Parece que as eleições ganham contornos definitivos ainda durante a Copa do Mundo. Todas as pesquisas de intenção de voto divulgadas recentemente denotam a polarização entre dois projetos antagônicos de desenvolvimento para o país.
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quarta-feira, 18 de junho de 2014
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Outono egípcio
A chamada “primavera árabe” foi, de forma afoita, chamada por alguns de uma revolução. Foi muito importante, principalmente porque quebrou um eixo fundamental da política dos EUA para a região – a ditadura de Mubarak. Não por acaso o país ocupa o segundo lugar na lista de receptores de apoio militar dos EUA, só superado por Israel.
Mas como fenômeno político, foi a vitória de uma luta antiditatorial. Permitiu que novas forças laicas aparecessem, somadas à força mais tradicional da oposição à ditadura – os islâmicos, organizados na Irmandade Muçulmana.
As eleições tiveram o triunfo dos islâmicos, que derrotaram, por estreita margem, no segundo turno, um candidato ligado à ditadura do Mubarak. Eleito Morsi, foi convocada uma Assembleia Constituinte, com maioria islâmica, mas um peso importante das novas forças laicas.
O erro mais grave de Morsi foi permitir que fosse elaborada e aprovada uma Constituição conforme os valores islâmicos, que impõe esses seus valores ao conjunto da sociedade, dividida entre forças islâmicas e laicas. Somada à crise econômica – que promoveu uma forte pressão do FMI para a aceitação de um empréstimo, com a correspondente Carta de Intenções, que Morsi rejeitou, consciente do que significaria para o país, mas sem elaborar alternativas – o Egito se viu envolvido em nova onda de mobilizações, agora contra sua administração.
Sucederam-se as mobilizações gigantescas, dos dois lados, a favor e contra o governo, numa situação de empate político. Que foi desempatado pela ação do Exército, que tinha sobrevivido incólume ao fim da ditadura e agiu para derrubar o governo do Morsi.
Um golpe militar, mesmo se com apoio popular. Setores que haviam se mobilizado saudaram o golpe, acreditando que poderiam derrotar os islâmicos e acercar-se ao poder.
Mas a capacidade de resistência dos islâmicos terminou rapidamente com essa ilusão. A repressão militar não se fez tardar e a polarização entre o Exército e a Irmandade Muçulmana se impôs.
Os EUA, incomodados, porque têm no Exército seu principal aliado – por isso Obama não pode usar a palavra golpe, porque estaria obrigado a suspender os auxílios militares ao Exército – não podem aparecer publicamente apoiando a interrupção de um processo democrático, mas tampouco podem condenar o regime.
O pior dos mundos se impôs: militarização do país – com o estado de sítio e a nomeação de governadores ligados ao militares nas províncias – e resistência dos islâmicos, com os setores laicos deslocados.
A primavera egípcia desembocou neste outono.
Fonte: Blog O Escrevinhador
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Arrocho e fraude: o poder da ideologia
Reportagem do 'El País', deste domingo (28), faz o que nenhum veículo do dispositivo conservador brasileiro cogitou: entrevista o estudante de economia Thomas Herndon, de 28 anos; ele ganhou fama mundial ao fulminar a credibilidade de dois centuriões da ortodoxia fiscal, os economistas Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff.
Herndon prepara seu doutorado na Universidade de Massachusetts, nos EUA.
Reinhart e Rogoff são titãs de Harvard, ademais de egressos da alta cúpula do FMI.
Entre 2001 e 2003, Rogoff ocupou nada menos que o cargo de economista-chefe da instituição; Reinhart era sua assistente.
O grande mérito de Herndon foi agir diante dessa catedral ortodoxa com impiedosa independência intelectual.
Ele não aceitou como intocáveis as premissas que sustentavam o edifício teórico da dupla consagrada dentro e fora da academia.
A saber, que o endividamento público é intrinsecamente nefasto ao transitar na faixa dos 90% do PIB.
Há exatamente três anos, os dois publicariam no ‘American Economic Review’ um ensaio ancorado na ‘comprovação’ estatística de que a ultrapassagem dessa marca fatídica inviabilizaria o crescimento econômico.
Apenas um parêntesis ilustrativo do peso material que tem as ideias: nesse momento, os socialistas franceses se imolam em praça pública agarrados a uma política de austeridade que visa exatamente reverter o endividamento público, na marca dos 92% do PIB.
A maldição fiscal não é novidade na carreira do mago Rogoff.
Como economista-chefe do FMI, ele já prescrevia a caldeirada de arrocho & rabo de escorpião mesmo sem tê-la demonstrado ‘cientificamente’ ainda.
A genuflexão a essa receita foi inoculada em cérebros intelectuais, operacionais e midiáticos nos quatro cantos do planeta.
O FMI, seus ‘rogoffs’ e aprendizes cuidaram de injetar cepas daquilo que, no fundo, revestia de legitimidade os interesses rentistas acantonados na dívida pública.
A agenda do desenvolvimento, propriamente dita, foi devastada por essa infecção contagiosa.
Seu efeito revelou-se tão ou mais devastador que a doença supostamente maligna que pretendia curar: o gasto público.
Herndon passou os olhos nas estatísticas que comprovavam o anátema e não ficou satisfeito. Solicitou as planilhas completas aos autores.
Quando as teve em mãos hesitou mais uma vez.
Havia extrapolações de inconsistência óbvia; pior, dados que afrontavam a premissa da austeridade haviam sido eliminados das séries finais.
As evidências eram fortes, mas peso da ideologia é maior ainda.
O doutorando esfregou os olhos mais de uma vez na esperança de clarear a visão embaralhada pelo cansaço. Pediu ajuda à noiva, uma socióloga especialista em estatística.
Ela revisou as séries cuidadosamente. E confirmou: “Não creio que você esteja errado”.
O resto é sabido.
A fraude macroeconômica mais estonteante da ultimas décadas, brinca a reportagem, funcionou para o Estado do Bem Estar Social como as ‘armas de destruição em massa” funcionariam para a invasão do Iraque por Bush.
Herndon acha um pouco exagerada a comparação. Mas concorda com a essência da analogia: ‘Porque estão adotando políticas a partir de premissas falsas’, diz.
O coquetel de arrocho e premissas falsas, bem como seu personagem símbolo, a partir de agora, não são estranhos ao Brasil.
Kenneth Rogoff dirigia o FMI durante a disputa presidencial brasileira de 2002.
Em setembro daquele ano, o Ibope divulgou uma pesquisa em que o então candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, retomava a trajetória ascendente.
Depois de um período com resultados negativos, Lula ganhou mais dois pontos consolidando-se na liderança, com 41% das intenções de voto.
O tucano José Serra, seu principal adversário, cairia para 18%, um ponto a menos.Mas já se revelava um corisco no quesito rejeição: 29%.
A pesquisa encomendada pela 'Globo' foi divulgada numa terça-feira, véspera da reunião anual do FMI, em Washington.
Na quarta e na quinta-feira seguintes choveriam raios, cobras, lagartos e escorpiões sobre o Brasil.
Autoridades do Fundo emitiriam previsões catastróficas e receitas sombrias para o futuro do país e de seus eleitores.
Tudo naturalmente escandido com a conhecida isenção dos veículos do dispositivo midiático conservador.
Na 'Folha', o então correspondente Marcio Aith, que viria a ser chefe de imprensa de Serra na outra derrota tucana, em 2010, exercitava o seu futuro com o dedo preso no gatilho: “Alternativa, agora, é mais arrocho, diz FMI”. Em seguida ajustava o alvo: “Fundo elogia equipe econômica do Brasil (a do PSDB) e rebaixa perspectiva de crescimento do país...” ('Folha de S. Paulo', 26-09-2002)
No ‘Estadão’, o quadro de avisos viria igualmente encharcado de ostensiva agressividade.
Com o título “Ajuste no Brasil será feito com dor, diz FMI”, o texto era temperado de vaticínios agourentos aspergidos por ninguém menos que o rigoroso economista-chefe do organismo, Kenneth Rogoff.
As sentenças de Rogoff seriam impressas e disseminadas, então, com a mesma inquebrantável genuflexão do espírito que hoje acomete nossos jornalistas especializados em lubrificar a terapia do choque de juros.
Tudo chancelado pelo ‘rogoffismo’ local, vocalizado por sábios tucanos e professores banqueiros, de conhecidos serviços prestados à Nação.
Como diria Millôr Fernandes, se não é uma garantia, já é uma tradição.
Ela explica por que o estudante Thomas Herndon não tem o destaque merecido nos grandes diários nacionais.
Seria o mesmo que Bush admitir que as armas de destruição em massa serviram apenas de álibi para devastar o Iraque. E tomar de assalto os seus poços de petróleo.
Leia, a seguir, trechos do 'Estadão', com as sugestivas advertências de Rogoff, na reta final das eleições de 2002.
“Ajuste no Brasil será feito com ‘dor’, diz FMI”
Estadão 25-09-2002
O principal objetivo da política macroeconômica do Brasil, no médio prazo, deve ser reduzir o endividamento público, disse nesta quarta-feira o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kenneth Rogoff, na coletiva que abriu a reunião anual do FMI e do Banco Mundial.
Para quem conhece a linguagem sutil e diplomática do Fundo, fica claro que um aviso está sendo dado ao próximo governo: se não houver uma reversão significativa do sentimento negativo do mercado em relação à solvência pública, o FMI deve brigar por um superávit maior.
Rogoff foi até mais explícito na entrevista ao dizer que um "programa fiscal forte" requer "um forte grau de consenso social e político". Mais adiante, ele reformulou a expressão para "um alto grau de consenso social e apoio político".
Rogoff afirmou que o ajuste é particularmente difícil porque o grande endividamento faz com que as taxas de juros sejam muito altas. E isto, por sua vez, cria a necessidade de que o superávit primário (que exclui os gastos com juros) seja ainda maior.
Em um importante documento divulgado nesta quarta, o FMI deixa claro que encara o superávit primário de 3,75% do Produto Interno Bruto (PIB), com o qual o Brasil está comprometido, como um nível mínimo (que poderia ter de ser aumentado) nos próximos anos.
O FMI também explicita que considera que o elemento político - a incerteza sobre a continuidade da atual política de forte ajuste fiscal - é uma das principais causas da turbulência no Brasil.
O FMI deixou claro que considera que há um importante fator político na atual turbulência no Brasil. Referindo ao aumento de 750 para 1.500 pontos do risco-Brasil entre março e junho deste ano, a sessão sobre o Brasil da Perspectiva diz que há várias razões, mas que "talvez, mais fundamentalmente, os participantes do mercado começaram a focalizar a sua atenção nas incertezas políticas associadas com a eleição presidencial de outubro e as suas implicações para a atual política econômica".
Mais adiante, referindo-se à piora da situação brasileira a partir de junho, o texto diz que "os mercados ficaram cada vez mais nervosos sobre o resultado das eleições e o que ele poderia significar para a sustentabilidade das finanças públicas no Brasil, especialmente em seguida às pesquisas de intenção de voto no início de julho".
Esta foi a fase em que Luiz Inácio Lula da Silva e Ciro Gomes lideravam a disputa. "Para aliviar estas preocupações", conclui o relatório, "é crítico que se crie a confiança de que uma política econômica apropriada vai permanecer depois das eleições".
Fonte texto: A Carta Maior
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Argentina devia “censurar” o FMI.
O Fundo Monetário Internacional (FMI), organismo responsável pela quebradeira de várias economias do mundo e pelo desemprego e miséria de milhões de habitantes no planeta, divulgou na semana passada uma moção de “censura” ao governo da Argentina. A nefasta instituição alega que o governo do país vizinho manipula os índices de inflação. A “censura” é o primeiro passo de um processo que pode resultar na expulsão da Argentina do FMI, como se este organismo prestasse para alguma coisa nos dias atuais.
Aristocrática e petulante, a capataz do órgão, Christine Lagarde, já havia antecipado a medida em setembro passado. Na ocasião, ela afirmou que “a Argentina já tem o cartão amarelo, agora tem de escolher se quer o cartão vermelho”. De pronto, a altiva presidenta Cristina Kirchner respondeu durante a assembleia da ONU: “A Argentina não é um time de futebol, mas sim um país soberano”. Agora, o FMI volta à carga com sua “censura”. O organismo que destrói as economias europeias volta a meter o bedelho na América Latina.
Os argentinos e latino-americanos sabem o que significa o famigerado FMI. No triste reinado de FHC, o Brasil ficou recém deste antro que representa os interesses dos banqueiros. Os três acordos firmados com o Fundo resultaram em milhares de demissões, retirada de direitos trabalhistas e brutal arrocho salarial. No caso da Argentina, a presidente Cristina, juntamente com seu marido, projetou-se exatamente por combater suas receitas amargas, que levaram o país ao colapso. Quem, de fato, merece a censura dos povos é o FMI!
Vídeo sobre a matéria:
Fonte texto: Blog do Miro.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Taxas de Juros
Parece que está no ar um consensozinho das Garças. Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco, e Teresa Ter-Minassian, do FMI, defendem superávit estrutural como “saída” para o Brasil. Saída para quê? Nenhuma palavra sobre desenvolvimento e investimento.
O setor financeiro privado não quer saber nada de investimento no desenvolvimento. Fala ainda em elevar a poupança, não o crédito para o investimento. Nenhuma palavra sobre os spreads bancários privados. Nada sobre o câmbio ou superávite em conta corrente. Enfim, o país deles é eterno candidato a se desenvolver com poupança externa.
Está acostumado a financiar a dívida pública, garantida exatamente pelo superávit. Antes, tinham o argumento da inflação, o regime de metas. Com a pressão cadente da inflação, não lhe sobra nada para argumentar, apenas o cinismo de quem quer garantir sua condição de peixe de aquário, ou seja, cevado garantidamente pelo pagamento de juros da dívida pública. Nem as carpas no Jardim Japonês do Ibirapuera em São Paulo têm tanto.
Aécio Neves, o neo-oposicionista, vai ao ponto, sem pudor: “a perda de competitividade no Brasil está ligada ao crescimento excessivo do gasto público”. Fecha-se o círculo.
Um “consenso” bem pobre esse.
***
Mais um recibo de operação blindagem de Marconi Perillo. Antes, fora na Folha e no JN-Globo. Agora, no Estadão: o governador é tratado candidamente, e como cândido ele exerce um pré-direito de defesa que já equivale a um julgamento com auto-declarada inocência.
Em meio a tantos casos do mesmo tipo, mas de sinal inverso – ou seja, gente do governo –, chega a ser escandaloso o papel da mídia em conluio com a oposição. Só não se aventaram a defender Demóstenes. Pudera: o senador desmoralizou até a desonestidade!
Fonte texto: Blog do Sorrentino
Fonte texto: Blog do Sorrentino
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