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domingo, 2 de agosto de 2015

A dignidade morreu no horário de pico

Vendedor ambulante é atropelado por um trem no Rio e, para evitar o bloqueio da estação, um outro trem passa por cima de seu corpo. Um ano sem Claudia e sem culpados
Vendedor de doces e balas nos superlotados trens do Rio de Janeiro, Adílio Cabral dos Santos, como o resto dos colegas de profissão, cruzava os trilhos para evitar que os fiscais apreendessem sua mercadoria. Até que um maquinista o atropelou na tarde desta terça-feira. Ele caiu entre os trilhos e, minutos depois, um outro trem passou por cima de seu corpo por ordem da empresa que gerencia o serviço. O corpo de Adílio estava interrompendo o tráfego, a estação de Madureira estava lotada e 6.000 passageiros precisavam que o trecho fosse liberado para chegar às suas casas. Adílio Cabral dos Santos teve o azar de morrer no horário de pico.
Vendedor de doces e balas nos superlotados trens do Rio de Janeiro, Adílio Cabral dos Santos, como o resto dos colegas de profissão, cruzava os trilhos para evitar que os fiscais apreendessem sua mercadoria.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Por corrupção, Alstom é condenada a pagar 772 milhões de dólares…nos EUA

A empresa francesa, que é uma das principais acusadas de envolvimento no cartel do Trensalão em São Paulo, assinou um acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos após acusações de suborno a funcionários do governo para garantir contratos em diversos países no mundo
Um dos principais nomes no caso de corrupção no Brasil, o cartel paulista do Trensalão, a empresa francesa Alstom fechou um acordo para pagar US$ 772 milhões em multas, depois que acusações de suborno a funcionários do governo para garantir contratos bilionários em equipamentos de energia dentro de países como Arábia Saudita, Bahamas, China, Egito, Índia e Indonésia. O acordo foi feito com o Departamento de Justiça norte-americano nesta segunda-feira (22) e é a maior multa criminal aplicada no país a uma empresa por corrupção no exterior. O Departamento de Justiça afirma que a Alstom admitiu ter pago mais de US$ 75 milhões em propinas, para receber em contrapartida, 4 bilhões em projetos ao redor do mundo, no mínimo. O acordo teria como objetivo resolver a questão dos subornos no exterior – tendo inclusive vendido grande parte de seu negócio de energia para a norte-americana General Electric e, consequentemente, transferindo suas dívidas à GE como parte do pacote.
Um dos principais nomes no caso de corrupção no Brasil, o cartel paulista do Trensalão, a empresa francesa Alstom fechou um acordo para pagar US$ 772 milhões em multas, depois que acusações de suborno a funcionários do governo para garantir contratos bilionários em equipamentos de energia dentro de países como Arábia Saudita, Bahamas, China, Egito, Índia e Indonésia.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

SP: Mais 23 metroviários são readmitidos

O juiz Thiago Melosi Sória, do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), determinou nesta terça-feira (30) a readmissão de mais 23 dos 42 funcionários do Metrô de São Paulo que foram demitidos durante a greve de junho. Com a decisão, sobe para 35 o número de metroviários readmitidos – 33 por intervenção da Justiça. Para o magistrado, não há provas de que os funcionários tenham cometido atos ilícitos que justifiquem as demissões por justa causa, conforme alegou o Metrô em telegramas enviados aos trabalhadores. Os metroviários devem receber comunicado da companhia informando sobre a readmissão em até cinco dias após a notificação da empresa,
Metroviários haviam sido demitidos durante a greve dos trabalhadores do metrô
O juiz Thiago Melosi Sória, do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), determinou nesta terça-feira (30) a readmissão de mais 23 dos 42 funcionários do Metrô de São Paulo que foram demitidos durante a greve de junho. Com a decisão, sobe para 35 o número de metroviários readmitidos – 33 por intervenção da Justiça.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Em assembleia, metroviários de São Paulo decidem continuar a greve

Completa cinco dias nesta segunda-feira (09), a greve dos metroviários de São Paulo. A categoria, que deflagrou a paralisação na última quinta-feira (05), decidiu em assembleia realizada na noite deste domingo pela manutenção do movimento paredista.
Em assembleia, metroviários de São Paulo decidem continuar a greve
A decisão foi tomada após um julgamento rigoroso do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 2ª Região, que decidiu pelo cumprimento à risca da oferta do Metrô aos trabalhadores (8,7%), pela abusividade da greve e pelo desconto dos dias parados, além de não garantir estabilidade aos grevistas.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

SP: Empresa corruptora cita 'amigos políticos' no governo tucano


Aumentam suspeitas de corrupção com email de ex-presidente da Alstom no Brasil
Reportagem do jornal Estado de São Paulo revelou nesta quinta-feira (24) o conteúdo de um email escrito pelo então presidente da Alstom no Brasil,  o engenheiro José Luiz Alquéres, em 18 de novembro de 2004, no qual ele recomenda que diretores da empresa contratem Arthur Gomes Teixeira, consultor apontado pelo Ministério Público como o pagador de propinas a funcionários do Mêtro e CPTM do governo do estado de São Paulo. O email de Alquéres foi endereçado aos diretores de quatro áreas da empresa com cópia para os mandatários mundiais da Alstom, na França, e foi captado pela Procuradoria da Suíça durante a investigação da suspeita de pagamento de propina a João Roberto Zaniboni - ex-diretor de operações e manutenção da CPTM entre 1998 e 2003.
"Cooperação"
"Temos um longo histórico de cooperação com as autoridades do Estado de São Paulo, onde fica localizada nossa planta(...).O novo prefeito recém-eleito participa das negociações que vão nos permitir a reabertura da Mafersa como Alstom Lapa. O atual governador também participa.", escreve ele referindo-se à José Serra, recém-eleito como prefeito do município e Geraldo Alckmin, gonvernador do Estado, ambos do PSDB.
Segundo a reportagem, em 2004 a unidade Alstom Lapa não ia bem financeiramente, tinha poucos contratos e sofria com a falta de investimento, chegando quase a fechar as portas. Para que a empresa voltasse a ser competitiva o presidente apostava em contratos com o governo paulista: "Nesse período de mudanças sofremos duas grandes derrotas em leilões públicos, coisa que não ocorria há anos. Mas ainda podemos ter sucesso nos 4 projetos que o estado de São Paulo vai negociar ou leiloar nas próximas semanas".
"Amigos políticos"
A suspeita, portanto, de que houve pagamento de propina nos processos de licitação ganha corpo com as afirmações de Alquéres: "O processo está avançando, começo a receber mensagens de parceiros em potencial, e, principalmente, dos amigos políticos do governo que apoiei pessoalmente. A Alstom deve estar presente, como no passado."
Em 2005, um dos projetos pelo qual a empresa se interessava foi vencido por um consórcio liderado pela Alstom, no valor de R$ 223,5 milhões, o que resultou na compra de 12 trens para a CPTM. A Promotoria de São Paulo moveu uma ação por "grave irregularidade no sexto aditamento, verdadeira fraude à licitação e desvirtuamento total do contrato inicial", que aumentou em 73,69% o valor da compra.
Propina
Cópias de documentos bancários que chegaram ao Brasil através do Ministério Público suíço revelam que Teixeira transferiu US$ 103,5 mil para Zaniboni em maio de 2000. Naquele mesmo ano, em dezembro, um sócio do consultor transferiu US$ 113,3 mil para o ex-diretor da CPTM.
Cinco dirigentes são citados por Alquéres no email: "Três das cinco pessoas que foram dispensadas recentemente, como Carlos Alberto (diretor-geral) e Reynaldo Goulart (Desenvolvimento de Negócios) ou transferidas como Reynaldo Benitez (diretor financeiro) desenvolveram fortes e robustos relacionamentos pessoais com membros da CPTM e do Metrô-SP.
Fonte: Caros Amigos

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

PF investiga Fagali Neto, homem-bomba do metrô

Anotem este sobrenome: Fagali. É o elo que pode unir várias pontas do chamado propinoduto do metrô paulista, segundo a Polícia Federal. De acordo com reportagem publicada nesta segunda-feira pela Folha de S. Paulo, o consultor José Fagali Neto pode ser o chamado "homem-bomba" do escândalo. Irmão de José Jorge Fagali, serrista e ex-presidente do Metrô na gestão tucana, José Fagali Neto foi denunciado à Polícia Federal pela secretária Edna Flores, que entregou aos Ministério Público estadual e federal emails pessoais do consultor.

Nas mensagens, fica evidente o livre trânsito da família Fagali à cúpula do tucanato. Segundo a secretária, o engenheiro Pedro Benvenuto, atual secretário-executivo do conselho gestor de Parcerias Público-Privadas frequentava o escritório do consultor em 2006 e 2007, quando era coordenador de gestão da Secretaria de Transportes Metropolitanos de São Paulo, à qual estão subordinadas o Metrô e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Em 2006, Alckmin era o governador. Em 2007, José Serra.

Numa dessas mensagens, Benvenuto antecipa a Fagalli dados sobre investimentos no metrô, como o plano de ações do setor. A secretária também apontou as ligações do consultor José Fagali Neto com as empresas Bombardier e Tejofran, que cresceu como um foguete na gestão Mário Covas. Ambas contrataram o consultor para conquistar uma PPP de R$ 1 bilhão na CPTM. As duas empresas foram denunciadas pela Siemens como integrantes do cartel do metrô.

Suspeito de intermediar propinas da Alstom, José Fagali Neto teve bloqueada uma conta de US$ 6,5 milhões na Suíça. O irmão, Jorge Fagali Neto, é um dos mais próximos integrantes do núcleo serrista.

As ligações da família Fagali com escândalos tucanos não são propriamente uma novidade. Em 2009, reportagem de Mário Cesar Carvalho, na Folha, denunciou o bloqueio dos recursos. O que espanta é que, até hoje, os irmãos não tenham sido denunciados. Abaixo, a reportagem de 2009 sobre o bloqueio dos recursos:

Justiça bloqueia conta atribuída a irmão do presidente do Metrô
Promotores brasileiros e suíços investigam suspeita de que conta na Suíça recebeu recursos ilegais da empresa Alstom
Mesma decisão congelou uma conta atribuída a outro suspeito no caso, Robson Marinho, conselheiro do TCE; ele nega ter conta na Suíça


MARIO CESAR CARVALHO
DA REPORTAGEM LOCAL 

A Justiça de São Paulo determinou o bloqueio de uma conta na Suíça atribuída a Jorge Fagali Neto, irmão do presidente do Metrô, por ter indícios de que ela recebeu recursos ilegais da Alstom. A mesma decisão bloqueia uma conta também na Suíça atribuída a Robson Marinho, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e segundo homem na hierarquia no primeiro governo de Mario Covas (1995-1999).

A Folha revelou no final de junho que a Suíça havia bloqueado uma conta atribuída a Marinho. Tanto Marinho quanto Fagali Neto negam ter contas na Suíça. A Alstom está sob investigação no Brasil e na Suíça por suspeitas de ter pago propina para obter negócios com políticos tucanos.
A decisão foi tomada pela juíza Maria Gabriela Spaolonzi, da 13ª Vara de Fazenda Pública. Ela concedeu liminar solicitada pelos promotores Silvio Marques, Saad Mazloum e Mario Sarrubbo, da Promotoria do Patrimônio Público e Social.

Perto de R$ 20 mi
A conta atribuída a Fagali Neto foi aberta no Banque Safdié de Genebra e recebeu perto de R$ 20 milhões. Os depósitos somam US$ 10.558.069 (R$ 19,3 milhões em valores atuais) e 211 mil (R$ 546,4 mil) até setembro de 2003, segundo documentos do Ministério Público da Suíça.

As últimas informações dos promotores suíços mostram que a conta de Fagali Neto tem um saldo de cerca de US$ 7,5 milhões (R$ 13,7 milhões). Ele foi diretor financeiro do Metrô em 1993 e secretário de Transportes em 1994 (governo de Fleury Filho). Seu último cargo público foi no departamento de projetos especiais do Ministério da Educação entre 2000 e 2003, na gestão do ministro Paulo Renato.
Em outubro de 2003, um mês depois de a conta atribuída a Fagali Neto ter recebido recursos da Alstom, o governador de São Paulo à época, Geraldo Alckmin (PSDB), assinou o contrato para a construção da linha 4-Amarela, um negócio de R$ 1,8 bilhão. A Alstom integra o consórcio que faz a linha.

Em setembro de 2003, o irmão de Fagali Neto, José Jorge Fagali, era gerente de custos do Metrô. Em 2007, meses depois de um acidente num túnel da linha 4-Amarela que matou sete pessoas, foi nomeado presidente da empresa pelo governador José Serra (PSDB).

O dinheiro que está na conta atribuída a Fagali Neto saiu da Alstom e passou por pelo menos três outras contas até chegar ao Banque Safdié, de acordo com a documentação suíça.
O trânsito do dinheiro por outras contas foi uma forma de tentar despistar que a origem do dinheiro era a Alstom, segundo promotores brasileiros.

As duas contas já haviam sido bloqueadas pelo Ministério Público da Suíça. A concessão de liminar pela 13ª Vara de Fazenda Pública tem como objetivo evitar que a Justiça suíça suspenda o bloqueio, sob alegação de que o Brasil não teria interesse pelo caso por não ter tomado nenhuma decisão judicial sobre aqueles valores. Serve também para preparar o terreno jurídico para eventual repatriamento de recursos.
Fonte: O Esquerdopata

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mídia e metrô tucano: como servir a Deus sem trair o Diabo?


Nunca a sorte política do PSDB – seus caciques e derivados— dependeu tanto da indulgência da mídia conservadora como agora. 

E nunca, como agora, esse centurião de todas as horas esteve tão frágil para ajudá-los.

A sobrevivência mesmo esfarrapada do PSDB depende dramaticamente da decisão em torno da qual orbitam há dias os proprietários, editorialistas, colunistas, pauteiros e mancheteiros do dispositivo midiático conservador.

Aliviar ou não para um PSDB mergulhado até o nariz no conluio com oligopólios e corrupção no caso das licitações para compra de vagões do metrô, em São Paulo?

A hesitação no ar é tão densa que dá para cortar com uma faca.

Jorros de ambiguidade escorrem dos veículos impressos no café da manhã.

Num dia, como na 4ª feira passada, a Folha escondeu o escândalo retirando-o da 1ª página.

Mas encontrou espaço para estampar ali outra ‘grave denúncia’: a reforma de calçadas no centro de São Paulo não tem plano equivalente para as periferias.

Na edição seguinte, porém, o jornal dos Frias precipitou a publicação de um indício de envolvimento direto de José Serra com o cartel, em 2008. 

Como?

Jogou a informação no papel. Sem investigar a fundo, como deveria, e fez, quando o alvo eram lideranças progressistas.

Não ouviu outros executivos de empresas participantes da mesma licitação, não biografou o braço direito do governador na operação denunciada pela Siemens. Não foi até Amsterdã ouvir testemunhas, checar informações, refazer o roteiro de Serra, conferir reuniões no hotel etc etc.

O secretário de transportes metropolitanos de Serra, então, e segundo a denúncia da multinacional alemã, parceiro do governador nas tratativas, era o engenheiro José Luiz Portella.

Por que o perfil de figura chave não foi esmiuçado?

Colunista da Folha atualmente, Portella é um quadro clássico: perfil público rebaixado, versatilidade operacional elevada dentro do PSDB. 

Ela inclui serviços prestados ao governo FHC, no ministério da Educação, dirigido por Paulo Renato de Souza, já falecido.

Por acaso, Paulo Renato seria seu companheiro também no governo Serra, quando a secretaria da Educação de SP adquiriu, sem licitação, cerca de R$ 8 milhões em assinaturas de jornais , revistas e outras publicações dos grupos Estadão, Globo e Abril. (Em 2010 Serra deixaria o governo de SP para, com apoio da mídia, ser derrotado outra vez em uma disputa presidencial, agora por Dilma Rousseff.)

A pressa da Folha em veicular uma denúncia séria sem investigação anterior –e tampouco posterior, sintetiza um certo desespero que perpassa todo o dispositivo midiático conservador nesse momento.

A angústia deriva da difícil missão que os acontecimentos impõem ao jornalismo ‘isento’ nos dias que correm.

Como servir a Deus sem trair o Diabo?

Foi o que tentou a Folha nesse caso.

De um lado, mitigar a cumplicidade pública entre ela e Serra.

De outro, ao comprometer o tucano, faze-lo de forma tão frívola, que levou o jornal a omitir até mesmo reportagens anteriores de sua própria lavra, que endossariam a denúncia da Siemens. 

Em 26 de outubro de 2010, a Folha revelou que seis meses antes da licitação dos lotes 3 e 8 da linha 5 (Lilás) do metrô, sua reportagem já tivera acesso aos nomes dos vencedores das obras. 

A Folha registrou então as empresas vencedores em vídeo e em cartório nos dias 20 e 23 de abril de 2010. (Leia a cópia da reportagem da Folha ao final dessa nota)

Se isso não é uma corroboração forte de práticas sistêmicas de conluio, corrupção e cartel no governo Serra, o que mais seria então?

Por que a Folha menosprezou esses antecedentes?

Por que, se eles enfraquecem sobremaneira as alegações de Serra, Alckmin e assemelhados de espanto com práticas idênticas relatadas pela Siemens, agora também na etapa de aquisição de equipamentos? 

A frouxidão moral dos colunistas savonarolas, o laxismo ético dos editoriais tem motivo de força maior.

A mídia está envolvida até o pescoço nesse escândalo, sugestivamente só revelado por iniciativa da pata empresarial do negócio e da ação do Cade.

Seu envolvimento tem um nome: omissão.
E sobrenome: cumplicidade.

Como explicar que o diligente jornalismo bandeirante, sempre tão atento à malversação da coisa pública na esfera federal, nunca investigou a fundo aquilo que esteve o tempo todo diante do seu nariz?

E não só diante do nariz, mas, como se vê pela reportagem de 2010, em suas próprias páginas, em escândalos, todavia, rebaixados como episódicos e pontuais?

A mídia conservadora hesita, se retorce e se remói.

A dimensão sistêmica do que aflora no metrô de SP coloca-a diante de um duplo abraço de afogados.

Se não investigar a fundo esse episódio, veiculado a fórceps, naufragará como parceira carnal do tucanato.

Se investigar, com rigor e isenção, uma prática de 16 anos de governos que sempre contaram com seu esférico apoio, em algum momento, de certa forma, terá que investigar a si própria. 

Leia abaixo, a reportagem da Folha de 2010, ’esquecida’ no episódio equivalente de 2013.

26/10/2010 - 03h00 
Resultado de licitação do metrô de São Paulo já era conhecido seis meses antes

RICARDO FELTRIN
DE SÃO PAULO 

A Folha soube seis meses antes da divulgação do resultado quem seriam os vencedores da licitação para concorrência dos lotes de 3 a 8 da linha 5 (Lilás) do metrô. 

O resultado só foi divulgado na última quinta-feira, mas o jornal já havia registrado o nome dos ganhadores em vídeo e em cartório nos dias 20 e 23 de abril deste ano, respectivamente. 

A licitação foi aberta em outubro de 2008, quando o governador de São Paulo era José Serra (PSDB) --ele deixou o cargo no início de abril deste ano para disputar a Presidência da República. Em seu lugar ficou seu vice, o tucano Alberto Goldman. 

O resultado da licitação foi conhecido previamente pela Folha apesar de o Metrô ter suspendido o processo em abril e mandado todas as empresas refazerem suas propostas. A suspensão do processo licitatório ocorreu três dias depois do registro dos vencedores em cartório. 

O Metrô, estatal do governo paulista, afirma que vai investigar o caso. Os consórcios também negam irregularidades ou "acertos". 

O valor dos lotes de 2 a 8 passa de R$ 4 bilhões. A linha 5 do metrô irá do Largo 13 à Chácara Klabin, num total de 20 km de trilhos, e será conectada com as linhas 1 (Azul) e 2 (Verde), além do corredor São Paulo-Diadema da EMTU. 

VÍDEO E CARTÓRIO 
A Folha obteve os resultados da licitação no dia 20 de abril, quando gravou um vídeo anunciando o nome dos vencedores. 

Três dias depois, em 23 de abril, a reportagem também registrou no 2º Cartório de Notas, em SP, o nome dos consórcios que venceriam o restante da licitação e com qual lote cada um ficaria. 

O documento em cartório informa o nome das vencedoras dos lotes 3, 4, 5, 6, 7 e 8. Também acabou por acertar o nome do vencedor do lote 2, o consórcio Galvão/ Serveng, cuja proposta acabaria sendo rejeitada em 26 abril. A seguir, o Metrô decidiu que não só a Galvão/Serveng, mas todas as empresas (17 consórcios) que estavam na concorrência deveriam refazer suas propostas. 

A justificativa do Metrô para a medida, publicada em seu site oficial, informava que a rejeição se devia à necessidade de "reformulação dos preços dentro das condições originais de licitação". 

Em maio e junho as empreiteiras prepararam novas propostas para a licitação. Elas foram novamente entregues em julho. 

No dia 24 de agosto, a direção do Metrô publicou no "Diário Oficial" um novo edital anunciando o nome das empreiteiras qualificadas a concorrer às obras, tendo discriminado quais poderiam concorrer a quais lotes. 

Na quarta-feira passada, dia 20, Goldman assinou, em cerimônia oficial, a continuidade das obras da linha 5. O nome das vencedoras foi divulgado pelo Metrô na última quinta-feira. Eram exatamente os mesmos antecipados pela reportagem. 

OBRA DE R$ 4 BI 
Os sete lotes da linha 5-Lilás custarão ao Estado, no total, R$ 4,04 bilhões. Os lotes 3 e 7 consumirão a maior parte desse valor. 

Pelo edital, apenas as chamadas "quatro grandes" --Camargo Corrêa/Andrade Gutierrez e Metropolitano (Odebrecht/ OAS/Queiroz Galvão)-- estavam habilitadas a concorrer a esses dois lotes, porque somente elas possuem um equipamento específico e necessário (shield). Esses dois lotes somados consumirão um total de R$ 2,28 bilhões. 

OUTRO LADO 
Em nota, o Metrô de São Paulo informou que vai investigar as informações publicadas hoje na Folha. 

A companhia disse ainda que vai investigar todo o processo de licitação. 

"É reconhecida a postura idônea que o Metrô adota em processos licitatórios, além da grande expertise na elaboração e condução desses tipos de processo. A responsabilidade do Metrô, enquanto empresa pública, é garantir o menor preço e a qualidade técnica exigida pela complexidade da obra." 

Ainda de acordo com a estatal, para participação de suas licitações, as empresas precisam "atender aos rígidos requisitos técnicos e de qualidade" impostos por ela. 

No caso da classificação das empresas nos lotes 3 e 7, era necessário o uso "Shield, recurso e qualificação que poucas empresas no país têm". "Os vencedores dos lotes foram conhecidos somente quando as propostas foram abertas em sessão pública. Licitações desse porte tradicionalmente acirram a competitividade entre as empresas", diz trecho da nota. 

O Metrô afirmou ainda que, "coerente com sua postura transparente e com a segurança de ter conduzido um processo licitatório de maneira correta, informou todos os vencedores dos lotes e os respectivos valores". 

Disse seguir "fielmente a lei 8.666" e que "os vencedores dos lotes foram anunciados na sessão pública de abertura de propostas". "Esse procedimento dispensa, conforme consta da lei, a publicação no 'Diário Oficial'". 

Todos os consórcios foram procurados, mas só dois deles responderam ao jornal. 

O Consórcio Andrade Gutierrez/Camargo Corrêa, vencedor da disputa para construção do lote 3, diz que "tomou conhecimento do resultado da licitação em 24 de setembro de 2010, quando os ganhadores foram divulgados em sessão pública". 

O consórcio Odebrecht/ OAS/Queiroz Galvão, vencedor do lote 7, disse que, dessa licitação, "só dois trechos poderiam ser executados com a máquina conhecida como 'tatu' e apenas dois consórcios estavam qualificados para usar o equipamento". 

"Uma vez que nenhum consórcio poderia conquistar mais que um lote, a probabilidade de cada consórcio ficar responsável por um dos lotes era grande", diz.

O consórcio Odebrecht/ OAS/Queiroz Galvão diz ter concentrado seu foco no lote 7 para aproveitar "o equipamento da Linha 4, reduzindo o investimento inicial".


Fonte: A Carta Maior