portadores de deficiências, Kijima também defende o ponto que, baseado no conceito internacional de “adaptação razoável“, não haveria necessidade de determinar, com antecedência, se os passageiros deficientes seriam acomodados ou não:
Qual é o motivo da redução de barreiras no Japão de ser algo tão extravagante? A percepção que isso é algo tão exclusivo e tão custoso é uma das maiores razões pelas quais não estamos fazendo nenhum progresso.
[…]
Não se trata de uma busca por algo que satisfará a todos (para o mínimo múltiplo comum), mas sim uma solução realística que sirva como um meio termo (para o maior fator comum). Vamos visar uma “adaptação razoável”.
De acordo com a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CRPD na sigla em inglês), “adaptação razoável” significa: “as modificações e os ajustes necessários e adequados que não acarretem ônus desproporcional ou indevido, quando requeridos em cada caso, a fim de assegurar que as pessoas com deficiência possam gozar ou exercer, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, todos os direitos humanos e liberdades fundamentais”.
Nagase Osamu, especialista em direitos dos deficientes e ex-representante da região Ásia-Pacífico no grupo Inclusão Internacional, conta ao Global Voices que o tratamento recebido por Kijima pela Vanilla Air viola tanto as leis japonesas quanto a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

“A política da Vanilla Air de não deixar voar as pessoas que não podem andar soa como uma violação do Ato de Eliminar a Discriminação Contra Pessoas com Deficiência e do CRPD, que o Japão ratificou”, disse Nagase em entrevista por e-mail. “Se não tivesse nenhum acesso, a companhia deveria se encarregar de tomar providências, apesar que, como uma entidade particular, ela é apenas incentivada a fazer isso. O caso demonstra a necessidade de promover o acesso geral e assegurar a adaptação razoável em situações específicas.”
Fonte: Global Voices

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