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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Por trás do desaparecimento de 43 estudantes, militarização do Estado, estupidez da “guerra contra as drogas” e submissão total aos EUA. Agora, sociedade enfrenta sistema político

Após uma semana no exterior, o presidente do México, Enrique Peña Nieto voltou para casa no início de novembro para enfrentar a pior crise política de seu governo.Protestos violentos surgiram depois que uma guarnição local de polícia sumiu com 43 alunos de Ayotzinapa, uma faculdade de ensino rural no estado de Guerrero. Como as investigações continuam, a crise evidenciou a violência e corrupção que dominam grandes partes do país. Liderada por jovens, as manifestações, que se espalham por todo o território, culpam o governo por este ataque e outros semelhantes. No campus Ayotzinapa, onde os pais esperam por notícias de seus filhos, um deles me disse: “O governo sabe onde eles estão” em uma voz carregada de cansaço e tristeza. Na noite de 26 de setembro carros de patrulha da polícia, na cidade de Iguala, bloquearam os ônibus de seu filho e os outros alunos que estavam viajando, e abriu fogo contra os passageiros. Durante a noite, outros alunos de Ayotzinapa chegaram para resgatar seus companheiros. Membros do sindicato dos professores públicos acudiram para ajudar. O tiroteio continuou. Em uma bizarra série de eventos, um comando armado atacou os estudantes nas horas seguintes. Perto dali, um terceiro ataque a um time de futebol local, possivelmente confundido com estudantes Ayotzinapa – deixou outro jovem e outros dois mortos. Fitas de vídeo que estão nas mãos do procurador do estado de Guerrero supostamente mostram que a polícia local também participou deste ataque. A Polícia Federal chegou ao local, pelo menos, duas horas mais tarde e se recusou a atender os feridos. De todo modo, os agentes que aplicam a lei limitaram suas atividades apenas em disparar contra os alunos, desaparecendo com 43 deles. Nenhum agente da lei — de qualquer esfera de governo — protegeu os jovens dos ataques, apesar dos investimentos maciços em segurança feitos nas últimas décadas, na “guerra contra as drogas”. Sobreviventes relatam que levaram um ferido para uma base militar próxima, onde o pessoal do exército recusou-se a ajudá-los. Nenhum soldado adiantou-se para tentar impedir o massacre da juventude. O Centro de Direitos Humanos de Guerrero emitiu um alerta urgente em 29 de setembro afirmando: “Estes eventos demonstram um uso excessivo da força e uma intenção deliberada, da Polícia Militar, de executar extrajudicialmente alunos, como também certa omissão por parte das autoridades estaduais e federais por não implementar medidas de segurança adequadas, que teriam impedido uma segunda agressão e o desaparecimento de 55 estudantes locais”. (atualmente, 43 continuam desaparecidos, enquanto 12 foram localizados com vida). Por que ocorreu o assassinato em massa? É praticamente impossível juntar as peças de forma lógica para chegar a alguma conclusão sobre quem ordenou os ataques e por que. Os executores, em especial, devem ter agido irracionalmente. Sabemos que a emboscada foi planejada de antemão e que os alvos eram os estudantes de Ayotzinapa. Além disso, há um debate acalorado sobre se o crime organizado comandou a polícia local, sob seu poder, no ataque aos alunos, ou se o governo usou as suas relações com o crime organizado para aterrorizar e assassinar os alunos. Para tornar as coisas mais complexas, por trás do debate há um consenso, segundo o qual a linha entre o crime organizado e o governo, na cidade, foi há muito tempo apagada pelo conluio entre as duas partes. O procurador-geral anunciou recentemente que as investigações mostraram que o prefeito de Iguala ordenou os ataques aos estudantes. Ele é acusado de ter laços estreitos com o cartel regional do crime organizado Guerreros Unidos — que supostamente era comandada pelos irmãos de sua esposa, até que dois deles foram assassinados e o terceiro foragiu-se. O governo também é culpado por ter falhado totalmente na manutenção da paz em Guerrero, um estado que combina os piores aspectos do abuso de governo e da violência criminal. A área externa de Iguala é uma das regiões de produção de drogas mais importantes do país. Além disso, a corrupção política do Estado garante a proteção e impunidade. Sua história de oposição, inclusive por grupos armados, faz com que seja também um centro nodal para a repressão.
Após uma semana no exterior, o presidente do México, Enrique Peña Nieto voltou para casa no início de novembro para enfrentar a pior crise política de seu governo.