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segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Policial se mata e abre debate sobre depressão entre militares: Uma morte por semana

“Foram 9 anos na Polícia Militar e eu vos digo, caros amigos: cuidem-se! A polícia é super estressante e, como no meu caso, pode ser fatal”. Este é um trecho de uma carta de despedida do policial militar Francisco Barroso, de 28 anos, que tirou a própria vida nesse domingo (18), em Belo Horizonte. O corpo do soldado foi enterrado na tarde desta segunda-feira (19), no Cemitério da Saudade, na região Leste da capital.
“Foram 9 anos na Polícia Militar e eu vos digo, caros amigos: cuidem-se! A polícia é super estressante e, como no meu caso, pode ser fatal”. Este é um trecho de uma carta de despedida do policial militar Francisco Barroso, de 28 anos, que tirou a própria vida nesse domingo (18), em Belo Horizonte. O corpo do soldado foi enterrado na tarde desta segunda-feira (19), no Cemitério da Saudade, na região Leste da capital.
De acordo com a Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais (Aspra), somente este ano, foram 31 mortes de profissionais da área de segurança por autoextermínio no estado.
Na carta, o soldado Barroso pede “perdão às pessoas que ficam”. Ele ainda reforça que “ninguém tem culpa de nada”, que é uma decisão estritamente pessoal. O policial termina o texto pedindo para que os familiares doem seus órgãos, para que “ajudem quem realmente precisa”.

Em contato com alguns militares, um deles foi enfático. “Para falar a verdade, a PM não está nem aí para os suicídios, tão pouco para as causas. Até tem uns profissionais da área de saúde que ministram palestras, mas palestras sem atuações e melhorias não servem de nada. Fazem as palestras só para justificar que existe algo sendo feito”, desabafa um militar, que preferiu não se identificar.
É importante frisar que a carta do policial é de uma pessoa que estava passando por uma situação muito delicada. A psicóloga Thaís Alves, especialista em saúde mental, lista alguns sintomas que todos devem se atentar.
“Temos os clássicos, como o entristecimento, afastamento das atividades habituais, negação a fazer coisas que gosta, afastamento dos amigos, recolhimento. Ou seja, uma mudança grande no comportamento”, relata.
Outro fator importante que deve ser notado são os possíveis sinais de agressividade. “Pensamos que depressão é só quem fica triste, mas é muito comum percebermos alguns esgotamentos que tornam a pessoa depressiva. Como um irritabilidade muito grande, um cansaço e perda de referenciais (poucos planos, perspectivas)”, explica a especialista.

Um agente de segurança morto por semana
Ajuda
Prevenção ao suicídio
Subtenente e diretor da Aspra, Heder Martins de Oliveira explica que uma pesquisa com 34 psicólogos foi desenvolvida para a prevenção e acompanhamento de casos de vulnerabilidade emocional.
“Temos trabalhado junto ao comando a possibilidade de rediscutir e criar uma política de valorização, para minimizar esses casos. Nos últimos anos não tivemos tanto, mas este ano já o 31º profissional da segurança pública a suicidar. Já é bem mais que o ano passado todo. É assustador”, explica o diretor.
A associação quer atuar na causa do problema. “Entender o que está gerando tudo isso, dar uma minimizada. Esse é o projeto: que possamos prevenir, ver os indicadores. O cara veste a farda, tem que trabalhar, produzir. Não preocupa-se com a pessoa. A ideia é estarmos sempre próximos, discutindo, analisando, vendo o nível de estresse, depressão, somatização dos problemas”, completa o subtenente.
Ao BHAZ, a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) disse que não fornece dados sobre resultados de exames psicológicos de policiais no Estado. “A informação é de cunho pessoal e cada código de Classificação Internacional de Doenças (CID) é de sigilo médico-paciente. A instituição garante que todo o acompanhamento da saúde dos militares da ativa é feito rotineiramente com exames periódicos, e todos que necessitam acompanhamento, da ativa ou da reserva, o recebem prontamente”.

Segundo a psicóloga Thaís Alves, a abordagem tem que ser sempre no sentido de oferecer ajuda e escutar a pessoa. “Muitas vezes vemos abordagens mais invasivas, de dizer a pessoa que o ela deve fazer. Isso nunca é indicado. A chegada até a pessoa deve ser respeitosa, aberta, cuidadosa e sempre escutar o que essa pessoa tem a dizer”, explica.
“Ao escutá-la, deve-se passar a orientação de procurar ajuda de profissionais da área, como psicólogo, médicos-psiquiatras ou serviços públicos mesmo”, relata.
Ainda de acordo com a profissional, enquanto sociedade, muitas vezes produzimos esses sintomas. “Então, muitas vezes não acolhemos essas pessoas, não as ouvimos. Até porque, no mundo onde vivemos, não há nem espaço para isso. Estamos sempre acelerados, com relações cada vez mais rápidas e descartáveis”.
“O tipo de pressão que essas pessoas lidam, os problemas, tudo é muito forte. Estamos imersos em um nível de violência altíssima em nossa sociedade. Esse é o discurso da sociedade e, no Brasil, mais ainda. Construímos a violência como uma forma de vida em nosso país, então essas pessoas estão respondendo a isso”, completa.
Ligações para o Centro de Valorização da Vida (CVV), que auxilia na prevenção do suicídio, passaram a ser gratuitas em todo o país em julho do ano passado. Um acordo de cooperação técnica com o Ministério da Saúde, assinado em 2017, permitiu o acesso gratuito ao serviço, prestado pelo telefone 188.
Por meio do número, pessoas que sofrem de ansiedade, depressão ou que correm risco de cometer suicídio conversam com voluntários da instituição e são aconselhados. Antes, o serviço era cobrado e prestado por meio do 141.
A ligação gratuita para o CVV começou a ser implantada em Santa Maria (RS), há quatro anos, após o incêndio na boate Kiss, que matou 242 jovens. O centro existe há 55 anos e tem mais de 2 mil voluntários atuando na prevenção ao suicídio. A assistência também é prestada pessoalmente, por e-mail ou chat.

Fonte: BHAZ

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