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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Chilenos se preparam para um plebiscito histórico sobre manter ou dar adeus à “Constituição do Pinochet

Chilenos estão ansiosos para o plebiscito, adiado desde abril por conta da pandemia


Era uma demanda colocada por alguns setores da sociedade chilena há anos, mas foram os protestos de 2019 os que voltaram exigir a derrubada da Constituição de 1981, imposta pela ditadura militar de Augusto Pinochet. Agora, no domingo 25 de outubro, mais de 14 milhões de chilenos acudirão às urnas em um plebiscito histórico que decidirá se o país “aceita” (aprueba) ou “rejeita” (rechaza) uma nova Carta Magna. A votação foi pensada como um caminho político para aplacar a crise social que o Chile enfrenta.


Os ânimos estão à flor da pele. Nos muros, nas redes sociais, na mídia praticamente não se fala de outra coisa. Não é para menos, já que o plebiscito, inicialmente marcado para o dia 26 de abril, foi atrasado pelo governo devido à pandemia. Além disso, acontecerá somente uma semana depois do primeiro aniversário do chamado “estallido social”, iniciado em 18 de outubro de 2019, quando milhões de pessoas saíram às ruas para exigir um país mais igualitário. Mas a sociedade chilena -como tantas outras na América Latina e no mundo- está profundamente polarizada e, apesar de as pesquisas dizerem que a maioria votará pelo “aceita”, nada está definido.

Por um lado, o “apruebo” reúne intenções diversas, que vão desde exigir uma mudança no modelo neoliberal chileno até entregar mais direitos às mulheres, aos índios e às diversidades sexuais.
Alejandra Saez, uma trabalhadora independente, me disse que vai aprovar porque “se necessita uma mudança imediata, apesar de que o resultado chegue com o tempo, tomar a decisão de transformar o sistema já é um grande avanço”. “Quero que as novas regras validem o bem-estar das pessoas e não os cofres dos outros. Que não nos sintamos atacados pelo sistema”, afirmou.

Já o bioquímico Francisco Pereira me explicou que votará “apruebo” porque considera que é necessária uma “mudança drástica na atual Constituição, já que apesar de que outorga direito a serviços básicos, em nenhum momento garante o acesso a esses serviços, deixando muitos recursos principalmente nas mãos do mundo privado. Além disso, foi escrita para um contexto de desenvolvimento de país determinado muito diferente do atual, e é bastante rígida, o que dificulta que ela seja adaptada às atuais necessidades do Chile”.

Nas campanhas eleitorais, também é possível ver que muitos dos que pedem uma nova Constituição querem reformar as instituições encarregadas da segurança pública, já que, em 2019, pelo menos 30 pessoas morreram, milhares ficaram feridas e o Chile foi cenário de graves violações aos direitos humanos no marco dos protestos sociais, segundo Human Rights Watch, a ONU, entre outros. De acordo com o Instituto Nacional de Direitos Humanos, 460 pessoas sofreram lesões oculares durante as manifestações devido ao uso excessivo da força policial. Delas, pelo menos duas ficaram completamente cegas.

Por outro lado, Natalia C. (que pediu não ser identificada) aposta pelo “rechazo” porque considera que “não há necessidade de escrever uma nova Constituição inteira para realizar as reformas que o país precisa”. Nas redes sociais, as pessoas que chamam a votar por essa alternativa também dizem temer que o Chile se transforme em um país “caótico” e/ou “esquerdista”.

Além disso, muitos sinalizam que votar “apruebo” seria dar um aval à destruição de patrimônio que ocorreu no marco das mobilizações sociais. É que o metrô de Santiago, várias igrejas, ruas e estátuas foram parcialmente destruídos e/ou incendiados desde outubro de 2019, mas não há informação detalhada disponível sobre quem foram os responsáveis de cada um desses atos.

Muitos ainda estão indecisos. O microempresário Javier Baltra comentou que achava melhor votar nulo porque “ambas as opções estão cheias de problemas. Aprovar pode ser sinônimo de um Estado maior, e eu acho isso problemático para a economia. E rejeitar é deixar tudo como está até agora e não sei se isso é uma boa ideia”.

Além de escolher entre as opções “apruebo” ou “rechazo” uma nova Constituição, os chilenos devem votar se desejam que a eventual Carta Magna seja escrita por uma Convenção Constitucional formada por 155 constituintes eleitos ou por uma Convenção Mista de 172 membros (metade legisladores e metade cidadãos eleitos).

A LEI ATUAL

Qualquer pessoa que não conheça a história do Chile provavelmente se surpreenderá ao saber que um país como este tenha ainda uma Constituição que foi escrita na época da ditadura militar. “Nossa, mas é um país tão desenvolvido”; “como assim?”; “sério?” foram alguns dos comentários que recebi de amigos brasileiros quando contei sobre o que está acontecendo agora.

A Constituição atual foi aprovada em um questionado plebiscito realizado no dia 11 de setembro de 1980, em plena ditadura do Pinochet, quando milhões de chilenos viviam sob o medo da repressão, sem registros eleitorais e com os partidos políticos dissolvidos.

O texto foi escrito pelo advogado constitucionalista Jaime Guzmán, um dos maiores ideólogos da direita chilena, e que foi assassinado por um comando de ultraesquerda em 1991.

Ele foi escolhido por uma comissão designada pela ditadura. Posteriormente, a redação contou com a revisão e o apoio do Conselho de Estado e a Junta Militar, composta pelos máximos chefes do Exército e o diretor da polícia, que exercia como “poder legislativo”. Guzmán criou uma série de regras muito difíceis de alterar para perpetuar seu modelo econômico e político.

Como ele mesmo disse quando escrevia a Constituição, sua ideia era que, se os adversários chegassem a governar, eles se veriam “obrigados a seguir uma ação não tão distinta ao que alguém como nós gostaria (…) que a margem seja suficientemente reduzida para fazer extremamente difícil o contrário”.
Para realizar reformas à Carta Magna, Guzmán detalhou que é necessário alcançar um quórum de dois terços ou três quintos, segundo o caso, algo que, na prática, tem sido praticamente impossível de conseguir, porque nem o oficialismo nem a oposição conta com essa quantidade de votos.

Essa Constituição também instaurou um modelo econômico, político e social neoliberal, que se adentrou na educação e na saúde privada e um sistema de aposentadoria conhecido como AFP baseado na poupança individual e que no ano passado entregou aposentadorias pelo valor de 110.000 pesos chilenos (uns US$ 140). Esse sistema, hoje sumamente questionado pela população chilena, foi elogiado pelo Ministro de Economia do Brasil, Paulo Guedes, em várias ocasiões.

Se bem que o texto legal não estabeleça especificamente que a saúde, a educação ou o sistema de aposentadoria devam ser privados, na prática, sim, impõe princípios que limitam a ação do Estado e promove a atividade privada nesses setores. Por exemplo: não existe no Chile nenhuma universidade que seja gratuita.

Segundo analistas, a Constituição atual também é hierárquica e desconecta a cidadania do poder político, porque não inclui muitos mecanismos de participação.

Ao longo da sua história, sofreu duas modificações: a primeira, em 1989, ano do fim da ditadura, quando foi derrogado um artigo que declarava “ilícitos” a grupos que realizassem “violência ou uma concepção da sociedade do Estado ou da ordem jurídica de caráter totalitário ou fundada na luta de classes”. Outra, em 2005, quando depois de um grande acordo político o presidente socialista Ricardo Lagos conseguiu alterar outros aspectos, como que os comandantes em chefe das Forças Armadas passassem a estar subordinados ao poder civil, e a eliminação de senadores designados e vitalícios. Isto permitiu que em 2006 (há 14 anos!) o Senado fosse totalmente conformado por membros de eleição popular.

Agora, se a opção “apruebo” ganhar o plebiscito, o texto não só será modificado: a sociedade poderá dar adeus à chamada “Constituição do Pinochet”. Sem dúvidas, uma decisão histórica.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

"Governo vai insistir em Previdência que levou Chile ao colapso social"

Após o Congresso Nacional concluir a aprovação da Reforma da Previdência, nesta quarta (23), muitos economistas, analistas e políticos passaram a defender que o Brasil precisará, em breve, de uma nova mudança nas regras das aposentadorias, uma vez que a economia gerada a partir de agora não será suficiente. Líderes da oposição ouvidos pelo blog afirmam que o ministro da Economia tentará, novamente, substituir o regime de repartição pelo de capitalização. Ou seja, os trabalhadores da ativa deixariam de contribuir para as pensões dos que estão aposentados e passariam a recolher para sua poupança individual.
Após o Congresso Nacional concluir a aprovação da Reforma da Previdência, nesta quarta (23), muitos economistas, analistas e políticos passaram a defender que o Brasil precisará, em breve, de uma nova mudança nas regras das aposentadorias, uma vez que a economia gerada a partir de agora não será suficiente. Líderes da oposição ouvidos pelo blog afirmam que o ministro da Economia tentará, novamente, substituir o regime de repartição pelo de capitalização. Ou seja, os trabalhadores da ativa deixariam de contribuir para as pensões dos que estão aposentados e passariam a recolher para sua poupança individual.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

No Chile, emerge uma esquerda sem medo

Surpresa nas eleições municipais: além da abstenção altíssima, e da derrota da ambígua presidente Bachelet, uma frente de organizações autonomistas vence na terceira maior cidade — e pode disputar a presidência
Domingo, 23 de outubro, foi dia de eleições municipais no Chile. A imprensa e os ativistas locais destacam três grandes fatos, nas análises preliminares dos resultados. Primeiro, os altíssimos índices de abstenção, reflexo da decantada crise de legitimidade do sistema político e dos partidos no país, reforçada por recentes escândalos envolvendo financiamento ilícito de campanhas. Segundo, a derrota da coalizão, supostamente de centro-esquerda, da presidente Michelle Bachelet, cujo governo tem se enredado cada vez mais em seus próprios limites e recuos com relação à agenda de reformas com que se elegeu.
Domingo, 23 de outubro, foi dia de eleições municipais no Chile. A imprensa e os ativistas locais destacam três grandes fatos, nas análises preliminares dos resultados.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Atividades relembram os 40 anos do golpe no Chile e da morte de Salvador Allende

Transformado em um dos grandes ícones do socialismo na América Latina, o ex presidente do Chile Salvador Allende, há quase 40 anos, no dia 11 de setembro de 1973, entraria para história. A data marca a deposição violenta de seu governo pelos militares, liderados por um dos mais sangrentos ditadores sul-americanos, Augusto Pinochet, cujo regime, que durou 17 anos, matou mais de 3 mil pessoas. Caiu um governo socialista e também seu presidente, que não resistiu à pressão, cometendo suicídio nessa mesma data com uma metralhadora, que teria ganhado do presidente cubano, Fidel Castro, dentro do Palácio La Moneda, que àquela altura já estava sendo bombardeado com apoio da CIA, agencia de inteligência dos Estados Unidos.

Allende, da Unidade Popular esquerdista, eleito democraticamente em 1970, com mais de 1 milhão de votos, em três anos de mandato, fez contundentes reformas no país. Destaque para a transferência do controle das minas de carvão, de cobre e dos serviços de telefonia da iniciativa privada para o Estado; de uma ampla intervenção nos bancos; do congelamento de preços; do aumento de salários dos trabalhadores; e, principalmente, começou a cumprir a promessa de reforma agrária, desapropriando grandes latifúndios, então improdutivos, e disponibilizando-os para os camponeses. Essas e outras medidas populares desagradaram profundamente a classe direitista do país, as grandes empresas e também o Governo dos EUA, que não queriam ter problemas com mais um governo socialista nas Américas, para além de Cuba.

Submetido a um forte bloqueio econômico por parte dos EUA, o Chile, e, consequentemente, o governo do presidente Salvador Allende, mergulharam em uma grave crise econômica, que culminou com o golpe militar, que sufocaria a via chilena rumo ao socialismo. Vale lembrar que o governo estadunidense esteve por trás de praticamente todos governos militares que tomaram à força o poder na América Latina nas décadas de 1960 e 1970, entre eles Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador e Uruguai.
Foto:Colección FSAConforme relata a Fundação Salvador Allende, no dia 11 de setembro de 1973, "às 7h40, o presidente Allende chegou ao Palácio de La Moneda. Ao meio-dia, começou o bombardeio liderado pelos militares. Salvador Allende rejeitou reiteradamente a oferta de exílio e de combate junto à sua guarda e colaboradores. Fez um discurso que se converteu em suas últimas palavras: "Tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens superarão esse momento cinza e amargo, em que a traição pretende impor-se, continuem vocês sabendo que, mais cedo ou mais tarde, serão abertas novamente as grandes alamedas por onde passará o homem digno para construir uma sociedade melhor”.
Durante todo o mês de setembro, atividades estão sendo realizadas no Chile e em outros lugares do mundo para relembrar os 40 anos do golpe de Estado e da morte de Allende. Segundo informações da Fundação Salvador Allende, as homenagens ao ex-presidente chileno começaram nesta quarta-feira, 04 de setembro, com o aniversário do triunfo da Unidade Popular, cujo candidato à Presidência, Salvador Allende, venceria as eleições realizadas no dia 04 de setembro de 1970. Houve ainda lançamentos de livros que contam a história do ex presidente e recuperam a memória do golpe militar.
Nesta sexta-feira, 06, está sendo realizado, em Santiago, o seminario internacional "Salvador Allende: República, Democracia e Socialismo”, que se estende até o sábado, 07. Propriamente no dia 11, quarta-feira, será iniciada a Ação "Memórias Coletivas”, no Museu da Solidariedade em Santiago, que contará, entre outras atividades, com o lançamento de uma aplicação multimídia que reproduz as últimas palabras de Allende antes do golpe e de sua morte.

Homenagens estão sendo prestadas em outras partes do mundo, a exemplo do Arquivo Cinematográfico da Grécia, que, entre os dias 04 e 11 de setembro, realiza um festival com exibição exclusiva de 22 filmes em memória da morte de Allende. Outras atividades acontecerão em Evere, na Bélgica, Buenos Aires e em Madrid.

Fonte: Portal Adital